terça-feira, janeiro 27, 2009

O Bebê de Rosemary


Um dos melhores filmes de terror de todos os tempos é também o maior trabalho da carreira do grande cineasta Roman Polanski. Acho que O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby, 1968) deveria ser visto por todo diretor e roteirista antes de filmar ou escrever qualquer filme do gênero. Polanski ensina (ou lembra) que o frio na espinha e a sensação de medo vêm do desconhecido. Se você não vê, o medo cresce. É a voz que vem do fim do corredor e você não sabe de quem é. É o barulho do vento que vem debaixo da porta. São aqueles passos no andar de cima. Medos básicos, que nascem em nosso inconsciente enquanto somos crianças. A platéia não precisa ver, mas sentir. Quanto menos, melhor.

Esse clima precisa de uma figura que represente a platéia. E aqui, temos a doce e ingênua Rosemary, interpretada brilhantemente por Mia Farrow, em seu papel mais famoso. No roteiro do próprio Polanski, adaptado do livro de Ira Levin, nós podemos até desconfiar o que está acontecendo no maldito prédio, que praticamente serve de cenário para o filme inteiro, mas não temos a certeza absoluta. A única coisa certa é que Rosemary não sabe e não podemos fazer nada por ela, apenas sofrer junto ou apreciar seu martírio com um prazer secreto pelo mórbido - como fazem os moradores do local. Todos atenciosos e preocupados em ajudar a pobre moça durante sua gravidez.

Hoje, você já conhece a trama de O Bebê de Rosemary, mas tente imaginar a reação da platéia em 1968, quando o filme foi lançado nos cinemas. Não há o tradicional final surpresa de M. Night Shyamalan, nem mesmo a banalização deste recurso. Aos poucos, Polanski prepara o terreno para um grande final. Não é previsível, mas pela construção da história, nós sabemos onde isso tudo vai dar. Menos Rosemary. Por mais que ela comece a desconfiar de tudo e de todos, inclusive seu marido, nada preparou a pobre moça para a última cena.

Mas o roteiro brinca com Rosemary e a platéia na busca pela verdade. Ninguém ter certeza de nada. Até mesmo na famosa seqüência surreal do sonho/estupro, o roteiro não revela inteiramente o que está acontecendo. Na verdade, não somos tontos, ou melhor, inocentes como Rosemary. Bom, tem gente que é assim, mas isso não vem ao caso. Mas veja como Polanski brinca com a dúvida: Como seu marido, Guy (John Cassavetes - Sim, o diretor), passa a maior parte do tempo conversando com o casal de vizinhos Minnie (Ruth Gordon, espetacular e vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) e Roman Castevet (Sidney Blackmer), ou trabalhando como ator, Rosemary pode estar simplesmente enlouquecendo com sua vidinha de casada (e grávida) solitária, chata e sem surpresas. É assim que funciona o roteiro. Mas também podemos desconfiar que o prédio inteiro planeja algo macabro para o bebê de Rosemary, quando este nascer, inclusive seu marido. É lógico que a suspeita para a segunda hipótese martela na cabeça do público. Mais do que na de Rosemary. Nós torcemos por ela, mas sabemos que é um caminho sem volta e que algo de ruim está realmente por trás disso. Quando a protagonista começa a concordar com as desconfianças da platéia, nós sabemos que já é tarde demais.

Na verdade, ninguém ali quer o mal dela. Nem seu marido. Vendo o filme, a pergunta que vem em mente é: O mal é apenas um ponto de vista? Ou seria uma tentação? Em Star Wars e O Senhor dos Anéis, o mal é uma tentação. Sem dúvida. Mas em O Bebê de Rosemary, acho que estamos discutindo um ponto de vista. Dois lados de uma balança sempre visando o sucesso pessoal e profissional. Outro aspecto interessante levantado por Polanski é uma análise fria da protagonista, chamada de "burra" ou algo assim por muita gente. Mas... Por que Rosemary é tão ingênua? Não vejo isso como um problema do roteiro. Isso é um truque para a platéia se preocupar com Rosemary, mas, ao mesmo tempo, torcer por ela com a incômoda sensação de que nada irá ajudá-la. Nem ninguém. A intenção de Polanski, acredito eu, pode estar na representação da mulher fragilizada e ainda alvo de preconceitos machistas em plena era da revolução sexual.

Talvez um roteiro nunca tenha sido construído de forma tão perfeita como explicarei a seguir: Polanksi começa O Bebê de Rosemary como um suspense hitchcockiano e o encerra como um filme único de terror. Se há o sobrenatural na trama, você sabe, então não é mais suspense. É só seguir a cartilha do mestre Alfred Hitchcock. Claro que muitos exemplares de terror começam como um "suspense", mas nunca essa transição foi feita com tanto cuidado e tanta competência sem jamais descaracterizar o filme.

Eu disse que O Bebê de Rosemary é o melhor filme de Polanski. Não conheço uma alma que não tenha ouvido falar deste clássico. Mas, talvez, nem todos vejam o filme como a maior obra-prima do diretor, afinal Polanski fez Chinatown. Mas O Bebê de Rosemary segue 100% a minha visão de cinema ideal. Acho que um filme deve agradar tanto o público quanto o seu diretor. O Bebê de Rosemary é arte, mas também é comercial. Unir esses dois extremos, no entanto, não é para qualquer um. E mesmo com outra obra-prima no currículo, Polanski foi perfeito num território capaz de fazer a maioria dos cineastas cair no ridículo, pois O Bebê de Rosemary é um filme de fantasia e o diretor conseguiu fazê-lo... funcionar. O mundo acredita nesta história. Mesmo quem não gosta do gênero. Ou quem não crê em Deus. Ou no Diabo.

O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby, 1968)
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski (Baseado no livro de Ira Levin)
Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans, Ralph Bellamy e Angela Dorian

13 Comments:

At 7:07 PM, janeiro 27, 2009, Blogger Pedro Henrique said...

Polanski é o pedófilo mais talentoso que eu conheço, e O Bebê de Rosemary é sua obra máxima.

 
At 8:15 PM, janeiro 27, 2009, Anonymous O Cara da Locadora said...

Excelente resenha, excelente mesmo... Com certeza me deu vontade de rever o filme...

 
At 10:55 PM, janeiro 27, 2009, Anonymous Kamila said...

Você acredita que eu nunca assisti a este filme, Otavio??

Beijos!

 
At 11:41 PM, janeiro 27, 2009, Anonymous Vinícius P. said...

"Um dos melhores filmes de terror de todos os tempos é também o maior trabalho da carreira do grande cineasta Roman Polanski", concordo plenamente! Por mais que eu goste de outros do diretor, acho que esse é imbatível - sem falar que é um terror praticamente insuperável na atualidade.

 
At 11:56 PM, janeiro 27, 2009, Blogger Otavio Almeida said...

Pedro, disse tudo!

Obrigado, Cara da Locadora! E é um grande filme mesmo, que merece ser visto, revisto e discutido.

Kamila, minha amiga cinéfila, assista logo. Acho que você vai gostar.

Vinicius, também acho que o filme jamais envelheceu. E assim são os grandes filmes.

Abs!

 
At 1:51 AM, janeiro 28, 2009, Anonymous Denis Torres said...

Polanski, um dos meus diretores prediletos! Ainda acho Chinatown sua masterpiece, com Bebê de Rosemary logo atrás. Você tem razão ao afirmar que é mais difícil fazer um filme com um temas desses e sair ileso, e Polanski consegue manipular seu público sem ser apelativo, coisa que Hitchcock era gênio. Gosto mais de Chinatown, porque tem vários personagens complexos bem trabalhados e sua trama e desfecho é genial. Sem contar que Faye Dunaway (She´s my sister...
she´s my daughter... She´s my sister and my daughter!), John Huston ( a essência do mal) e Jack Nicholson em excelentes atuações não é todo dia que vemos. Abs.

 
At 1:54 AM, janeiro 28, 2009, Blogger Ibertson Medeiros said...

O baixinho polonês é um dos meus diretores prediletos.
Sem dúvidas, O bebê de Rosemary é um clássico do cinema e uma das suas principais obras, juntamente com Chinatown.

 
At 1:57 AM, janeiro 28, 2009, Anonymous Denis Torres said...

Otávio, eis um embate interessante: O Bebê de Rosemary, com sua sutileza ou O Exorcista, com seu terror explícito? Sem dúvida 2 dos maiores filmes de terror do cinema e veja como a abordagem de ambos é diferente. Abs.

 
At 1:59 AM, janeiro 28, 2009, Anonymous Denis Torres said...

Na verdade, acredito que O Exorcista é o único filme de terror explícito que atingiu o status de clássico. Do you agree?

 
At 11:54 AM, janeiro 28, 2009, Anonymous Robson S. Costa said...

Filme Fantástico. Sugerir mais do que mostrar nunca funcionou tanto pra aterrorizar o público. Já imaginei cada coisa daquela cena final.
Chinatown vi uma vez achei bom mas nada especial, verei de novo no futuro pra ver se mudo a opinião.

 
At 5:48 PM, janeiro 28, 2009, Blogger Kau Oliveira said...

Otavio, eu fiquei muito chocado com esse filme. Acho um exemplar perfeito no gênero terror; inesquecível!

Mas, não acho que seja o melhor trabalho de Roman. Prefiro Chinatown, por exemplo.

Abraços!

 
At 8:48 PM, janeiro 28, 2009, Blogger Amenar Neto said...

Otávio, devo dizer que suas últimas duas resenhas que li, tratam-se de suas melhores. Leia-se: Benjamim Button e O Bebê de Rosemary. A de Benjamim, por exemplo, é completamente contrária à opinião que tenho sobre o filme, mas é tão boa que me fez reassistí-lo para observá-lo novamente. E, mesmo que eu não tenha modificado minha visão nem um pouco, só o fato de ser levado a assistir ou reassitir um filme, já é muito. Já o Bebê de Rosemary, vi a muuuiiito tempo, e agora pretendo rever.

Parabéns e continue assim!

 
At 10:09 PM, janeiro 29, 2009, Anonymous Wally said...

Adorei a crítica! Alias, todos de seus FILMES CINCO ESTRELAS são especialmente boas. E esse filme é incrível. Vi ano passado e fiquei angustiado. Realmente tenebroso. E que final maravilhoso (para não dizer outra coisa)!

Deve ser o melhor de Polanski.

Ciao!

 

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