segunda-feira, março 09, 2009

O Clássico e o Cult


Por Charles Magno Medeiros*


No mundo da cultura e das artes, os termos nem sempre são precisos ou interpretados com forte carga de subjetividade. A palavra “clássico”, por exemplo, remete à arte, à literatura e à cultura dos gregos e romanos, como define o dicionário Aurélio na primeira acepção do termo. O adjetivo também é traduzido como algo “da mais alta qualidade, modelar, exemplar” e que pode ser considerado como modelo de um gênero. Ou seja, num primeiro sentido, clássico se refere ao que foi produzido em determinada época, considerada “clássica” e que serve de padrão e referência para todo o sempre na história da cultura e da arte. Na outra acepção, evoca a qualidade da obra.

No cinema, o termo "clássico" é usado em vários sentidos. Pode se referir aos primórdios do cinema, quando os inovadores e mestres construíram a sintaxe, a narrativa e a linguagem cinematográfica e fizeram filmes que, segundo críticos e historiadores, são considerados da mais alta qualidade, modelares e exemplares. Época em que se modelou a “narrativa clássica”, ainda predominante no cinema, principalmente o norte-americano. Assim, nesta dimensão histórica, são considerados clássicos, por exemplo, D.W Griffith (O Nascimento de uma Nação), F. W. Murnau (Aurora), Fritz Lang (Metrópolis), Edwin S. Porter (O Grande Roubo do Trem), Sergei Eisenstein (O Encouraçado Potemkin), King Vidor (A Turba), Erich von Stroheim (Ouro e Maldição), entre muitos outros.

Na categoria “clássicos” entram inovadores de todas as épocas, que influenciaram gerações, como Orson Welles, Fellini, Godard, e os neorrealistas italianos. E todos os mestres, de John Ford e Howard Hawks a Sergio Leone, de Jacques Cocteau e Jean Vigo a Michael Haneke, de Billy Wilder a Scorsese, de Buster Keaton e Charles Chaplin a Woody Allen, de Fellini a Marco Bellochio, de Bergman a Antonioni e Visconti, de Lubitsch a Michael Haneke, de David Lean a Amos Gitai, de Resnais aos irmãos Dardenne, de Joseph von Sternberg a Herzog e Fassbinder, de Ozu a Kurosawa, de Buñuel a Almodóvar, de Jean Renoir e René Clair a Alain Resnais, de Hitchcock a Chabrol. E bota nomes na lista... Em qualquer acepção, são clássicos.

Em alguns contextos, clássicos se referem aos filmes produzidos na chamada era de ouro do cinema norte-americano, que abrange as décadas de 30,40 e 50. Mas, de uma forma mais abrangente, definem-se como clássicos os grandes filmes, considerados obras-primas, independentemente da época em que foram produzidos.

Como a palavra clássico geralmente dá uma idéia de coisa antiga, cunham-se outras expressões, como “clássicos modernos” ou “clássicos contemporâneos”. Um filme de Clint Eastwood, Martin Scorsese ou de Woody Allen podem se encaixar nesta última definição.

Mas quem define o que é um clássico ou não? A resposta é simples: são os críticos, os estudiosos, os historiadores, os professores de cinema. Na arte funciona assim. Portanto, não adianta o público e o blogueiro elevarem um filme à categoria de clássico. Só entram para o panteão aqueles filmes que, no consenso de críticos e especialistas de renome, forem considerados clássicos. A palavra consenso da frase anterior é importante: a opinião de meia dúzia de críticos também não é parâmetro para se decidir se um filme é clássico ou não. Além disso, leva-se em conta o pedigree dos críticos e especialistas. Apenas para simplificar, o crítico ou especialista, para servir de parâmetro, deve conhecer bem a história e a linguagem do cinema. No mínimo.

Para os outros filmes, que têm uma legião de fãs, mas não são considerados clássicos pelos críticos, a expressão “cult” vem a calhar. É uma categoria mais democrática, que não precisa do aval de especialistas. O termo "cult" é usado para classificar um filme que tem considerável número de fãs, independentemente da época, do sucesso e da qualidade da obra. São as referências de uma tribo. Blade Runner, de Ridley Scott, O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson, e franquias como Star Wars, de George Lucas, são considerados “cult” para milhões de pessoas, enquanto os toscos filmes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, ganharam esse status em comunidades de fãs de trash. O seriado Chaves, transmitido há décadas pelo SBT, e que costuma surrar concorrentes do horário em outras emissoras, também é um exemplo de cult.

O cult, portanto, não tem nada a ver com a qualidade da obra. Os famosos filmes B de Hollywood não têm pretensão a ser clássicos – à exceção de algumas produções formidáveis de Robert Siodmak, Samuel Fuller, Anthony Mann, Jacques Tourneur e Robert Wise, entre outros, que se tornaram clássicos –, mas são candidatíssimos a cult, como as horrorosas produções de Ed Wood, chamado o pior diretor de cinema de todos os tempos e que ganhou uma bela homenagem de Tim Burton – este, por sinal, um dos diretores mais cult da atualidade.

O cult também não está ligado necessariamente ao sucesso do filme. Muitos cults fracassaram nas bilheterias na época do lançamento, mas foram redescobertos e incensados muito tempo depois, com a sua difusão pelo vídeo. De tempos em tempos, alguns críticos de cinema exumam obras que caíram no esquecimento. É o caso, por exemplo, de Sangue de Pantera, de Jacques Tourneur, que foi resgatado pela crítica (inclusive por Martin Scorsese), ganhou um insosso remake de Paul Schrader, em 1983, e continua cultuado por cinéfilos.

Alguns filmes podem ser considerados clássicos e cult, ao mesmo tempo. Alguns exemplos: Casablanca, de Michael Curtiz, Carta de uma Desconhecida, de Max Ophüls, e O Retrato de Jennie, de William Dieterle. E até mesmo E o Vento Levou, o cult dos cults.

A obra cult movimenta uma legião de seguidores dedicados, que às vezes se organizam em fã-clubes, mantêm contatos entre si, trocam informações e produtos ou freqüentam lojas especializadas. Os membros dessas comunidades até recebem denominações, como os trekkers, fãs da franquia Jornada nas Estrelas, ou os otakus, os maníacos dos japoneses animes e mangás.

Em resumo: se o filme que você ama não é considerado clássico pelos especialistas, não tem importância. Ele pode ser cult.


* Charles Magno Medeiros é jornalista, professor, crítico de cinema e meu mentor na sétima arte. A foto do post pertence ao filme "Aurora", de F.W. Murnau. E há uma explicação para tal escolha: O autor do texto não se decide entre "Aurora" e "Cidadão Kane" na hora de dizer qual é o melhor filme de todos os tempos.

10 Comments:

At 4:18 PM, março 09, 2009, Blogger Pedro Henrique said...

Ok. O texto ficou muito legal, mas tenho considerações pessoais. Acho que o cinema, antes de tudo, é feito para o público. Então, porque a definição de clássico pode ser carimbada apenas por críticos, historiadores e cia limitada? Claro, compreendo que eles têm o embasamento técnico e conhecem a linguagem e a história mais do que o público médio, mas o que é seu é seu, e você escolhe como definir o que é seu a seu gosto, não acha? Se alguém, uma pessoa qualquer, te pergunta o que você acha de O Poderoso Chefão, você responderia que é um clássico, segundo Roger Ebert? Quer dizer que o filme é um clássico só porque o crítico especializado disse que é? E a sua opinião, fica aonde? Penso que, já que o cinema é tão democrático e cada um pode definir um filme de acordo com o seu gosto, tal definição é bastante pessoal. Até porque, se você procurar, certamente irá encontrar opiniões diferentes a respeito de um mesmo filme, e se não é exato, não pode ser fato – com o perdão da redundância.

Abs!!!

 
At 6:44 PM, março 09, 2009, Blogger Otavio Almeida said...

Sei que o Charles gosta muito de O PODEROSO CHEFÃO também... Para mim, um clássico.

 
At 7:19 PM, março 09, 2009, Blogger Kau Oliveira said...

Eu entendo perfeitamente o que Charles diz em seu belo (extremamente articulado) texto. Mas ainda assim penso como o Pedro. Eu prefiro classificar um filme de acordo com o que eu ache que ele seja. Óbvio que se existem diversos livros de especialistas no assunto dizendo o contrário, não vou contra. Mas ainda assim prefiro ficar no egocentrismo nomear fitas ao meu modo.

Repito: o texto é sensacional anyway. Mesmo eu discordando.

Abs, Otavio!

 
At 9:13 PM, março 09, 2009, Blogger Flávia said...

Grande Charles Magno!

 
At 9:57 PM, março 09, 2009, Anonymous Denis Torres said...

Concordo com o Charles Brown aí. Eu penso que cada um tem seu gosto pessoal e isso ninguém tira, a menos que você seja Maria vai com as outras. Agora quem tem autoridade no assunto realmente põe o classic label e ponto final. Se não concorda, problema seu. Eu sempre respeitei os críticos e aprendi muito com eles, mesmo discordando aqui e ali. É a elite, meu amigo , e se você quer combatê-la, o melhor jeito é unir-se a ela. Abraços.

The Cinemaníaco

 
At 9:18 AM, março 10, 2009, Blogger Pedro Henrique said...

Ok, Denis. Vou virar sequestrador, bandido e político agora. Estou cansado de ser (eu, nós) assaltado e sequestrado, vou seguir o seu raciocínio e me juntarei a eles hoje mesmo, inclusive já estou entrando em contato com o PCC.

 
At 12:05 PM, março 10, 2009, Anonymous Denis Torres said...

Caraca Pedro, quem falou em ser bandido aqui ou ter um estilo de vida parecido? Só disse que para combatê-los de forma inteligente (se é isso que vc deseja), é necessário instrução e diploma. Sorry, mas a realidade da máquina é essa. Fazer menção ao PCC não é brincadeira não e o Chaplin de O Ditador não gostaria disso. Abs.

 
At 2:28 PM, março 10, 2009, Blogger Pedro Henrique said...

Foi só uma metáfora. Mas eu entendo o que você e falou, só não concordo com essa "realidade da máquina". E também não quero combatê-los, só não consigo me render a essa convenção.

Abraço!!!

 
At 6:16 PM, março 10, 2009, Anonymous charles magno said...

Caros,
Convenções são convenções, mas ninguém é obrigado a segui-las ou concordar com elas. As convenções artísticas são estabelecidas por quem entende do babado (mas, repito,ninguém é obrigado a concordar com elas). Por isso existem a tal "norma culta" (estabelecida pelos reis da cocaca preta da sabedoria) e a "norma popular" (aquela que caiu na boca do povo). Dando um exemplo: Paulo Coelho vende para caramba e é amado por milhões de pessoas do mundo inteiro. Mas dificilmente será reconhecido como, digamos, um escritor de alto calibre. Sorry.
E há, ainda, a questão do gosto (que não discute, né). Mas meu texto mostra claramente isso: quem decide o que é clássico são os especialistas. Mas a galera pode se contentar com a classificação "cult", que é mera questão de gosto. O que não dá é qualquer zé mané querer posar de especialista (eu me incluo entre os zé manés.

 
At 10:00 AM, março 11, 2009, Blogger Pedro Henrique said...

Agora eu concordo. Show!!!

 

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