terça-feira, setembro 09, 2008

O Nevoeiro


Olha, há tempos que eu não saia tão impressionado do cinema como saí da sessão de O Nevoeiro (The Mist, 2007). Não falo necessariamente de ficar chocado com alguma técnica cinematográfica, embora tudo seja muito bem feito. Falo de sair assustado com a história, sabe? Como aquele bom, velho e arrepiante conto de terror que já ouvimos de luz apagada por diversas vezes antes de dormir. Ou numa rodinha de amigos em torno de uma fogueira. Pois é. A nova incursão do diretor Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade, À Espera de um Milagre) pelo universo fantástico do escritor Stephen King é uma viagem para o Inferno. E só de ida. Não adianta procurar, pois as passagens de volta estão esgotadas.

Tudo começa muito rápido quando uma cidadezinha norte-americana é cercada sem aviso, de uma hora pra outra, por um maldito nevoeiro. A câmera do diretor acompanha um grupo de pessoas enfurnado num mercadinho. Alguns tentam sair, mas há alguma coisa naquele nevoeiro (não vou contar o que é, pois você não acreditaria) que faz com que o único destino desses valentes céticos seja a morte certa. E não é nem um pouco bonito morrer dentro do nevoeiro de Stephen King.


Fugindo um pouquinho do filme, acho interessante traçar um paralelo. O Nevoeiro é tudo o que um diretor como M. Night Shyamalan deve sentir ao ver seus próprios filmes. Já o público só se irrita com seu parque de diversões particular. Vide seu mais recente papelão (Fim dos Tempos). Shyamalan só pode achar aquilo genial. É curioso pensar nisso, mas o que será que ele achou de O Nevoeiro?

Como em um filme de Shyamalan, O Nevoeiro também aparenta ser sobre uma coisa, porém, no fundo, quer discutir outro assunto. Mas não é tão explícito e descarado como os piores filmes do diretor que já fez O Sexto Sentido. Em O Nevoeiro, Frank Darabont é discreto e usa todo o terror vivido pelas pessoas dentro do mercadinho para estudar o comportamento humano. Este pequeno grupo é a representação de uma sociedade que, aos poucos, cria e organiza suas próprias regras. Darabont analisa, mas nunca julga, as atitudes de cada pessoa, de cada grupo. Você acha que o mundo é um lugar bom? Então, veja O Nevoeiro. O ser humano é muito pior do que a ameaça saída da mente insana de Stephen King.

Quando o filme começa, temos pouco tempo para respirar. O pesadelo tem início em poucos minutos. Não há muito sangue nem muitos sustos com a ajuda-clichê de espertos efeitos sonoros. Somente boas atuações (principalmente Marcia Gay Harden) e um ótimo domínio de câmera do diretor. A sugestão daquilo que não se vê, ainda bem, comprova que a velha escola do terror tinha razão. Portanto, agarre-se na cadeira do cinema e prepare-se para acompanhar a tensão trabalhada por Darabont num crescente absurdamente calculado até atingir o ápice do desespero na última cena.

Aliás, a seqüência final vai dar o que falar até o fim dos tempos (um trocadilho infame, mas a culpa é sua, Shyamalan). Ainda não encontrei razão ou explicação para o que ocorre na conclusão seca e extremamente chocante. Pra ser sincero com você, eu terminaria o filme de outra forma. Sério mesmo. Não concordo com a decisão de Frank Darabont. Mas a tal cena fica na memória e insiste em não ir embora. Se ela é inesquecível, por mais angustiante que seja, talvez Darabont tenha acertado em sua escolha. Só pode ser isso. Mas penso que minha opinião é normal. Assim como a sua, que talvez seja completamente diferente. Como eu disse, Darabont não julga. Ele deixa isso para o público.

Na verdade, O Nevoeiro incomoda por ser um filme 100% pessimista sobre a natureza humana, que jamais faria o Homem seguir regras se ele não fosse obrigado a isso por alguma força maior. Pior: não há Céu ou Inferno. Deus não está ouvindo suas preces neste filme. Para Stephen King e Frank Darabont, aqui se faz, aqui se paga.

O Nevoeiro (The Mist, 2007)
Direção: Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont (Baseado no livro de Stephen King)
Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Andre Braugher, Toby Jones, William Sadler e Nathan Gamble

14 Comments:

At 12:50 AM, setembro 10, 2008, Anonymous Wally said...

Legal sua visão sobre o filme. Também saí impressionado e chocado pelo fim, que é uma descarga elétrica. Mas o filme em sí é cinema virtuoso e de conteúdo fascinante. Adorei.

Ciao!

 
At 2:04 AM, setembro 10, 2008, Anonymous Denis Torres said...

É Otávio, a decisão final é polêmica e nem sei se é questão de concordar ou não e sim de ter culhões de fazer aquilo. De qualquer forma não deixa de ser inverossímel e no desespero muita gente pode fazer muita coisa, pois até ali a perpectiva de esperança era zero para o personagem e todos no carro decidiram ir embora do jeito que eles queriam. O mais impressionante é que o diretor foi tão talentoso que mesmo quando "as coisas" que estão atrás da névoa aparecem, ele nunca cai no rídiculo. Shyamalan, assista umas 10 vezes esse filme e vê se reaprende. E Darabont, parabéns! Os filmes do Hitchcocok deram uma base sólida de como se faz um bom filme de suspense. Abs.

 
At 9:06 AM, setembro 10, 2008, Blogger Ygor Moretti Fiorante said...

Eu ainda estou formuando uma ideia desse filme, em momentos acho ele meio trash e pretensioso, em outros acho um surpreendente filme de terror que não se atém somente a sustos e monstros, e mais, consegue ser interessante, prender a atenção e manter o suspense em alta mesmo com a formula classica e nada inovadora de mosntros etc.

Abraçoe te mais.

 
At 11:09 AM, setembro 10, 2008, Anonymous Kamila said...

Otavio, eu acho que "O Nevoeiro" é tudo o que "Fim dos Tempos" quis ser e não foi! O Darabont mostrou ao Shyamalan como fazer um bom filme de suspense.

Acredito que o Frank Darabont acertou na cena final. É por causa dela que o filme fica martelando em nossa mente e faz com que a gente deixe a sala de cinema totalmente desnorteado e desconcertado.

Beijos!

PS: Acho que você foi perfeito ao dizer que o filme mostra a perda de fé na humanidade.

 
At 11:41 AM, setembro 10, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Wally, valeu! Também gostei bastante do filme.

Denis, Frank Darabont deu a cara pra bater. Isso já é digno de nossa atenção.

Ygor, é normal ainda não ter uma opinião formada sobre este filme. Eu mesmo demorei quase duas semanas pra contar o que achei.

Kamila, eu fui perfeito? Que isso? Imagina...

Abs a todos!

 
At 4:19 PM, setembro 10, 2008, Blogger Fábio L. Rockenbach said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 4:22 PM, setembro 10, 2008, Blogger Fábio L. Rockenbach said...

Ótimo.
Quando escrevi sobre o filme, imaginei que seria minoria. Vi muita gente criticando o filme e até chamando de "terror que não causa medo", e outras patetices. Brinquei no começo que era "Darabont dando uma de Shyamalan".(seculodaluz.blogspot.com/2008/06/o-nevoeiro.html)
Mesmo com o excesso de pieguice de "Cine Majestic", Darabont ainda não me decepcionou. "O Nevoeiro" é para mim uma das boas adaptações da obra de King.
E aquele final... uma paulada na cabeça, literalmente, que dá o que pensar.

 
At 4:29 PM, setembro 10, 2008, Blogger Museu do Cinema said...

Já tô com o filme para ver.

 
At 5:33 PM, setembro 10, 2008, Anonymous Vinícius P. said...

Seu texto é uma síntese perfeita do que "O Nevoeiro" apresenta de melhor, apesar de discordar um pouco em relação ao desfecho. Acho que Darabont conseguiu ousar e provocou polêmica com isso, algo raro num gênero que atualmente resume-se a coisas como "Jogos Mortais". Abraço!

 
At 9:43 PM, setembro 10, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Uai, Vinis! Obrigado, mas eu gostei do final. Eu faria diferente. Mas esse incômodo que permanece só comprova que a decisão do Darabont foi a melhor! Ou seja, faz pensar, fica na cabeça... Isso é raridade! Entendeu minha opinião?

Cassiano, veja logo, meu filho!

Fabio, cara, eu sou suspeito. Gosto de todos os filmes de Frank Darabont. Até de CINE MAJESTIC, que um monte de gente reclama.

Abs!

 
At 12:27 AM, setembro 11, 2008, Blogger Marcus Vinícius said...

Baixado e gravado, só esperando pra ver.

o/

 
At 3:02 PM, setembro 11, 2008, Blogger Pedro Henrique said...

Filmaço!!!!O terror do ano!

Abraço!!!

 
At 10:38 PM, setembro 12, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Marcus, seu Pirata!

Pedro, só pode ser, cara! Até pq não temos outro exemplar decente do gênero em 2008. Ou temos? Não lembro agora.

Abs!

 
At 9:51 PM, setembro 13, 2008, Blogger Anna said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 

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