terça-feira, outubro 06, 2009

A Partida


A Partida (Departures/Okuribito, 2008) é o filme que oferece a emoção mais profunda e, ao mesmo tempo, original que você verá/sentirá nos cinemas este ano. Com o diretor Yôjirô Takita, (re)aprendemos que a equação para se chegar ao bom cinema é simples: Um belo roteiro + ideia original + atores talentosos + montagem competente = cinéfilo satisfeito. Com tudo isso em mãos, o diretor precisa ser muito burro para estragar tudo. Basta dirigir o carro pela estrada vazia e sentir a brisa batendo no rosto. Sem acelerar ou diminuir a velocidade. Só… conduzir.

Palmas para o Sr. Takita, que pela simplicidade exacerbada, mostra que a vida é fantástica e não suja ou horrenda, como muito diretor desocupado e deprê tentou nos enfiar guela abaixo nesta década. É um filme que chega num tempo em que andamos esquecendo que o cinema pode falar do dia a dia de gente comum e permanecer belo, poético, encantador. É uma rica (e rara) experiência que entrelaça vida, morte e arte.

Em Tóquio, Daigo (Masahiro Motoki) trabalha como violoncelista numa orquestra. Ele pensa que nasceu para a música, mas quando perde o emprego, decide se mudar com a esposa para a cidade do interior onde nasceu. Lá, arruma um trabalho que ninguém imagina ter: a preparação de cadáveres para funerais. Seu novo ganha pão é um tanto incomum e atrai reações preconceituosas até mesmo de sua mulher.


Aos poucos, Daigo percebe que não é exatamente um profissional do ramo, mas um artista. Como Picasso, Mozart e tantos outros gênios, Daigo é incompreendido na execução de sua arte. É interessante ver como o diretor sugere que todos nós temos um dom, mas nem sempre nos damos conta disso. A Partida também é um filme sobre segunda chance – sem esbarrar nos clichês que já bateram na sua mente, caro leitor, neste exato momento como recordação cinéfila. Daigo, como todo mundo, tem acertos de contas com algum acontecimento do passado. E essa pendência com o destino será resolvida, no final, de forma inesperada e emocionante.

Original ao extremo – sem a urgência de mostrar que é original, como fazem diretores e roteiristas badalados de Hollywood -, A Partida tem a morte rondando suas duas horas de projeção, mas o diretor quer falar mesmo é de vida. Lembro que ninguém discute sobre a morte neste filme. Ou, pelo menos, isso não ficou registrado em minha mente. Pelo contrário: é como se a morte estivesse ali para mostrar que estamos vivos. Daigo – e qualquer ser humano – não precisa morrer para resolver assuntos pendentes. Basta viver, olhar para aquela pessoa amada e demonstrar frases de redenção como “Eu te amo!”, “Eu estou aqui!”

A morte sempre foi um tabu pouco analisado pelo cinema. Com todo o cuidado necessário, A Partida trata o tema com leveza, emoção e delicadas doses de humor nos momentos certos. O Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, conquistado este ano, é apenas um detalhe.

A Partida (Departures/Okuribito, 2008)
Direção: Yôjirô Takita
Roteiro: Kundo Koyama
Elenco: Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue e Kazuko Yoshiyuki

8 Comments:

At 6:58 PM, outubro 06, 2009, Anonymous Denis Torres said...

Mandou bem! Esse filme é um dos meus preferidos e vai ser difícil me emocionar desse jeito até o fim de 2009. Foi umas críticas que eu mais senti prazer em escrever. Abs!

 
At 7:10 PM, outubro 06, 2009, Blogger Bruno Soares said...

Tinha lido coisas interessantes sobre esse filme lá no vinícius. É um dos que eu quero ver nesse restinho de ano.

 
At 8:11 PM, outubro 06, 2009, Anonymous Kamila said...

A cada novo texto que leio sobre esse filme, maior fica a minha vontade de conferi-lo.

Beijos!

 
At 11:46 PM, outubro 06, 2009, Anonymous Wally said...

Adorei seu texto. Simples e efetivo. Fiquei (ainda mais) doido para ver o filme, que não chegou por aqui ainda.

 
At 12:27 AM, outubro 07, 2009, Anonymous Vinícius P. said...

Que bom ter gostado desse filme também. Até vê-lo não esperava muita coisa, mas ao fim estava extremamente emocionado. Uma maravilha!

 
At 1:23 PM, outubro 07, 2009, Blogger Pedro Henrique said...

Sabia que você iria gostar do filme. É realmente tudo isso.

 
At 7:56 PM, outubro 07, 2009, Anonymous O Cara da Locadora said...

Acho que o principal desse filme mesmo é a simplicidade dele e o quanto consegue nos emocionar apesar (ou por causa) dela...

 
At 8:01 PM, outubro 08, 2009, Blogger Mayara Bastos said...

Estou muito curiosa em ver este filme, e seu texto me entusiasmou mais para procurá-lo.

Beijos! ;)

 

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