terça-feira, janeiro 13, 2009

A Troca

Angelina é a Eva de Clint Eastwood, que atordoa o paraíso dos homens


Clint Eastwood já dirigia filmes antes de Bird, de 1988, que lhe rendeu o Globo de Ouro. Mas foi em 1992, com Os Imperdoáveis, que ele comprovou sua maturidade e foi recompensado com o Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor. Depois disso, tirando um ou outro filmão (Um Mundo Perfeito, As Pontes de Madison), o grande Clint ainda se preocupava em explorar seu potencial como ator e entregou diversas produções comerciais. Algumas bacanas. Outras nem tanto.

Mas, em 2003, com Sobre Meninos e Lobos, Clint assumiu de vez seu talento como cineasta. E abraçou de vez o pessimismo na América já visto em Os Imperdoáveis. No ano seguinte, faturou mais uma vez os Oscar de filme e direção, por Menina de Ouro. Em 2006, filmou duas excepcionais análises sobre a Segunda Guerra Mundial: A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima. Agora, ele lança A Troca (Changeling, 2008), que mantém a qualidade e a marca de Clint Eastwood em cada cena, mas que também, em relação ao período pós-Sobre Meninos e Lobos, representa seu filme mais fraco. Se é que podemos dizer assim, afinal é um trabalho de primeira.

Para mim, pela filmografia apresentada de 2000 até aqui, Clint Eastwood é o diretor da década. E incluo A Troca nesta seleção. Não acho que ele errou desta vez. Só... não foi tão econômico como costuma ser. Explico: Em seus melhores filmes, Clint é mestre ao supervisionar a edição. Não temos cenas em excesso, nem algo que poderia entrar para explicar melhor o filme. Nem mais, nem menos. Somente o necessário. Ou seja, ele é econômico. Já em A Troca, Clint se empolga e entrega um filme de 2h20, que parece ter 3h de duração.

Preciosismo? Talvez não. Isso é normal na carreira de qualquer grande cineasta e outros artistas. Um amigo meu, que odeia o Clint, já me disse: "Você aconselharia Leonardo Da Vinci a dar uma pincelada a mais ou a menos numa obra como a Mona Lisa?" Quem sou eu, enfim, para ousar dizer uma coisa dessas a Clint Eastwood? De qualquer forma, fiquei com essa sensação em A Troca. Por isso que digo que não há verdades absolutas na arte. Apenas opiniões. É gosto pessoal.

Ainda assim, A Troca é um trabalho acima da média, competente até a última cena. A reconstituição de época, que passa da década de 20 para os anos 30 da depressão americana, é um primor em detalhes registrados em cenários, figurinos, maquiagem e a fotografia de Tom Stern - aliás, a habitual escuridão das lentes deste diretor de fotografia nos filmes de Clint é equilibrada aqui com uma curiosa, rara e muito bem-vinda superexposição de luzes. Trata-se de um sinal de esperança na filmografia do diretor? Ou simples capricho visual? Eu acho que se trata de esperança, mas volto nisso mais tarde.


Tudo isso a favor de um Clint Eastwood que retorna a um tema doloroso, mas que marca sua filmografia: Pais desesperados em um mundo violento convivendo com a dor (ou a possibilidade) da perda de um filho. Isso é bem claro em Sobre Meninos e Lobos e Menina de Ouro.

Em Os Imperdoáveis e Sobre Meninos e Lobos, por exemplo, os respectivos personagens de Clint Eastwood e Sean Penn deixam uma vida de crimes para trás graças aos filhos, à família. Abandoná-los é como retornar a um caminho de trevas, solidão e violência. O tema "pais & filhos" também está em A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima - neste último, o personagem de Ken Watanabe, prefere partir ao lado dos "filhos" a viver nas sombras. E em todos esses filmes, Clint segue com seu pessimismo não somente na América, mas na Humanidade que se espelha nos EUA, já que citei o "japonês" Cartas de Iwo Jima.

No entanto, em A Troca, Clint parte do mesmo princípio, só que explorando um lado até então inexistente em seus filmes: a esperança. E simbolizada aqui pela pura, doce e inocente figura da mãe, interpretada por Angelina Jolie, que passa pelos mesmos medos e inseguranças de Sean Penn, em Sobre Meninos e Lobos. Mas enquanto Penn utiliza a força bruta masculina, Angelina jamais abdica de sua feminilidade para combater a injustiça e encontrar sua merecida paz de espírito.

Ela está ótima sob a direção de Clint, mas dizer que o filme vale somente pela atriz é um equívoco. A Troca é 100% Clint Eastwood, mas apresenta uma Angelina Jolie surpreendente em sua atuação. A trama não depende exclusivamente de sua Christine Collins, que luta contra a corrupção e o descaso da polícia de Los Angeles para encontrar seu filho desaparecido. A Troca depende (e muito) de diversos personagens com falas e cenas importantes - não em histórias paralelas, mas em camadas que formam um todo, incluindo Christine Collins. Claro que Angelina é o centro das atenções, mas ela não está para o filme como Tom Hanks está para Náufrago ou Philip Seymour Hoffman está para Capote. Também não é certo dizer que o diretor fez um noir. Ele pode flertar com o gênero favorito de James Ellroy, mas, antes de qualquer associação, precisamos reconhecer aqui um cinema de autor. É puro Clint Eastwood.

Um autor que também trabalha a imagem forte que a mulher pode ter num mundo dominado por homens desde os primórdios. Clint costuma fazer "filmes de macho", mas quando as mulheres tomam o controle da situação, o universo masculino é reinventado. É só rever e analisar as conseqüências causadas por Meryl Streep, em As Pontes de Madison, Hilary Swank, em Menina de Ouro, e, agora, Angelina Jolie, em A Troca.

O filme dá seqüência ao estudo do cineasta sobre uma América intolerante, racista e acima de tudo e de todos. Conviver em paz e de forma civilizada num país assim, só pode ser uma utopia. Mas, desta vez, na transição da Era Bush para a Era Obama, Clint tem esperança.

A Troca (Changeling, 2008)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: J. Michael Straczynski
Elenco: Angelina Jolie, Jeffrey Donovan, John Malkovich, Michael Kelly, Jason Butler Harner, Gattlin Griffith, Eddie Alderson, Devon Conti e Colm Feore

14 Comments:

At 9:22 PM, janeiro 14, 2009, Anonymous Denis Torres said...

Otávio, que texto caprichado. Parabéns! Eu gosto de entrar nesse blog porque, gostando ou não do filme, suas análises são sempre pontuadas pelo bom senso de alguém que conhece cinema. Abs.

 
At 11:16 PM, janeiro 14, 2009, Blogger Pedro Henrique said...

Eu achei ótimo. Jolie arrebenta! Os maiores erros do filme foram criados pela crítica, não pelo Clint.

Abraço!!!

 
At 12:10 AM, janeiro 15, 2009, Anonymous Vinícius said...

Otávio, sou novo aqui, mas o acompanho há algum tempo. Como o texto é sobre o mestre, resolvi falar algumas besteiras.

Estou pra ver um cineasta mais coerente do que o velho Clint. Muitos falarão que "A Troca" é simples, ou que a trama paralela furta o desenvolvimento da protagonista. Mas é nesse sentido que temos uma sequência fantástica, inesquecível: o interrogatório de um garoto. O cigarro, o ritmo preciso e o policial.

Clint Eastwood é um autor herdeiro de Don Siegel, de John Ford e principalmente de Howard Hawks: Clint é um cineasta de espaços, que tem profundo respeito pelos personagens, mas que jamais esquece a economia narrativa. Acredite, se ele diminuísse a duração, o filme não seria "100% Clint Eastwood", como você bem disse.

Todos os filme do velho Clint são bárbaros como cinema, mas em "A Troca" uma coisa ficou bem nítida: um artista focado exclusivamente em ser coerente com a vida e com a arte que o escolheu. Bravo, mestre Clint! Mais uma obra-prima!

Belo texto, Otávio. Um forte abraço!

 
At 4:16 AM, janeiro 15, 2009, Anonymous Wally said...

Otavio, ótimo ler elogios ao filme, já estava até perdendo a esperança. Agora verei o filme mais confiante.

Ciao!

 
At 6:00 AM, janeiro 15, 2009, Anonymous Vinícius P. said...

Eu pensei que eu tinha lido exatamente um dos comentários acima no meu blog, com uma ou duas modificações. Estranho...

Quanto ao filme, por mais que tenha um ou outro aspecto positivo (técnica, Jolie), fica muito aquém de qualquer um dos melhores filmes do Eastwood, na verdade acho que esse é seu pior trabalho. Abs!

 
At 10:28 AM, janeiro 15, 2009, Anonymous Robson S. Costa said...

Estou louco pra assistir, pena estar tão sem tempo. Mas vou ver se consigo ver. Um filme do Clint merece todo o esforço...pois sempre ganhamos muito em troca.

 
At 10:36 AM, janeiro 15, 2009, Anonymous Robson S. Costa said...

Ah Otávio, o roterista é o J. Michal Stracynski que escreve os quadrinhos do Demolidor não é?

 
At 12:21 PM, janeiro 15, 2009, Blogger Pedro Henrique said...

O BAFTA humilhou o Globo de Ouro nas indicações...

http://www.bafta.org/awards/film/film-nominations-in-2009,657,BA.html

 
At 1:21 PM, janeiro 15, 2009, Blogger Kau said...

Otavio, posso discordar de uma coisinha?! Achei a edição fenomenal e, inclusive, disse o contrário do que vc falou no meu texto: Clint mostra o necessário. Cada cena, pra mim, era extremamente necessária no contexto da trama e realmente não vejo problemas em ter ficado um filme longo. De qualquer forma, vejo - e fico feliz - que vc gostou do filme!

Concordo que Clint é um dos melhores em atividade...

Abraços!

 
At 3:47 PM, janeiro 15, 2009, Blogger pseudo-autor said...

Gostei muito de A Troca. Vi ontem. Concordo com você quando diz que o filme não vale só pela atuação da Jolie. É realmente 100% Eastwood. Quero ver agora Gran Torino, pois já me disseram que é um tapa na cara.

 
At 4:31 PM, janeiro 15, 2009, Blogger Otavio Almeida said...

Obrigado, Denis! Mas... Caros amigos, o Denis, na verdade, é pago pra me elogiar!

Pedro, Angelina tá maravilhosa! Clint chuta traseiros! Os filmes bons finalmente voltaram aos cinemas!

Vinicius, obrigado! Mas como eu disse, essa foi a minha impressão. Gosto pessoal. Clint é jóia!

Wally, vá sem medo, amigão! É Clint Eastwood! E Angelina Jolie em seu melhor momento!

Oi Vinicius, tá rolando Ctrl C + Ctrl V???

Putz, Robson, tô por fora de DEMOLIDOR. Desculpa! Alguém aí sabe?

Pedro, mas são praticamente os mesmos... E rasgação de seda pra SLUMDOG de novo...

Kau, pode discordar! E deve! Sempre que quiser! Respeito sua opinião!

Roberto, espero ainda mais de GRAN TORINO!

Abs!

 
At 4:59 PM, janeiro 15, 2009, Anonymous Robson S. Costa said...

Já confirmei Otávio. O roteirista é ele mesmo: J. Michael Stracynski o escritor dos quadrinhos do Demolidor(um dos melhores escritores de HQs da atualidade diga-se de passagem, ele é muito bom mesmo) e o criador da série babylon 5.

 
At 5:11 PM, janeiro 15, 2009, Blogger Otavio Almeida said...

Putz! Então o cara é bom! E o trabalho em A TROCA é muito competente! Abs!

 
At 5:47 PM, janeiro 15, 2009, Blogger Pedro Henrique said...

Realmente são praticamente os mesmos, mas os poucos que diferem são melhores, na minha opinião. Só pela indicação do Clint, por exemplo.

 

Postar um comentário

<< Home