quarta-feira, abril 22, 2009

Presságio


Graças ao bug do milênio, o 11 de setembro, a proximidade do amaldiçoado ano de 2012 e... Al Gore com suas verdades inconvenientes, Hollywood enche a nossa paciência com muitos filmes descartáveis e pouquíssimas produções interessantes sobre catástrofes causadas pelas ações impiedosas do Homem ou até de seres alienígenas. Chamo essa tendência de "filmes B com roupagem digital" criados para atualizar as paranóias aproveitadas pelo cinema nos anos 50. Presságio (Knowing, 2009) é mais um dessa lista. Mas temos uma pequena surpresa: O filme não é uma catástrofe - com o perdão do trocadilho - e diverte bastante o espectador que pretende escapar da realidade por cerca de 120 minutos. Agora, não dá pra se contentar com pouco, porque de duas, uma: Ou o estúdio tesourou a criatividade de Alex Proyas ou esse diretor não sabe trabalhar com muito dinheiro no bolso.

Não vou perder tempo comentando os problemas de Presságio, mas o filme tinha cacife para deixar o público refletindo por um bom tempo. A verdade é que não importa se o argumento é interessante. Filme lançado para abrir temporada de verão americano é feito para divertir quem paga pra ver Velozes e Furiosos. Pelo menos, essa é a tendência.

Faça como todo mundo e jogue o problema na logística, afinal Presságio poderia ter o mesmo diretor (explico isso já já) e o protagonista não precisaria ganhar o salário do Nicolas Cage, assim como o orçamento dos magníficos efeitos visuais poderia ser mais econômico. E para o bem da arte, seu lançamento deveria ser marcado para bem longe do verão americano. Seria outro filme, claro, mas o que me incomoda é saber que Alex Proyas tem talento para fazer mais do que um blockbuster formulaico e esquecível. E olha que alguns momentos deste filme parecem saídos de uma reunião de pauta comandada por estagiários ou de um brainstorm do crioulo doido feito pelo núcleo de direção das novelas da Globo.

Responsável por O Corvo e Cidade das Sombras, Alex Proyas tem olhos para a imaginação visual, mas ainda não teve a chance de imprimir sua marca ou assinatura. Galera, estamos numa era em que um cara como Michael Bay é reconhecido por seus filmes. Não é brinquedo não. Então como é que o diretor responsável por dois cults da década passada não consegue ficar famoso ou lançar um filmaço que marque uma geração na hora de trabalhar com um orçamento gigantesco? Se até M. Night Shyamalan é autor, por que Alex Proyas não chega lá?

Nesses dois pequenos grandes filmes citados, ele se saiu muito bem, mas quando topou dirigir Will Smiths e Nicolas Cages, sua visão sombria da Humanidade andou um tanto diluída entre cenas espetaculares de ação cuidadosamente planejadas. Foi o que aconteceu com Eu, Robô, que avacalhou Isaac Asimov, e Presságio, que poderia ser muito mais do que um roteiro de Mãe Dináh filmado por um bom diretor.

Ok, guilty as charged, Your Honor: Considero Alex Proyas um cara criativo. Talvez sua salvação esteja ao lado de produtores que entendam do riscado como Steven Spielberg, George Lucas, James Cameron e Peter Jackson. Em um belo dia, com um roteiro maluco de ficção científica sob seus cuidados e a liberdade necessária para tocar o projeto como bem entender, Proyas tem tudo para fazer um filmaço do gênero. Enquanto não liberta esse diretor, Hollywood brinca com suas ideias. E fazer o quê? Não é um problema exclusivo de Alex Proyas. Mas que ele deveria se arriscar por um filme menor como Cidade das Sombras da próxima vez, ah, deveria. Por enquanto, sei que ele tem mais a dizer por este caminho. Pelo menos até ser chamado para trabalhar com um dos integrantes do quarteto fantástico citado neste parágrafo.

Bom, mas o Presságio que temos é um filme de (e para) Nicolas Cage, ator que desandou geral após ganhar o Oscar por Despedida em Las Vegas. Até entendo que ele quis um reconhecimento como astro, mas tirando Con Air, A Outra Face e A Rocha, não houve nada que um cão esfomeado pudesse salvar do lixo. Apesar do parente que envergonha o clã Coppola, meu lado fanático por ficção científica até que tentou me trair. E Presságio é um prato cheio. Cage é John Koestler, professor e pai viúvo do menino Caleb (Chandler Canterbury). Em suas mãos está uma lista cheia de números que indicam tragédias ocorridas nos últimos 50 anos. Pior: três ainda estão por vir. Claro que o suspense fica em segundo plano e a trama é conduzida com clichês que vão do papai viúvo e alcóolatra ao amigo do peito que, na hora H, não acredita nas teorias excêntricas do chapa.

Mas me engana que eu gosto com esse lero lero de historinha pra boi dormir. Hollywood quer é mostrar como Nicolas Cage tentará impedir as tragédias anunciadas. Com PhD em blockbusters, você sabe que uma catástrofe precisa ser mais espetacular que a outra. Prefiro a primeira, que fez minha vida inteira passar diante dos meus olhos. Com poucos ou quase nenhum corte, a cena merece uma indicação ao Oscar de efeitos visuais e honra as melhores tentativas de Steven Spielberg em meter medo na plateia. Sem tempo para respirar, lembramos que ainda temos duas catástrofes pela frente. E não adianta exigir muito: A proposta de sugerir mais do que mostrar com a intenção de aumentar o suspense é coisa tão antiga quanto os grandes times de Botafogo e Santos. E é tanta coisa acontecendo neste filme que valeria mais a pena transformá-lo em série de TV.

Mesmo assim, o saldo dessa brincadeira deve ser mais positivo para o diretor Alex Proyas que para o astro Nicolas Cage. Se for inteligente, Proyas aproveitará a grana fácil de Presságio para fazer um filme de verdade. Talvez ele precise de um help do agente de M. Night Shyamalan, diretor que ainda tem permissão para filmar mesmo não fazendo nada tão bom quanto Presságio nos últimos anos.

Presságio (Knowing, 2009)
Direção: Alex Proyas
Roteiro: Ryne Douglas Pearson, Juliet Snowden e Stiles White
Elenco: Nicolas Cage, Chandler Canterbury, Rose Byrne, D.G. Maloney e Lara Robinson

5 Comments:

At 2:52 AM, abril 23, 2009, Blogger Louis Vidovix said...

Acho que esse filme é bem-sucedido ao criar suspense, mas que não consegue explicá-lo de forma satisfatória. Nicolas Cage continua canastrão, mas o diretor segura as pontas e tem boas sacadas (a cena sem cortes aparentes do desastre de avião é um espetáculo). Abraço!

 
At 3:11 AM, abril 23, 2009, Anonymous Denis Torres said...

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Entendeu agora? huahuahuahua

 
At 5:15 PM, abril 23, 2009, Blogger Carla Martins said...

Olá, Otávio!

Passa lá no meu novo blog e deixa um recadinho!

Não tinha um dia melhor do que o Dia Mundial do Livro para inaugurá-lo, néaaammm?
http://leituramaisqueobrigatoria.blogspot.com/

Beijos!

 
At 12:56 AM, abril 25, 2009, Anonymous Vinícius P. said...

O Proyas é um diretor bem competente e por isso mesmo acho que "Presságio" funciona - apesar de claramente ter vários problemas de roteiro. E ainda tenho esperança para o M. Night Shyamalan, hehehe.

 
At 5:22 PM, maio 21, 2009, Anonymous JohnP said...

O Nicholas Cage é um ator que me intriga

Pra cada filme bom (pelo que eu me lembro, Lord of War foi o último), ele joga tudo pro alto e engrena uma sequência assustadora de 10 filmes ruins.

E todos esses filmes existem dois componentes essenciais:
-Ferraris
-Nicholas Cage com um cabelo que parece uma águia levantando vôo

Eu sei que todo ator precisa fazer um ou dois filmes "não tão bons" pra enxer um pouco o cofrinho... Mas o Nicholas Cage exagera

 

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