sexta-feira, março 20, 2009

Gran Torino


Na crítica de A Troca, eu disse que Clint Eastwood continuava seu estudo sobre uma América intolerante, racista e acima de tudo e de todos. Disse também que a ideia de conviver em paz e de forma civilizada num país assim, só pode ser algo próximo à utopia. Mas, em A Troca, em plena transição da Era Bush para a Era Obama, Clint apresentou uma fagulha de esperança. Só que, para isso, faltava uma coisa: Deixar o conceito de Dirty Harry de vez no passado. Comportando-se como uma espécie de filme-testamento, Gran Torino (Gran Torino, 2008) traz todos os elementos vistos no cinema de Clint Eastwood pós-Os Imperdoáveis, obra que marcou seu amadurecimento e reconhecimento como diretor. Mas, ao mesmo tempo, parece exorcizar o que ficou de sua imagem mais popular como ator para seguir com sua fase de cineasta.

Com o tom fúnebre habitual do velho Clint - desta vez o filme até abre e fecha com um velório -, Gran Torino fala de preconceito, fé, terceira idade, família e violência. É tudo o que você já viu muito bem distribuído entre Os Imperdoáveis, Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, A Conquista da Honra, Cartas de Iwo Jima e A Troca. Dito isso, não posso esconder que considero Clint um autor. Seus temas favoritos estão lá, mas ele jamais faz um filme igual ao outro.

Estranhamente, se Gran Torino fosse seu último trabalho (como ator e diretor), Clint teria fechado com chave de ouro seu estudo sobre a América. Sabemos que ele já está rodando The Human Factor, com Matt Damon e Morgan Freeman, mas Gran Torino tem cara de o "último filme de Clint Eastwood". Ou é como se ele tivesse a intenção de virar uma página. Mas o próprio diretor afirmou em entrevistas que não pensou em Dirty Harry ao filmar Gran Torino. Até acredito nele, mas que Clint entende que o estilo de seu anti-herói grosseiro, racista e fascista já tem cheiro de mofo, ah, entende. É como se Walt Kowalski, seu personagem em Gran Torino, entendesse que seu tempo passou e que não adianta viver o resto de seus dias resmungando. O que ele pode fazer para essa nova geração é dar o bom exemplo.

Mas antes de voltar a isso, quero ressaltar Clint Eastwood como profundo conhecedor do cinema. Ele disse que aprendeu a ser diretor observando Don Siegel e Sergio Leone. Já revelou, inclusive, que um filme bom precisa de um bom roteiro e um bom montador. Com tudo isso nas mãos, Clint acha que o diretor não tem muito a fazer ou que ele precisa ser muito ruim para estragar o que já está bem encaminhado. Em Gran Torino, mais do que achar que Clint Eastwood quer acabar com Dirty Harry, penso que ele tenta deixar certos valores no passado, tendo a consciência de que pode passar o bastão para uma nova era de atores e diretores.

Para mim, mais do que ser um filme 100% Clint, Gran Torino é mais uma viagem do mestre por um de seus filmes prediletos: Os Brutos Também Amam, de George Stevens. Aliás, o título cairia muito bem. É verdade que Clint já fez sua versão de
Os Brutos Também Amam (ou homenagem) em O Cavaleiro Solitário, de 1985. O Estranho Sem Nome, filme dirigido por Clint em 1972, também tem um quê do clássico de Stevens, assim como Gran Torino. É basicamente a mesma trama - a diferença é que se passa nos dias de hoje e Shane (Alan Ladd) , o protagonista de Os Brutos Também Amam não era preconceituoso. Além disso, Shane era apaixonado por Marian (Jean Arthur) e cuidou de sua família - um sentimento substituído, em Gran Torino, por seus vizinhos asiáticos, que representam a aproximação e a compreensão do "outro", algo que Clint já fez em Cartas de Iwo Jima. O filme tem um final completamente diferente de Os Brutos Também Amam, mas sua construção é idêntica.

E Gran Torino pode ser chamado de western moderno. É só substituir a época atual e as gangues pelo Velho Oeste e fazendeiros inescrupulosos ou foras-da-lei. Mas, hoje, todo mundo acha que qualquer filme com trama atual envolvendo cowboys de rodeio é um faroeste contemporâneo. Enfim, o conceito de western está em Gran Torino. Não o cenário.

Sem medo de ser imperfeito, sem câmera de mão tremendo, nem a moderninha montagem frenética que move nove entre dez filmes atuais, Gran Torino pode olhar para o futuro do cinema, mas ainda é um exemplar à moda antiga. Clint é um habilidoso contador de histórias e, para isso, sabe que é preciso um pouco de paciência para se contruir trama, personagens, conflitos. Hoje em dia, é incrível constatar como Clint é capaz de deixar a platéia rindo e chorando numa montanha russa de emoções. Como ele consegue fazer com que o público se importe com um homem tão desprezível quando Walt Kowalski? Aí acho melhor estudar um pouco de John Ford, que apresentava protagonistas de aparência simples, mas de corações extremamente complexos. Gran Torino é o "momento John Ford" de Clint Eastwood. E esse é um dos melhores filmes do maior diretor da década.


Gran Torino
(Gran Torino, 2008)

Direção:
Clint Eastwood

Roteiro:
Nick Schenk e Dave Johannson
Elenco:
Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes e Chee Thao

14 Comments:

At 11:46 PM, março 24, 2009, Anonymous Denis Torres said...

Brilhante crítica. Tem muitas coisas que você viu e que a princípio eu não tinha observado, mas para um olhar mais atento essas referências aparecem mesmo. Ao mesmo tempo isso me lembrou aquela letra do Radiohead: "Just 'cause you feel it doesn´t mean it´s there".
Abs!

 
At 11:57 AM, março 25, 2009, Blogger Otavio Almeida said...

Obrigado, Denis! Radiohead? Que Radiohead??
Abs!

 
At 3:54 PM, março 25, 2009, Blogger fabiana said...

Gran Torino é bem excelente, mas, eu ainda fico com 'Sobre Meninos e Lobos'.

Abço

 
At 9:49 PM, março 25, 2009, Anonymous Kamila said...

Eu acho que vou ser uma opinião discordante em relação à "Gran Torino" porque não gostei tanto assim do filme. Eu achei o relato da história bem inconstante, mas fiquei fascinada, ao mesmo tempo, pelo Walt. Ele é uma personagem bem interessante.

Beijos!

 
At 10:48 PM, março 25, 2009, Anonymous Denis Torres said...

Otávio, vc conseguiu ir no show do Radiohead? Abs!

 
At 11:40 AM, março 27, 2009, Anonymous Vinícius P. said...

Gostei bastante de "Gran Torino", um filme definitivamente melhor que "A Troca" e que mostra a capacidade do Eastwood em comandar tramas tocantes.

 
At 12:07 PM, março 28, 2009, Blogger Gustavo H.R. said...

Eastwood é, certamente, um dos cineastas americanos que mais cresceram nesta década, talvez o mais, como está escrito aí. Ainda não estreou aqui; no aguarde de um grande filme (ao contrário ode A TROCA).

Cumps.

 
At 10:35 PM, março 28, 2009, Blogger Mayara Bastos said...

Gostei bastante de "Gran Torino", mais do que "A Troca", apesarem de serem histórias bem diferentes. Destaco a canção-título tocada nos créditos finais, é linda! ;)

 
At 2:22 PM, março 30, 2009, Blogger Daniel Sanchez said...

Gran Torino 1972 Cobra Jet com o motor V8 de 351 cilindradas cúbicas: Tem em torno de 300 cavalos e faz de 0 a 100 em 6.8 segundos. O 1/4 de milha fica em torno dos 15.4 segundos.

 
At 2:47 PM, março 30, 2009, Blogger Victor Nassar said...

Cara, preciso urgente ver esse filme! Os filmes do Eastwood se tornaram indispensáveis mesmo!

 
At 2:02 PM, março 31, 2009, Blogger Museu do Cinema said...

Finalmente nós concordamos!

 
At 2:32 PM, abril 02, 2009, Anonymous Anônimo said...

O Clint Eastwood contratou um ótimo roteirista(pouquíssima experiência em cinema)e usou o argumento de um cara (também novato) fantástico. Conseguiu fazer um filme interessante,que não é mérito dele: aliás, a maior prova disso são os lixos que ele andou fazendo, como "A Troca", "Million Dollar Baby" e "Mystic River". Ele sabe, sim, contratar uma equipe melhor do que ninguém (especialmente se for para fazer chorar o público burro da Academia) . Como ator (o melhor que ele faz) ele não está realmente mal. Mas parem com esta idolatria. Ah, vejam Bird, filme que o velhinho fez na década de 90. Esse é bom- o resto são grand torininhos passando pelas fracas Pontes de Madisson....

 
At 11:52 AM, abril 05, 2009, Blogger Pedro Henrique said...

O melhor filme do Clint!

 
At 8:29 PM, abril 21, 2009, Anonymous Anônimo said...

Pera aí... "Million Dollar Baby" é lixo??!!!?? Putz.... essa foi demais... mais, espera um minuto... analisando bem, a pessoa que escreveu isto deve ser o Walt Kpwalski fo filme... para ser tão rabugento assim....

abraços, e parabéns pela crítica!!

 

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