domingo, março 01, 2009

Dúvida


John Patrick Shanley ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original pelo belo Feitiço da Lua (1987). Depois disso, dirigiu o equivocado Joe Contra o Vulcão (1990), mico pago por Tom Hanks e Meg Ryan. Também escreveu poucas e bobas como Vivos (1993) e Congo (1995), ambos dirigidos por Frank Marshall. Apesar do nome, John Patrick Shanley ganhou notoriedade bem longe dos cinemas ao criar a peça premiada Doubt. E por causa do vínculo do diretor e roteirista com Hollywood, a adaptação de sua peça para a telona era questão de tempo (e dinheiro). No cinema, Dúvida (Doubt, 2008) conserva o grande texto original e tem a ajuda de ótimos atores - Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis -, mas apesar da presença de seu criador no roteiro e na direção, o filme sofre com a falta de um cineasta mais experiente no comando.

Vamos voltar a falar da carreira de Shanley para entender os problemas da versão cinematográfica de Dúvida. É óbvio que o cara sabe escrever. Ganhou um Oscar pelo script de Feitiço da Lua, mas o filme estrelado por Cher caiu nas mãos de um diretor do porte de Norman Jewison. Ainda bem, pois ficou muito bom. Mas quando resolveu dirigir Joe Contra o Vulcão, Shanley se deu mal. Por outro lado, seus roteiros bem-intencionados de Vivos e Congo também não renderam nada além do ridículo ao serem dirigidos por um sujeito que é bem melhor como produtor: Frank Marshall.

Dúvida pode manter a qualidade da peça nas telas, mas toca naquela questão que vira a nossa cabeça cinéfila volta e meia: "Cinema pode ou não pode ser teatro?" Para mim, a resposta é simples e direta: "Não!" Vejamos os exemplos de filmes com influências teatrais, mas com alma, cara, coração e formato de cinema. Um deles é o clássico 12 Homens e uma Sentença (1957), de Sidney Lumet, diretor que entende de cinema, claro. Outro é Beleza Americana (1999), com várias cenas filmadas como se estivéssemos diante de um palco, mas feitas por um cara que também entende a linguagem de cinema. E olha que foi o primeiro filme de Sam Mendes, diretor vindo do teatro. Um exemplo recente (e realmente adaptado de uma peça) é Frost/Nixon (2008), de Ron Howard, diretor que sempre pensa em cinema. Seu filme, embora "paradão", consegue ser mil vezes mais ágil, empolgante e nervoso que Dúvida, um teatrão (no pior sentido da palavra) dentro do cinema.

Mas a direção frouxa e sem pulso firme na sala de edição é compensada pelo elenco monstruoso - especialmente por Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman. Não sei se é do texto de Shanley, acho que é mérito dos atores, mas gosto do ponto de vista que coloca a freira Meryl como vilã, falando baixinho (como sua personagem em O Diabo Veste Prada), e o padre Hoffman como herói, gritando. Isso tudo com Meryl acusando Hoffman de pedofilia. Mas não se engane: Ela é a vilã da história. Ele é o mocinho. Embora, obviamente, o texto queira deixar a platéia em... hmm... dúvida, Meryl e Hoffman me convenceram disso. É a mesma visão do xerife de Gene Hackman e o bandido de Clint Eastwood em Os Imperdoáveis (1992). Hackman é o homem da lei, mas é o vilão da história. Clint, o bandido, é o mocinho.


Apesar do texto forte e muito bem escrito, o filme vale pelo elenco, que também inclui
Amy Adams e a notável Viola Davis, com cerca de 10 minutos na tela. A peça pode até valer por todo o conjunto. O filme não. No cinema, Dúvida não passa de teatro filmado - o que deve ser defendido por amantes da arte nos palcos. Mas quem gosta de cinema não deveria idolatrar o filme de John Patrick Shanley. Só se for para reverenciar um bom texto e ótimos atores em grande forma. Agora, se estivesse nas mãos de um diretor competente, o mesmo roteiro e os mesmos atores renderiam um filmaço.

Dúvida (Doubt, 2008)
Direção:
John Patrick Shanley

Roteiro:
John Patrick Shanley (Baseado em sua peça)

Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis

9 Comments:

At 11:54 AM, março 02, 2009, Blogger Museu do Cinema said...

Obviamente não concordo Otávio, acho muito mais teatral O pai Ó, por exemplo, a coisa do exagero, as interpretações carregando pro individualismo, Dúvida, apesar de não ser uma obra irretocavel, tem um cinema meio perdido, o cinema dos dialogos inteligentes, do roteiro bem escrito, e isso sempre será reverenciado por cinéfilos!

 
At 1:27 PM, março 02, 2009, Blogger Denis Torres said...

Agora vc me deixou em dúvida, rsrs. Não achei tão teatral assim, consigo dar 3 estrelas sem dificuldade. O que importa é que Watchmen tá logo aí e que meu U2 chegou hoje! Abs.

 
At 8:03 PM, março 02, 2009, OpenID cinefilapornatureza said...

Mais um texto que confirma o que eu espero ver neste filme: um bom roteiro e um GRANDE elenco.

Beijos!!

 
At 9:12 PM, março 02, 2009, Blogger Kau Oliveira said...

Otavio, permita-me discordar. Primeiro, vc leu meu texto?! Independente disso, vamos lá: eu acho o filme BRILHANTE! O roteiro é irretocável, a direção, pra mim, não poderia ser mais incrível (veja que não vejo nada de imaturidade da parte de Patrick, o que já ocorreu nesta temporada com Coutney Hunt e seu Frozen River), o elenco é algo sublime. Tudo converge para a peça teatral - que, pra mim, deve ser uma masterpiece. Acho totalmente válido aproximar duas formas de expressão de arte como cinema e teatro. Fui ator "on stage" por 6 anos (e ainda faço algumas coisinhas quando dá) e consigo perceber as sacadas de John, principalmente na condução do elenco: utiliza elementos teatrais ali. Os personagens são alegorias que, retoricamente, passam emoção por um simples olhar, o que definitivamente é o principal nos palcos. O que tb é de impressionar é a preocupação com a técnica da fita, mais uma vez fazendo ponte com o teatro. Perceba que são pouquíssimos cenários e a iluminação nos faz sentir como se estivéssemos na platéia mesmo (além de jogar à favor da idéia central do texto).

Como já disse, acho ótimo aproximar expressões diferentes de arte. Ok, exemplo absurdo mas voilà: o que é Dogville senão um peça filmada? Eu sei que tem todo o blá blá blá acerca do Dogma 95, mas não deixa de ser a reprodução de uma quase peça de teatro. E, no entanto, o filme é uma obra-prima. Mas vejo que isso é totalmente particular, né?! Ia citar os musicais (já que misturam cinema com música [outra forma de expressar arte]), mas já falei demais... rs

Abs!

 
At 12:37 AM, março 03, 2009, Blogger Weiner said...

Não acho que o John Patrick Shanley seja um diretor absolutamente despreparado. Identifico algumas limitações em sua maneira de dirigir, sim, mas nenhuma delas chega a comprometer o ótimo resultado de "Dúvida", que é, ainda o melhor filme lançado em 2009 no Brasil segundo... EU!
Outro filme que você esqueceu de citar, que tem super cara de teatro é "As Bruxas de Salem" - e que por sinal é tão bom quanto "Dúvida".
Nota: 9,5 (*****)
Um abraço!

 
At 12:47 AM, março 03, 2009, Blogger Otavio Almeida said...

Cassiano, eu sei que vc gosta do filme, mas não me conquistou não.

Denis, o CD do U2 tá sensacional!

Kamila, só faltou um bom diretor.

Kau, li seu texto, mas não gostei do filme não. Acho que cinema e teatro são linguagens diferentes. Mas não é algo impossível de me agradar...

O que me leva ao comentário do Weiner... Rapaz, eu adoro AS BRUXAS DE SALEM, que funcionou muito bem como cinema.

Abs!

 
At 10:01 AM, março 03, 2009, Blogger Johnny Strangelove said...

Compreendo a sua nota regular, mas venhamos e convenhamos ... que show de interpretação tem esse filme. Pode até ter uma direção não tão espetacular, mas para liderar esse elenco ... tem que ter punho ...

abraços

 
At 10:51 AM, março 03, 2009, Blogger Otavio Almeida said...

Johnny, show mesmo! Mas acho que esse elenco, sabendo o texto, cara, não precisa de liderança...

Abs!

 
At 11:48 AM, março 09, 2009, OpenID agentetenta said...

Não acho o filme irretocável, mas é interessante a união das duas expressões. Quanto às interpretações, são muito teatrais, ótimas por sinal. Mérito do elenco, mas graças ao diretor. Então, acho que você foi um pouco "cruel" aqui. Hehe.
abraço!

 

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