domingo, junho 01, 2008

As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian

Toto, eu tenho a sensação de que não estamos mais no Kansas


Muita gente reclamou que As Crônicas de Nárnia - O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa (agora repita rapidamente o nome do filme em voz alta) resultou num filme infantil demais para a faixa jovem da platéia que realmente gasta dinheiro com Hollywood. Ora, os livros de C.S. Lewis são infantis, mas o filme saiu de um grande esforço do diretor Andrew Adamson para torná-lo digerível para todas as platéias.


Mas, você sabe, cinema é negócio e o público que gostou do primeiro filme cresceu nesses últimos três anos. A idéia foi adaptar As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian (The Chronicles of Narnia - Prince Caspian, 2008) para os adolescentes, que não gostam de muita alegria e excesso de cores na tela. Desta vez, os bichinhos falantes de Nárnia sofrem e não pulam de felicidade. O número de cores ficou reduzido e a iluminação é sempre escura ou cinzenta. Nárnia não é mais pra crianças. E espero que os fãs estejam felizes. Principalmente o jovem, o verdadeiro público-alvo de Hollywood, que presta mais atenção em seus celulares numa sala de cinema do que no filme em si.


O problema nisso tudo é que o material original de C.S. Lewis é infantil. Cada livro foi fiel ao clima do anterior e confiou na inteligência de seu leitor. Mas Hollywood precisa faturar com os fãs do primeiro Nárnia, que já cresceram como os protagonistas da história, os irmãos Peter (William Moseley), Susan (Anna Popplewell), Edmund (Skandar Keynes) e Lucy Pevensie (Georgie Henley).

Na trama, o Príncipe Caspian (Ben Barnes, um clone piorado de Orlando Bloom em talento e carisma) foge do reino dos Telmarinos, que fazem fronteira com Nárnia. O tirano Miraz (Sergio Castellitto) é o tio de Caspian, mas quer a cabeça do sobrinho para não perder o trono. Ao longo dos anos, as ações de Miraz devastaram Nárnia e deixaram seus habitantes fofinhos pertos da extinção. Durante a fuga que abre o filme, Caspian toca a trompa que pertenceu a Susan Pevensie e os irmãos são transportados para o mundo de Nárnia mais uma vez. Para eles, passou apenas um ano em relação à primeira aventura, enquanto Nárnia atravessou cerca 1300 anos.

A justificativa para tornar Príncipe Caspian mais sombrio que O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, portanto, não existe. Exceto pela tentativa de faturar com a garotada que, agora, já é adolescente. O resto do público que se dane. Se Andrew Adamson quisesse, O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa poderia muito bem render uma história sombria, violenta, afinal aquela Feiticeira Branca interpretada pela mais talentosa entre as feias, Tilda Swinton, era capaz de conduzir a trama para um ambiente mais assustador, melancólico ou trágico. Enfim, não é por ter crianças nos papéis principais que um filme precisa ser infantil (vide O Labirinto do Fauno). Por outro lado, Príncipe Caspian poderia ter saído com uma atmosfera mais infantil. Tanto faz. O problema aqui é a idéia de produto (e não de cinema) desenvolvida pelos estúdios Disney, que já entendeu bem disso em outros tempos. Mas, enfim, estamos falando de Hollywood. Sem magia alguma, Príncipe Caspian é uma estratégia de marketing e não uma obra de arte que confie na percepção dos admiradores do cinema.

Para uma seqüência ficar mais densa, a história precisa exigir tal mudança antes de tudo. É o caso de O Império Contra-Ataca em relação a Guerra nas Estrelas, por exemplo. Só quero dizer que Príncipe Caspian não precisava desta mudança. Lembro do caso recente de Indiana Jones, que acertou ao se manter fiel ao seu público de quase 30 anos atrás com O Reino da Caveira de Cristal. Se os mais novos acham isso uma bobagem e preferem ir ao cinema para trocar e checar mensagens no celular, o problema é deles.

É uma pena o que aconteceu com As Crônicas de Nárnia. Mas esse é o cinema de hoje. Se você ler críticas de qualquer blockbuster, vai perceber que alguns jornalistas preferem analisar se um filme "x" será aceito pelo público jovem a analisar cada detalhe cinematográfico a ser desvendado na produção. O público é culpado e a crítica é culpada também. Não adianta reclamar muito de Hollywood, afinal eles querem lucrar de acordo com o que o público-alvo pede para ver nos cinemas.

Eu seria um tolo, no entanto, em dizer aqui que o filme não diverte. Príncipe Caspian tem seus momentos. Mas falta um cuidado maior com o roteiro, que deixa buracos inexplicáveis na trama. Tem hora em que não acontece simplesmente nada na tela. O diretor Andrew Adamson enche o filme de desculpas para levar tudo para o clímax da batalha final, que é grandiosa, mas não empolga. Pior: você sente que o filme é demasiadamente longo e falta magia para envolver o espectador. A cena que comprova isso é a melhor (e única extraordinária) do filme. Falo do ritual que ameaça ressuscitar a Feiticeira Branca (Tilda Swinton). A cena é assustadora de fato e deixa você preso na cadeira. Isso é magia. Mas, infelizmente, ela só dura alguns minutinhos.

Mas dizer o quê? Os efeitos são ótimos e há uma seqüência visual de encher os olhos. É quando o leão Aslan (voz de Liam Neeson) levanta as águas de um rio para dar um "oi" à Academia na tentativa de concorrer ao Oscar de Melhores Efeitos Visuais. Tudo é muito bem feito e sou apenas um chato reclamando. As referências bíblicas do original também estão em Príncipe Caspian. A mais bacana remete ao menino Jesus na companhia de Maria e José. Mas será que o público-alvo desse tipo de filme pegou essa referência? Então, por favor, Hollywood, confie mais no público.


As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian (The Chronicles of Narnia - Prince Caspian, 2008)
Direção: Andrew Adamson
Roteiro: Andrew Adamson, Christopher Markus e Stephen McFeely (Baseado no livro de C.S. Lewis)
Elenco: Ben Barnes, Georgie Henley, Skandar Keynes, William Moseley, Anna Popplewell e Sergio Castellitto

13 Comments:

At 6:16 PM, junho 01, 2008, Blogger Kamila said...

Como disse no meu comentário no post anterior, achei "Príncipe Caspian" inferior à "O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa". E acredito que esses filmes não foram feitos para um público infantil. Apesar da trama falar sobre amadurecimento, os filmes possuem elementos muito pesados para os pequenos.

O elemento que mais me incomodou nesse "Príncipe Caspian" foi o roteiro. Senti falta do Aslan, achei os personagens novos mal desenvolvidos e algumas situações carecem de uma maior explicação.

Beijos!

 
At 6:42 PM, junho 01, 2008, Blogger Johnny Strangelove said...

Quando você disse que o cara é Orlando Bloom piorado ...
desisti de vez em ver as cronicas de narnia ...
vixi!

abraços

 
At 9:37 PM, junho 01, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Kamila, você está coberta de razão.

Johnny, ele é um canastrão.

Abs!

 
At 10:40 PM, junho 01, 2008, Blogger Johnny Strangelove said...

Vixi, pior do que o original não pode existir ...
assim, estreia boa só quando agora amigo?

 
At 1:04 AM, junho 02, 2008, Anonymous Wally said...

Revi o primeiro hoje porque estava com preguiça de pegar três ônibus para conferir a versão legendada desse nos cinemas. Eu gostei do primeiro, pois pega o mundo limitado do livro e o expande. Tem sentimento, mas é incontestável sua tolice em momentos, sem contar o elenco mirim mediocre. Mas entretem. Espero que este seja pelo menos bom divertimento.

Ciao!

 
At 10:28 AM, junho 02, 2008, OpenID cineresenhas said...

Otavio, como vai?

Sou fã do filme original e estou ansioso por esta seqüência. Creio que, com exceção de "O Senhor dos Anéis", este foi o filme de fantasia que mais me empolgou nesta década. Pelo que pude acompanhar no trailer, os efeitos especiais devem ser espetaculares.
Ah, e li sua crítica do filme "Garçonete" e adorei!

Abraços!

 
At 4:01 PM, junho 02, 2008, Blogger Ygor Moretti Fiorante said...

quermo muito ver esse, o primeiro realmente tendo um pouco para o lado infantnil, mas naum creio q isso comprometa o filme, eu gostei do 1º, vamos ver se eles conseguem boas sequencias por q história a ser contada é o q ue não falta em Narnia.

 
At 4:32 PM, junho 02, 2008, Blogger Gustavo H.R. said...

Deve ser frustrante para o espectador maduro conferir uma produção que se vendeu como amadurecida e descobrir que isso não passou de uma jogada relativa. As crianças não precisam ser tratadas sempre com uma colherada de açúcar no cinema - aliás, os superpopulares filmes da Pixar não raro são tristes e abarrotados de temas cruciais.
Não vi o primeiro porque só chegou na cidade em cópia dublada, mas alugarei em DVD, assim como esse segundo, algum dia.

Cumps.

 
At 4:52 PM, junho 02, 2008, Anonymous Anônimo said...

Adorei seu post!

Pessoal, essa eu tenho que recomendar, dois sites interessantíssimos: www.meus3desejos.com.br e www.videoflix.com.br.

Abs.

 
At 5:29 PM, junho 02, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Johnny, não sei se você gosta do M. Night Shyamalan, mas seu novo filme (FIM DOS TEMPOS) tem estréia programada para 13 de junho. E tem WALL-E, da Pixar, no dia 27.

Wally, o primeiro AS CRÔNICAS DE NÁRNIA não é perfeito, mas diverte, prende a atenção, e é muito bem feito em sua parte técnica.

Alex, obrigado! Eu gosto do primeiro AS CRÔNICAS DE NÁRNIA, mas me decepcionei com PRÍNCIPE CASPIAN. E acho que tivemos um bom filme de fantasia neste ano: AS CRÔNICAS DE SPIDERWICK.

Ygor, a história de C.S. Lewis é maravilhosa. O problema desse segundo filme é que ela foi adaptada para um roteiro capenga.

Gustavo, isso é Hollywood...

Abs!

 
At 3:53 PM, junho 03, 2008, Blogger Pedro Henrique said...

Estou fazendo uma "maratona-filmes-cinco-estrelas-do-hollywoodiano". Quando terminar, vou fazer um comentário enorme aqui. Me aguarde. Vamos ver se são todos filmes 5 stars mesmo...

 
At 4:15 PM, junho 03, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Pedro, pretendo colocar mais um da série ainda nesta semana. Espero que goste.

Abs!

 
At 7:22 PM, dezembro 12, 2008, Anonymous Lucas said...

Gostaria de dizer que em relação ao clima "dark" do filme, foi feito exatamente para o filme, não como uma manobra para atrair jovens com celulares (Oo"), Narnia não é mais a mesma do primeiro filme, 1300 anos depois, sem animais falantes, sem arvores vivas, apenas os telmarinos vivendo lá, e eles vivem exatamente como a gente, e nosso mundo não é exatamente colorido e alegre. O diretor quis passar essa imagem propositalmente, essa imagem de desconsolo e desespero, tanto que no sonho de Lucia no fim do filme as cores voltam.

Achoque não foi só uma jogada para atrair um publico maior, o filme conseguiu passar a mensagem do livro, afinal, esses efeitos de imagem passaram aquilo que C.S. Lewis quis transmitir com seu livro

 

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