terça-feira, outubro 21, 2008

O Casamento de Rachel

32ª Mostra Internacional de Cinema


Há alguns anos que o diretor Jonathan Demme, de O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia, não fazia um filme, ao menos, relevante ou interessante. Não acho que ele tenha desaprendido. Nada disso. Demme só precisou sobreviver e manter seu nome vivo numa indústria predadora de talentos. Mas enquanto o diretor se perdia entre filmes comerciais esquecíveis e refilmagens inúteis nos últimos anos, sua verdadeira alma atuava em documentários sobre medalhões da história norte-americana. E esse olhar de documentarista está presente em seu mais novo longa de ficção, o drama O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, 2008).

A primeira impressão sugere mais um filme independente sobre a preparação de uma família para o casamento da filha, um tema mais do que batido. Mas a intenção de Demme é celebrar a união dos povos ou das raças. Para o diretor, muita gente já aprendeu a conviver com indivíduos de diferentes culturas e costumes. E em um mundo marcado por guerras, preconceitos, violência e inveja, isso é algo a ser comemorado. Mas todos esses elementos estão inseridos no filme de forma sutil, sendo representados por personagens e situações.

Os grandes problemas da Humanidade citados no parágrafo acima são personificados pela jovem Kym (Anne Hathaway) em sua volta para casa, após um período numa clínica de reabilitação. Seu mero retorno ao lar para prestigiar o casamento da irmã, Rachel (Rosemarie DeWitt), gera discórdia e ameaça a paz da família e seus convidados. Não que a personagem de Anne tente estragar tudo, mas seu envolvimento com as drogas no passado deixou feridas jamais cicatrizadas em cada membro de sua família. Mesmo que essa não seja a intenção de Kym, sua volta simplesmente traz à tona alguns sentimentos sufocados por Rachel e seus pais: Paul (Bill Irwin) e Abby (Debra Winger), que se separaram e vivem novos casamentos.

O caos é alimentado aos poucos pela simples presença de Kym. Rachel acha que a irmã tenta roubar as atenções de sua festa. Kym acha que merece mais atenção que a noiva. Mas suas manifestações são retraídas - como crianças, elas só desabafam tais impressões na frente do pai, que sempre tenta apaziguar a situação, mas não tem o mínimo do controle que gostaria de exercer. E são as pessoas "de fora" que mais conseguem acalmar o stress da família: O noivo de Rachel, Sidney (Tunde Adebimpe), e Carol (Anna Deavere Smith), a atual esposa de Paul. Quando a situação pesa para Kym, Rachel e Paul, os ombros de Carol e Sidney estão no lugar certo e na hora certa. Já Abby é a que mais se isolou devido à tragédia que atormenta a família (e que será revelada ao espectador pela própria Kym). É o que tirei da direção de Jonathan Demme e do belo roteiro de Jenny Lumet, filha do grande cineasta Sidney Lumet.

Para explicar isso um pouco melhor, concentro-me na opção feita por Demme de filmar O Casamento de Rachel como um observador. Numa festa ou em qualquer outro evento, nossos olhos não estão sempre nas pessoas à nossa frente, certo? Elas estão bem ali, mas de vez em quando, nossa atenção está em outro lugar. Talvez naquela porta ao fundo. Ou na janela que não faz parte da conversa. Enfim, mas essas pessoas estão ali. Com seus conflitos e alegrias. Sei que, ultimamente, eu venho reclamando, principalmente nos filmes independentes, dessa estética suja, desleixada, real. Mas o estilo funciona muito bem em O Casamento de Rachel, afinal a câmera de Jonathan Demme é uma personagem que tudo vê e jamais esconde qualquer coisa do espectador.

Aproveitando-se dessa cumplicidade quase que natural, Demme faz com que a platéia seja parte da família em pouquíssimo tempo de projeção, o que torna a emoção muito mais fácil, sincera e recíproca. Essa câmera-personagem, no entanto, revela a verdadeira intenção do filme. Como já disse, Demme não quer contar os detalhes dramáticos de uma festa de casamento com convidados problemáticos. Ele também não quer tornar Kym a protagonista da história. Nem mesmo Rachel.

O importante é notar como o mundo pode ficar mais unido e despido de preconceitos. A louca festa de Rachel e Sidney só comprova que a vida não é um monólogo. Os coadjuvantes existem por uma razão. E você também é o coadjuvante de outra pessoa. É uma alusão ao momento atual do mundo. As pessoas, os países, os povos, as culturas precisam conviver em harmonia. Só assim para cada um seguir em frente e evoluir. Às vezes, uma intervenção "estrangeira" ou "de fora" é o suficiente para se pôr ordem na casa. E ao contrário do que Bush tentou ensinar, essa intervenção precisa ser pacífica, dócil, e compreensiva.

Para alcançar essa visão, Demme precisou deixar seus atores à vontade diante de sua câmera viva. Algo próximo do que Robert Altman fazia como ninguém. Com isso, o elenco fica solto e aberto para improvisos. Especialmente Anne Hathaway e Rosemarie DeWitt, que estão ótimas. Também gostei muito de Bill Irwin e só lamento que Debra Winger tenha apenas uma cena forte.

Apesar do modo como vi o filme, O Casamento de Rachel não é mais do que ele é. Vamos colocar os pés no chão. Não é um filme ambicioso e nenhuma obra-prima. É sim um olhar reflexivo sobre família, vida, sociedade e o mundo de hoje em dia. Mas você ainda seria o mesmo se este filme de Jonathan Demme não existisse. Talvez falte um "algo a mais", não sei... Só que às vezes, cinema também é isso. Apenas agradeça o convite do diretor, relaxe e aproveite O Casamento de Rachel.

O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, 2008)
Direção: Jonathan Demme
Roteiro: Jenny Lumet
Elenco: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin, Debra Winger, Tunde Adebimpe e Anna Deavere Smith

12 Comments:

At 12:57 PM, outubro 21, 2008, Anonymous Denis Torres said...

Otávio, seu texto está melhor a cada dia. Parabéns!

 
At 1:49 PM, outubro 21, 2008, Anonymous Denis Torres said...

Otávio, olha só a letra da canção título do novo álbum do Keane, Perfect Symmetry:

I shake through the wreckage for signs of life
Scrolling through the paragraphs
Clicking through the photographs

I wish I could make sense of what we do
Burning down the capitals
The wisest of the animals

Who are you? What are you living for?
Tooth for tooth, maybe we'll go one more

This life, is lived in perfect symmetry
What I do, that will be done to me

Read page after page of analysis
Looking for the final score
We're no closer than we were before

Who are you? What are you fighting for?
Holy truth? Brother I choose this mortal life

Lived in perfect symmetry
What I do, that will be done to me
As the needle slips into the run-out groove
Love - maybe you'll feel it too

And maybe you'll find life is unkind
And over so soon
There is no golden gate
There's no heaven waiting for you

Oh boy you ought to leave this town
Get out while you can the meter's running down
The voices in the streets you love
Everything is better when you hear that sound
Woooaohhh
Woooaohhh
Woooaohhh

Spineless dreamers hide in churches
Pieces of pieces of rush hour buses
I dream in emails, worn-out phrases
Mile after mile of just empty pages

Wrap yourself around me
Wrap yourself around me
As the needle slips into the run-out groove
Maybe I'll feel it too
Maybe you'll feel it too
Maybe you'll feel it too
Maybe you'll feel it too

I dream in emails, worn out phrases
Mile after mile of just empty pages

 
At 1:58 PM, outubro 21, 2008, Blogger Kau said...

Otavio, gostei bastante do seu texto. Pude entender o porquê deste filme não estar sendo tão elogiado quanto se esperava. Muitos creditam o seu ''insucesso'' pelas semelhanças que o filme tem com Margot e o Casamento. Eu, na verdade, gostei deste último e espero muita coisa de Rachel Getting Merried (e muito mais da atuação da Anne).

Abraços.

 
At 3:50 PM, outubro 21, 2008, Anonymous Kamila said...

Otavio, também gostei bastante do seu texto. "O Casamento de Rachel" é um dos filmes que mais quero assistir neste ano e seu texto me deixa ainda mais ansiosa para poder conferir o longa.

Beijos!

 
At 4:08 PM, outubro 21, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Obrigado, Denis! Espero que goste do filme. E já ouvi essa música do Keane. Só não experimentei o álbum completo ainda.

Kau, sabe que eu não gostei de MARGOT E O CASAMENTO? Achei um filme frio, desinteressante e desnecessário. E olha que adorei o filme anterior do diretor, que é A LULA E A BALEIA.

Kamila, acho que você vai gostar de O CASAMENTO DE RACHEL. É bem bonitinho. Triste em alguns momentos, mas cheio de esperança e amor pra dar...

Abs!

 
At 4:09 PM, outubro 21, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Ah! Obrigado, Kau e Kamila! ;-)

Abs!!!

 
At 4:24 PM, outubro 21, 2008, Blogger Pedro Henrique said...

O texto está péssimo, Otávio!

Brincadeira, bom como sempre!

Esse não é o um filme que me chama a atenção, quero só ver o que você vai achar do filme dos irmãos Coen e o do Woody Allen! Abraço!

 
At 12:31 AM, outubro 22, 2008, Anonymous Vinícius P. said...

Espero justamente esse "algo a mais" em "O Casamento de Rachel", mas pelo seu texto não pareceu que foi uma decepção, muito pelo contrário, é exatamente o que esse belo trabalho do Demme deve ser: um longa sem maiores pretensões, mas que cumpre seu papel.

 
At 12:40 AM, outubro 22, 2008, Anonymous Denis Torres said...

Tem a cotação e o link do Poderoso Chefão, mas falta o texto!!! Muita inspiração nessa hora!

 
At 10:56 AM, outubro 22, 2008, Blogger fabiana said...

Muito querendo ver este filme!

 
At 12:49 PM, outubro 22, 2008, Anonymous Denis Torres said...

The Breakfast Club. I love that movie! Marcou minha adolescência e de muitos outros...

 
At 1:43 PM, outubro 23, 2008, Blogger Alex Gonçalves said...

"só lamento que Debra Winger tenha apenas uma cena forte"

:(

 

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