sábado, janeiro 05, 2008

Blade Runner - O Caçador de Andróides


Em 2019, o mundo sofrerá com a desigualdade social. As pessoas não terão muito espaço para caminhar nas ruas lotadas de todos os tipos. Os animais estarão extintos, o ar será pesado e a chuva cairá ininterruptamente queimando a superpopulação. Todas as invenções tecnológicas do homem foram criadas para satisfazê-lo. A informação estará em todos os cantos do planeta e seremos escravos de nossos próprios trabalhos. O único tempo disponível para o lazer será reservado para saciar o apetite sexual.

Algumas dessas previsões descritas em Blade Runner - O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982) já deixaram a ficção científica de lado e entraram para a nossa realidade. É claro que arranha-céus gigantescos capazes de abrigar cidades inteiras ainda existem no sentido metafórico, assim como carros voadores. Mas esses automóveis devem voar em Blade Runner, porque é quase impossível dirigir no chão. Um dia, isso pode vir a ser uma solução. O melhor filme de Ridley Scott, no entanto, utiliza esse cenário de caos urbano para refletir sobre uma questão eterna: enfim, o que significa ser um humano?

Para isso, o diretor (inspirado pelo conto de Philip K. Dick) nos apresenta aos "replicantes" ou andróides criados a imagem e semelhança do homem. Blade Runner mostra a fase Nexus 6 deste projeto. Os replicantes dessa safra são cada vez mais humanos e conseguem assimilar emoções baseadas em suas experiências próprias de vida. Infelizmente, eles são incapazes de controlar emoções. Os replicantes foram criados pela Tyrell Corporation para servir ao homem. Eles trabalham como escravos em colônias espaciais (jamais mostradas durante o filme), onde vive a classe de alto padrão. Na Terra, só ficam os pobres e a escória. Ridley Scott situa o espectador neste universo, mas sua história começa com a rebelião de quatro replicantes, que vêm ao nosso planeta atrás de respostas.

De início, o que eles querem é um mistério. Mas descobrimos que eles têm apenas quatro anos de vida e querem durar mais. As respostas para as perguntas existenciais de Roy Batty (Rutger Hauer), o líder deste quarteto está com o Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel), pai do projeto. No rastro dos replicantes, o policial Rick Deckard (Harrison Ford) é enviado para eliminar os invasores.

O impressionante é constatar como Deckard não carrega emoções e os replicantes parecem expressá-las com muito mais facilidade. Deckard não questiona suas ordens e é capaz de atirar em seus alvos desarmados pelas costas. Por que ele faz isso? Quem é o verdadeiro escravo nesta história? E quem é humano? São perguntas que se tornam ainda mais complexas nos detalhes, afinal muitos fãs cogitam que Deckard seja um replicante. Ainda mais quando ele conhece a evolução do projeto na figura da bela Rachael (Sean Young). Se ela não sabe que é uma replicante, quem pode ter conhecimento de sua real origem? Rachael se diferencia dos demais, porque ela carrega memórias implantadas da sobrinha de Tyrell. O mesmo pode acontecer com Deckard, afinal como alguém pode se apaixonar por uma replicante?

Durante o filme, vemos que os animais também são artificiais e seus olhos (e assim como os olhos dos replicantes) brilham. Certa hora, numa cena rapidíssima, é possível flagrar o mesmo brilho nos olhos de Deckard. Aliás, o próprio Tyrell pode ser um replicante. Sei que no roteiro original, ele está morto e a corporação criou um andróide semelhante ao dono da Tyrell Corporation para honrar sua imagem. E o replicante ainda tem as memórias dele. Então, o que torna uma pessoa humana? Memórias? Em Blade Runner, os replicantes mais avançados também possuem lembranças.

No fim, o "vilão" Roy Batty só quer mais tempo de vida. Como a maioria da Humanidade. Essas questões existenciais e a presença do Deus ex machina (uma expressão que significa "Deus surgido da máquina") também foram abordadas em filhotes de Blade Runner como Matrix. Seria o mundo povoado por máquinas? Onde estão os verdadeiros humanos? A mesma coisa foi indagada nas seqüências de Matrix. Lembra do papo "Matrix dentro da Matrix"?

Blade Runner é um triunfo do cinema narrado por imagem, som e música. A influência deste filme na ficção científica e no cinema em geral é inegável. É um clássico moderno que marcou época, mas que não ficou marcado nela. O reconhecimento veio anos depois. Ridley Scott fez uma das obras mais influentes e idolatradas dos anos 80. Sua idéia não foi entregar um policial futurista noir, mas realizar uma ficção científica pessimista em relação ao futuro da Humanidade. A última (e aparentemente definitiva) versão lançada em DVD ressalta essa teoria. Ainda mais agora, porque jamais amanhece em Blade Runner.

Blade Runner - O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Hampton Fancher e David Peoples (Adaptado do conto de Philip K. Dick)
Elenco: Harrison Ford, Sean Young, Rutger Hauer, Edward James Olmos, Daryl Hannah, William Sanderson, Joe Turkel, Joana Cassidy e M. Emmet Walsh

12 Comments:

At 3:53 PM, janeiro 05, 2008, Anonymous Vinícius P. said...

Agora sim a crítica! Como já disse no seu post especial sobre a nova versão do filme, gosto muito dessa ficção científica, ainda que tenha visto uma única vez (no ano passado). Realmente é um trabalho diferenciado e que merece cinco estrelas, talvez por ser o último grande filme do gênero produzido por Hollywood. Também é o melhor longa baseado em algo do Philip K. Dick. Interessante o paralelo com "Matrix", não tinha pensado nisso...

Abraço e bom fim de semana!

 
At 5:11 PM, janeiro 05, 2008, Anonymous Wally - Cine Vita said...

Sério que voce da 5? Nossa, agora que eu preciso rever mesmo. Vou procurar para ver, talvez eu seja mais impressionado agora, 2 anos depois e com a cabeça mais no lugar. rsrs

Ciao!

E sobre a Bússola, não me decepcionei pois não esperava muito. Mas apesar de divertido, é falho.

 
At 5:40 PM, janeiro 05, 2008, Blogger Kamila said...

Você pode até não acreditar nisso, Otavio, mas eu nunca assisti BLADE RUNNER - O CAÇADOR DE ANDRÓIDES. Acho que uma boa pedida para mim deve ser alugar esse DVD novo com as três versões do filme.

Beijos e bom final de semana!

 
At 5:51 PM, janeiro 05, 2008, Blogger Alexsandro Vasconcelos said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 5:55 PM, janeiro 05, 2008, Blogger Alexsandro Vasconcelos said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 5:58 PM, janeiro 05, 2008, Blogger Alexsandro Vasconcelos said...

É visível a tua paixão por esse filme. Eu também gostei muito, também daria 5 estrelas. O filme é perfeito. Ainda não vi essa última versão, já é mais um filme para assistir nessas férias.

Tomei um susto com teu comentário sobre Bee Movie. Não achei o filme tão terrível assim. Achei bom. Se no Blog de Ouro pudesse indicar 5 animações, com certeza ele estaria na minha lista. Foi um dos únicos comentários, se não o único, que vejo falando mal sobre essa animação.

Ah, sou fanzaço do Spielberg. A única obra dele que eu acho ruim é O Terminal. Gosto muito do Hanks e da Zetta Jones, mas esse filme, pra mim, é deplorável.

Abraço

 
At 8:39 PM, janeiro 05, 2008, Blogger Romulo Silva said...

ALELUUUUIA!!!!

Pronto, agora eu vi porque cargas d'água acham o filme genial. Acabei de assistir o filme e vim aqui por acaso.

Acabei concordando com você. Só duas coisas:

1- Qual a relação entre o unicórnio e a possível 'replicanicidade' de Deckard?

2- Em que cena que ele tem o mesmo brilho no olhar do replicantes/animais artificiais??

 
At 8:41 PM, janeiro 05, 2008, Blogger Romulo Silva said...

Mentira, tem mais uma coisa:

3- Quem ou o que é o deus ex machina? A súbita desativação do Roy? =S

 
At 12:42 PM, janeiro 06, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Valeu, Vinicius! Também acho a melhor adaptação de um PKD. Adoro MINORITY REPORT também. Mas já te disse que tenho um problema com os 20 minutos finais.

Wally, dou cinco estrelas porque a influência de BLADE RUNNER está em vários lugares do cinema. É só procurar.

Kamila, gostando ou não, você precisa ter BLADE RUNNER no seu currículo.

Alexsandro, infelizmente não gostei do BEE MOVIE. Mas ainda adoro o Seinfeld. Quanto ao pior filme do Spielberg, acho que, para mim, é 1941. Já viu? É uma comédia besteirol. É bem diferente do que ele costuma fazer. Defendo até GUERRA DOS MUNDOS e adoro O TERMINAL (parece um Spielberg homenageando Capra).

Abs a todos!

CUIDADO! "SPOILERS" SOBRE "BLADE RUNNER"

Rômulo, aqui vão algumas das minhas impressões sobre BLADE RUNNER. Mas, claro, são suposições. Não há nada concreto nesta história:

1- Qual a relação entre o unicórnio e a possível 'replicanicidade' de Deckard? O TEMPO TODO FALAM NA IMPORTÂNCIA DAS "MEMÓRIAS" NOS REPLICANTES. DECKARD TEM LEMBRANÇAS DE UM UNICÓRNIO. NO FINAL DO FILME, GAPP ESTEVE NO APARTAMENTO DE DECKARD, MAS POUPOU A VIDA DE RACHAEL. ELE DEIXOU UM BONEQUINHO EM FORMATO DE UNICÓRNIO. POR QUE? GAPP SABE QUE DECKARD SONHA COM UNICÓRNIOS? SE ELE SABE É PORQUE CONHECE AS MEMÓRIAS DELE...

2- Em que cena que ele tem o mesmo brilho no olhar do replicantes/animais artificiais?? PELO MENOS NA ÚLTIMA VERSÃO, NAQUELA CENA NO APARTAMENTO DELE, QUANDO A RACHAEL PERGUNTA SE ELA FUGIR, DECKARD AINDA IRIA ATRÁS DELA... ELE RESPONDE QUE NÃO, MAS QUE OUTRO BLADE RUNNER IRIA. AÍ ELE PASSA POR ELA E OLHA PARA A CÂMERA POR CIMA DO OMBRO DE RACHAEL. SEUS OLHOS ESTÃO BRILHANDO.

3- Quem ou o que é o deus ex machina? A súbita desativação do Roy? SE TYRELL ESTÁ MORTO E SUA REPRESENTAÇÃO FÍSICA É UM REPLICANTE, ELE AINDA MANDA E DESMANDA NA TYRELL CORPORATION. ELE É O "PAI" DOS REPLICANTES. E É UMA MÁQUINA. ELE TEM AS RESPOSTAS PARA SEU FILHO (ROY). ELE É DEUS. MAS SERÁ QUE AINDA EXISTEM HUMANOS DE VERDADE NA TERRA?

ACHO QUE ROY MORRE DAQUELE JEITO PORQUE ELE ESTAVA NO LIMITE DE SEU TEMPO DE VIDA. AO LONGO DO FILME, ELE SENTE DORES. TEM UMA HORA EM QUE ELE SENTE DOR NA MÃO E ENFIA UM PREGO NELA PARA "ANESTESIAR". É A MORTE CHEGANDO. SEUS 4 ANOS DE VIDA TERMINAM NAQUELA CENA EMBLEMÁTICA.

Abs!

 
At 12:47 PM, janeiro 06, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Ah, pessoal. Ao lado direito, no item FILMES CINCO ESTRELAS, atualizei um texto que eu fiz no início de 2007 sobre OS INTOCÁVEIS, de Brian De Palma.

Até agora, temos 4 filmes nesta categoria (em ordem alfabética): BLADE RUNNER, A FELICIDADE NÃO SE COMPRA, OS INTOCÁVEIS e VINHAS DA IRA.

Abs! Bom final de semana!

 
At 7:40 PM, janeiro 06, 2008, Anonymous Anderson said...

AI, BLADE RUNNER...Um dos filmes da minha vida. Muito bom o seu texto.

 
At 10:01 PM, julho 12, 2008, Anonymous bebeto_maya said...

"Em 2019 o mundo sofrerá com a desigualdade social. As pessoas não terão muito espaço para caminhar nas ruas lotadas de todos os tipos. Os animais estarão extintos, o ar será pesado e a chuva cairá ininterruptamente queimando a superpopulação. Todas as invenções tecnológicas do homem foram criadas para satisfazê-lo[...]."

Na verdade não vi esses elementos pós-apocalipticos no filme, pelo menos não todos...Scott não focou sua película na questão social, embora fique subentendida. E sim no relacionamento humano na crise de identidade, auto-conhecimento etc.Pode-se ainda questionar o fato de que replicantes são criaturas dotadas de consciência e emoção, exterminadas cruelmente. Teríamos aí um contexto de revolta...Porém os replicantes são tiranizados, a partir do momento em que se transformam em opressores matando todos que se interpoem em seu caminho.

Ridly Scott é sútil demais. Não deixa o contexto apelativo do politicamente correto tomar conta do filme. É apenas um pano de fundo. A Terra destruída é muito mais resultado de uma guerra nuclear, paranóia dos tempos da Guerra Fria, que derivada de questões ambientais relativas a industrialização.

 

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