quarta-feira, outubro 22, 2008

Filmes Cinco Estrelas


Por Denis Torres Ferreira


Cidadão Kane
(Citizen Kane, 1941). Quem já não se cansou de ver este filme na lista dos melhores filmes de todos os tempos ou freqüentemente votado como “o melhor filme já feito”? Lógico que isso não existe. Saber se tal ou qual é melhor na esfera artística é tão subjetivo como perguntar se eu gosto de um prato de comida que você detesta. Agora, num ponto, todo mundo que é apaixonado por cinema concorda (ou pelo menos deveria): Cidadão Kane é um dos filmes mais importantes e influentes da história cinematográfica.

Kane já nasceu ambicioso desde sua concepção e somente um gênio shakesperiano como Orson Welles (em seu primeiro filme) poderia executá-lo com ousadia e sem medo de errar. Contar o que foi (e como foi) a vida de alguém desde o seu começo até o seu fim poderia ser uma tarefa chata e pouco prazerosa, tanto para quem faz como para quem assiste.

É lógico que Welles não era bobo nem nada e se aproximou dos melhores profissionais de seu tempo. Gente como o fotográfo Gregg Tolland, que filmou os tetos e usou o plano de fundo inserido no contexto da história como nunca antes feito; e Bernard Hermann, um dos maiores compositores de trilhas sonoras para o cinema e o preferido de Hitchcock, com quem viria a trabalhar em diversos filmes do mestre inglês. Temos também um excelente roteiro de Herman J. Mankiewickz, em parceria com Welles, e que até hoje é motivo de polêmica se a autoria de grande parte da história é sua ou não.

Enfim, tinha tudo para dar certo e deu. Além disso, Welles reuniu amigos de seu círculo teatral e muitos atores atuavam pela primeira vez na telona, o que contribuiu imensamente para as performances despojadas e divertidas do clássico - um filme com a ingrata missão de contar a história de um personagem real e poderoso não poderia ter muita gente com o rabo preso.

Este texto não pretende se ater às diversas polêmicas batidas do filme e vai direto ao ponto: Charles Foster Kane, o Cidadão Kane, foi baseado na figura do magnata William Randolph Hearst, dono de um império jornalístico imenso que controlava as opiniões das massas de forma quase ditatorial.
A única coisa engraçada e interessante a respeito de Hearst é que um dos motivos de ele ter se enfurecido, logo após a exibição do filme, foi o uso da palavra Rosebud, o grande mistério do clássico. No longa, vários jornalistas tentam descobrir o sentido dessa palavra proferida por Kane antes de morrer. Sendo assim, entrevistam todos aqueles que conheceram o magnata intimamente durante sua vida.

Agora adivinhe o porquê desse estardalhaço todo causado por Hearst? Rosebud (que em português significa "botão de rosa") era o modo carinhoso como Hearst chamava a parte íntima de sua mulher. Além de não ter gostado do modo como foi biografado, Hearst destruiu cópias do filme e difamou o mesmo em seus jornais, o que causou uma má bilheteria nos cinemas.
Sim, Hearst serviu de inspiração, mas é apenas um personagem como todos os demais e a busca de Orson Welles é muito mais profunda, e não vale a pena ver e analisar o filme por sua intriga e fofoca.

Várias sequências são antológicas e fica difícil citar todas, mas desde a abertura, em que o belo e sinistro tema de Hermann se sobressai, nós entendemos como a platéia da época testemunhou algo diferente. A câmera se aproxima e atravessa as grades do império Xanadu (ou seria um presídio voluntário?) pouco a pouco até o momento em que a luz da janela do castelo se apaga e a palavra Rosebud é sussurrada, ecoando de um modo surreal e seguido pelo close-up da mão, que solta a bola de neve que se espatifa no chão, culminando com a morte de Kane.

Nunca me esqueci desse começo invertido, pois o personagem principal do filme morre na abertura e ao longo do filme somos obrigados a conhecê-lo via flashback, um recurso usado à exaustão hoje em dia. O mais interessante é que os flasbacks são inseridos de acordo com a visão de diversos personagens - são vários pontos de vista, o que enriquece o filme de maneira ímpar.

Cidadão Kane é exemplar por sua contribuição na inovação técnica em diversos setores, mas nada disso seria tão importante se não fosse acompanhado por uma boa história, e muito bem contada por sinal. É notável a boa vontade de Welles de colocar a obra acima de tudo e de todos. E ainda que o filme sofra em alguns momentos por aquela “consciência de si mesmo”, ele se supera pela dedicação, carinho e esforço de Welles e seus amigos.

Mas, no fim, o que é Rosebud? Numa resposta fácil, trata-se do trenó de Kane, que ele idolatrava antes de se separar de sua mãe e de sua alegre infância para assumir o império material a que estava destinado. Mas Rosebud é muito mais do que isso. A palavra representa o único momento feliz na vida de um homem, que teve tudo e não teve nada, pois não soube transformar seus recursos materiais em enriquecimento espiritual. Ele não soube viver a vida de um modo menos agressivo e capitalista.

Para Kane, Rosebud é a eterna busca do tempo perdido a que todos estamos submetidos - de ter feito o que queria e não conseguiu, pois não encontrou a verdadeira grandeza que tanto anseava. No final, o que parece restar é esse remorso todo melancólico, pois até agora, ainda escuto o fogo crepitar e o trenó queimando na grande fogueira.

Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941)
Direção: Orson Welles
Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles
Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Ray Collins, Erskine Sanford, Everett Sloane, William Alland, Paul Stewart, George Coulouris, Fortunio Bonanova e Georgia Backus

17 Comments:

At 12:45 PM, outubro 22, 2008, Anonymous Denis Torres said...

Otávio, a escolha da imagem foi perfeita! Eu ia escolher essa foto do palanque mesmo, pois ela é emblemática no filme e representa o ápice de Kane. A partir daí tudo começou a se desmoronar....

 
At 3:38 PM, outubro 22, 2008, Anonymous Kamila said...

Denis, concordo plenamente que "Cidadão Kane" é um filme exemplar pela contribuição que fez à linguagem cinematográfica, à maneira de se apresentar uma história, mas espero que você não fique bravo quando eu disse que, quando assisti ao filme pela primeira vez, assim que ele terminou, eu pensei: "mas, é só isso?".

O que quero dizer é que acho que as expectativas que este filme cria são enormes e não sei se elas são inteiramente correspondidas após entrarmos em contato com a obra do Orson Welles.

E do Welles, por sinal, gosto bem mais de "A Marca da Maldade".

 
At 3:45 PM, outubro 22, 2008, Blogger Kau said...

Otávio, Cidadão Kane, logicamente, está no meu top 10 de todos os tempos. Mas ainda assim, há uns 4 ou 5 que, na minha avaliação, são superiores.

É o meu, disparado, filme preferido de Orson Welles. Mas tb acho A Dama de Shangai, A Marca da Maldade e O Processo notáveis.

Abraços.

 
At 4:06 PM, outubro 22, 2008, Anonymous Denis Torres said...

Kamila, a expectativa frusta muita gente devido à repercussão e o título bobo de "o melhor filme de todos os tempos". Sugiro que o reveja pela segunda vez e coloque-se no ano de 1941 e veja o quanto à frente de seu tempo ele estava. Concordo que Welles fez filmes melhores, o próprio filme seguinte de sua carreira, Soberba, é uma delícia de assistir e mostra uma desenvoltura maior do diretor.

Kau, gosto tanto de Welles que todos os filmes mencionados são "hours concours" e só lamento que sua genialidade não foi explorada em mais filmes, pois sua carreira após Cidadão Kane foi prejudicada pelos engravatados de hollywood. Abs.

 
At 4:08 PM, outubro 22, 2008, Anonymous Robson Santos Costa said...

Achei Cidadão Kane um filme ótimo. Porém ele é mais importante do que ótimo. Explico: por exemplo, acho O Podereso Chefão melhor que Cidadão Kane mas Cidadão Kane foi(e é) muito mais importate pra linguagem do cinema, pra sua modificação e "evolução", influência, ou seja, é daqueles filmes que mudam a linguagem cinematográfica mesmo. Pulp Fiction por exemplo, tem gente que não gosta mas sua importância e influência pro cinema é inegável.
Sobre o trenó matei a charada quando vi filme pela primeira vez ano passado. Conhecia boa parte da história mas não sabia o significado da palavra matei a charada vendo o filme.
E realmente Otávio acho que a vida feliz do kane foi só té aquele ponto onde ele saiu de csa, apartir dali ele foi outra pessoa.

 
At 4:16 PM, outubro 22, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Denis, KANE é um dos melhores filmes de todos os tempos. Mas A MARCA DA MALDADE, do Welles, está na frente. KANE foi muito importante para a evolução do cinema. Welles rompeu várias barreiras e inovou o conceito de filmagem, como você colocou muito bem no texto.

Filmes que sobrevivem ao tempo são geniais esteticamente e também por seus roteiros e atuações. Mas eles sempre influenciam e ditam a tendência dos filmes dos anos seguintes. KANE tem excelente (e inovadora) direção e um roteiro estupendo. Mas, no geral, acho que ele fica atrás de outras grandes obras. Nunca concordei com seu insistente 1º lugar nas lista de 8 entre 10 críticos velhinhos de cinema. Como obra completa, até prefiro A MARCA DA MALDADE.

Atualmente, isso vem mudando. Muitos críticos novos andam colocando O PODEROSO CHEFÃO no topo. Aos poucos, justiça vem sendo feita.

Abs!

 
At 4:34 PM, outubro 22, 2008, Anonymous Denis Torres said...

Robson, a importância de Kane é inegável mesmo. Só gostaria que as pessoas o vissem sem aquela coisa de obrigação, como se fosse um dever de casa, o que acaba sempre prejudicando a apreciação na primeira vez. É como qualquer livro do Machado de Assis que a escola impõe, sabe?

Otávio, esse negócio de number one é coisa de americano (vide as Olimpíadas) que sempre querem colocar as suas coisas como melhores e maiores que os outros. E eles não precisam disto, pois mesmo fazendo muita porcaria, o cinema americano é riquíssimo de grandes clássicos e seus filmes influenciam o mundo inteiro. O Poderoso Chefão é maravilhoso e indiscutível, mas sinceramente não consigo rotular nada como o "melhor filme" de todos os tempos. Na minha opinião O Poderoso Chefão é o filme mais grandioso de todos os tempos, ainda mais porque sua segunda parte é tão boa quanto a primeira, senão melhor. Só imagino o que Welles teria feito se tivesse nascido nos anos 70 e com liberdade para trabalhar à vontade, pois o próprio Marca da Maldade teve intervenção direta dos produtores, como a maioria de seus filmes após Kane. Abs.

 
At 4:48 PM, outubro 22, 2008, Anonymous Robson Santos Costa said...

Concordo com vc Denis. Essa obrigação é um saco mesmo. Por melhor que seja o filme a obrigação termina por estragá-lo um pouco em um priemiro momento. Aí, anos depois quando vc assisti de novo sem tanta expectativa...aí sim começa a gostar realmente do filme e ver seu valor.
Um Breve comentário sobre o Poderoso Chefão: ouvia falar que era ótimo, grandioso e tal Mas nunca tinha visto nenhum. Ano passado gastei uns 70 contos naquele box que vem com um disco de extras. Fiquei pensando: se isso for ruim mato quem disse que era bom. Resultado: ao término do primeiro filme meu queixo já havia caído e depois que vi a trilogia acredito até hoje que foi um dos dinheiros mais bem gastos da minha vida. Esse supriu a expectativa de forma total. Só não achei o segundo melhor, talvez tão bom quanto.

 
At 4:58 PM, outubro 22, 2008, Anonymous Denis Torres said...

Robson, eu gosto mais do segundo porque o que o Coppolla fez nele foi um absurdo. Ele "simplesmente" dirige com maestria e equilíbrio total 2 filmes (ou 2 histórias) em um único filme, ao contar o presente de Michael Coleone e o passado e início do império começado por Vito Corleone. Mamma Mia! MARAVILHOSO É POUCO!

 
At 5:54 PM, outubro 22, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Bom, alguns produtores também são bons no que fazem, Denis. A MARCA DA MALDADE é perfeito!

E sobre GODFATHER, eu me calo, afinal é uma divindade. Só falo que gosto dos três.

Abs!

 
At 5:59 PM, outubro 22, 2008, Anonymous Denis Torres said...

Sim, Otávio, o próprio Welles era conhecido por ter um gênio difícil, principalmente quando tinha que sentar-se à mesa com os produtores e discutir mudanças nos seus filmes. Circula uma versão nova em dvd de A marca da Maldade tal como Welles havia planejado que muitos consideram superior, mas ainda não vi essa versão do diretor. Abs.

 
At 6:54 PM, outubro 22, 2008, Anonymous Vinícius P. said...

Como nem vi o filme, não entro em maiores discussões...

 
At 1:53 AM, outubro 23, 2008, Anonymous Wally said...

Maravilhoso texto, digno do grande filme que foi e é. Cidadão Kane é obra-prima.

Ciao!

 
At 5:23 PM, outubro 23, 2008, Anonymous O Cara da Locadora said...

É exatamente o que disseram, foi um dos mais importantes do mundo exatamente pela forma revolucionária com que encarou a linguagem cinematgráfica...

Esse mistério do Rosebud é realmente uma coisa muito interessante e que gera muito pano pra manga. Recentemente eu estava vendo o documentário proibido no Brasil "Muito além do Cidadão Kane" quando (eu não me lembro quem, acho que o Chico Buarque) fala da Globo ele fala que é como Cidadão Kane só que sem o Rosebud, ou seja, sem o último resqquicio de humanidade e isso é genial...

 
At 2:15 AM, outubro 24, 2008, Blogger Cecilia Barroso said...

Eu acho este filme um dos melhores que eu já vi na minha vida. É daqueles que eu vejo e revejo, sempre encontrando coisas diferentes e interessantes.
Plasticamente não há o que se falar. Welles dá um banho com inovações e ousadias.
Tem que ser visto por todos!
Obra prima!

Beijocas

 
At 11:05 AM, outubro 24, 2008, Anonymous Anderson said...

Olha, eu acho q vc está enganado pq todo mundo sabe que Rosebud é o Trenó! hehe Brincadeira. Mas eu amo esse filme, tem sempre uma coisa nova pra perceber quando vc o revê. E não é à toa que dá nome ao meu blog. Abs!

 
At 11:37 AM, outubro 24, 2008, Anonymous Denis Torres said...

Vinicius, wake up, please.

Wally, obrigado.

Cara da locadora, já vi esse documentário (ele está no segundo dvd da edição especial do filme). A comparação do Chico Buarque não poderia ser mais pertinente. Abs.

Cecília, faço minhas as suas palavras. Orson Welles é um dos personagens mais interessantes do século passado. Bjs.

Anderson, news on the march! Parabéns na escolha do nome de seu blog. Abs.

 

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