terça-feira, junho 30, 2009

Amadeus, 25 Anos de Som e Fúria

Clássico de Milos Forman permanecerá atual em sua eternidade

Por Otavio Almeida



Na época de seu lançamento, em 1984, Amadeus foi acusado por alguns críticos de ser uma espécie de "Mozart para roqueiros", no sentido mesquinho da expressão, um filme desrespeitoso e irônico, banalizando sua música e imagem. Por um lado, a acusação não é infundável. O diretor Milos Forman (Um Estranho no Ninho, Hair, O Povo Contra Larry Flynt, O Mundo de Andy), na verdade, dá um tratamento de astro do rock ao genial compositor austríaco. Isso está em detalhes como seu figurino, passando pela reação de seus fãs e críticos, e por sua postura excêntrica movida a atitudes ora histéricas, ora infantis. Mas há uma razão para isso. Milos Forman não fez um filme sobre Wolfgang Amadeus Mozart. É sobre seu rival, o compositor operístico italiano Antonio Salieri. Sobretudo, sobre sua inveja em relação a Mozart. Todo o filme é visto pelos olhos de Salieri. Daí a jogada de mestre de Forman em caracterizá-lo como um roqueiro hippie fanfarrão.

Antes de fazer qualquer acusação, lembre-se que Amadeus é baseado na peça homônima de Peter Shaffer, que também assina o roteiro do filme. Quero dizer que é uma obra de ficção. Ousada, mas ainda é ficção. A relação entre Salieri e Mozart neste filme é desenvolvida pela imaginação fértil (e extremamente criativa) de seus realizadores. Agora, acrescente aí a imagem de Mozart captada pelos olhos invejosos de Salieri. Desta forma, não há como negar que Forman e Shaffer estão livres para contar a história como quiserem.

INVEJA

Interpretado brilhantemente por F. Murray Abraham, que ganhou o Oscar de Melhor Ator, Salieri tem talento e bom gosto para a música. Mas é medíocre perto de Mozart. Como ele testemunha e reconhece, Mozart é genial. Ele não. Sua inveja extrapola os limites da sanidade ao culpar Deus pela chegada e existência de Mozart em sua vida. Sua simples presença ofusca seu talento e suas eventuais oportunidades profissionais. Entre a admiração e o forte desejo de vingança, não contra Mozart, mas contra Deus, Salieri planeja o assassinato do compositor que, segundo ele, recebe as notas musicais do Todo Poderoso.

No papel de sua vida, o ator Tom Hulce é Mozart. Sua atuação vibrante é um contraponto perfeito à seriedade de F. Murray Abraham em cena. Além de todas as caracterísicas a ele atribuídas, sua gargalhada ridícula o completa. É sua marca registrada. Começa divertida e torna-se, aos poucos, irritante e diabólica, já que estamos do lado de Salieri. Tom Hulce sugere que Mozart não leva seu trabalho tanto a sério como público e crítica o fazem. Talvez seja assim para muitos artistas, que vêem simplicidade e facilidade naquilo que fazem. Nós tornamos suas obras maiores do que a vida. Não eles. É a nossa interpretação que engrandece outra personalidade e cria o "gênio". Ainda assim, para a mente de um artista, administrar fama, dinheiro e a quantidade de talento e informação em sua mente é tarefa que vira convite para um réquiem. É um prato cheio para empresários inescrupulosos - como, de certo modo, é a imagem assumida por Salieri representando o misterioso homem mascarado que encomenda a Mozart uma obra-prima, sendo esta sua estratégia maquiavélica para "matar" o compositor.


CIÚME

Otelo, de William Shakespeare, é acima de tudo, uma história sobre ciúme. Para mim, a maior já feita sobre o tema. No cinema, a referência que me faz arriscar este paralelo é Amadeus. Salieri é o Iago de Peter Shaffer e Milos Forman, assim como Mozart é o Otelo da história. A Desdêmona dos compositores não é outra senão a música. Comparando as duas obras, podemos até dizer que Salieri nutre uma paixão secreta por Mozart. É um ponto de vista que se encaixa em Otelo e, também, em Amadeus. Mesmo que seja inconsciente. Por que não?

Não é à toa que Milos Forman faz filmes sobre estranhos no ninho, homens à frente de seu tempo, que geram admiração e revolta na sociedade em questão, fiel a regras e comodismos. Foi assim no clássico com Jack Nicholson. Ou com os protagonistas de O Povo Contra Larry Flynt e O Mundo de Andy. É assim em Amadeus. Para Salieri, Mozart é um "estranho no ninho". Mas para todos os outros ao redor, talvez Salieri seja classificado como tal. Talvez para o próprio Mozart.

GENIALIDADE

Amadeus ganhou oito Oscars, entre eles Melhor Filme e Melhor Direção, o segundo respectivamente para o produtor Saul Zaentz e o cineasta Milos Forman, vencedores em 1976, por Um Estranho no Ninho. Zaentz ainda receberia uma terceira estatueta, em 1997, por O Paciente Inglês, de Anthony Minghella, consagrando-o como um dos produtores mais celebrados pela indústria. É o homem que filma o "infilmável", como era considerada a peça de Peter Shaffer. São dois artistas visionários, que se espelham em seus protagonistas incompreendidos e à frente de seu tempo. De fato, não é exagero dizer que há um pouco do Mozart de Amadeus nesta dupla que pensava adiante.

Sua figura embebedada de talento e genialidade é colocada em um pedestal, que nós (considerados) mortais jamais atingiremos, sendo que a culpa para esta distância criada entre fã e ídolo é toda nossa. Chamar o Mozart de Milos Forman de astro do rock, ironicamente, tornou-se um elogio. Estamos falando de um gênero musical que veio muito tempo depois da era do grande compositor. A estranheza deu lugar à admiração, ao reconhecimento de um artista completo, que hoje, esteja onde estiver, ri à toa. Pelo menos, o Mozart deste filme.

Ah, um detalhe curioso, mas importante a respeito da filmografia de Milos Forman. Em Um Estranho no Ninho, Jack Nicholson arromba uma porta para testemunharmos o suicídio de um paciente. Em O Povo Contra Larry Flynt, Woody Harrelson entra desesperado no banheiro onde jaz outra vítima de suicídio. No início de Amadeus, empregados da casa de Salieri arrombam uma porta para ver o patrão cortando a própria garganta. Será que Milos Forman é atormentado por uma imagem de suicídio? Ou seria o fim da linha para aqueles que admiram, invejam e odeiam os protagonistas do diretor e não conseguem acompanhá-los em vida? Pode não ser nada disso, mas certamente Forman é um dos maiores diretores estudiosos de artistas reais, seus seguidores, e o senso de crítica social em ambas as partes.


Amadeus
(Amadeus, 1984)

Direção:
Milos Forman
Roteiro: Peter Shaffer (Baseado em sua própria peça)
Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Jeffrey Jones, Elizabeth Berridge, Roy Dotrice, Simon Callow,


Obs: Esta crítica entrará para a seção "Filmes Cinco Estrelas", localizada na barra lateral direita do blog.

12 Comments:

At 8:41 PM, junho 30, 2009, Blogger Bruno Soares said...

Amadeus é de um tempo em que as cinebiografias não serviam apenas para os estúdios faturarem suas estatuetas em premiações. Coisa de gênio mesmo!

E interessante essa observação sobre os suicídios, nunca tinha reparado.

Abs!

 
At 9:40 PM, junho 30, 2009, Blogger Otavio Almeida said...

BRUNO
Valeu! E fiz uma pequena correção no último parágrafo do texto. Abs!

 
At 11:33 PM, junho 30, 2009, Blogger Museu do Cinema said...

Que belo texto Otávio, é pra copiar e guardar.

Clássico!

Ahh, o post ai abaixo, que nem merecia dividir o mesmo espaço com esse post, não é para devolver não, vc sabia muito bem o que iria encontrar cinéfilo!

 
At 12:27 AM, julho 01, 2009, Anonymous Denis Torres said...

Acho que comentei com o Sr. que vi esse filme recentemente e de queixo caído. Adoro a cena final na qual Mozart compõe o Réquiem e Salieri não consegue acompanhar a mente insana e genial do mesmo. O final é bem fiel à realidade, pois o grande gênio Mozart foi enterrado numa vala comum, sem testemunhas devido à forte chuva. Tanto que até hoje não se sabem a localização exata de seu túmulo. A versão remasterizada e com cenas a mais é obrigatória. Um filme perfeito! Não se esqueça de ver o documentário no disco 2. Sheer delight!

 
At 5:30 AM, julho 01, 2009, Blogger Filipe Assis said...

F. Murray Abraham e Tom Hulce estão formidáveis. Mas Mozart é, sem dúvida, o actor principal. Excelente guarda-roupa. Um argumento cheio de bom humor.

Cumps.
Filipe Assis
CINEROAD – A Estrada do Cinema

 
At 9:52 AM, julho 01, 2009, Anonymous Robson Costa said...

Só fui ver esse filme em uma aula de quando estava no mestrado. Realmente muito bom. Vou ver se adquiro ele em DVd pra ver com mais calma em casa.

 
At 2:30 PM, julho 01, 2009, Blogger Mayara Bastos said...

Preciso ver este filme, deve ser mesmo sensacional.

 
At 2:49 AM, julho 02, 2009, Anonymous Vinícius P. said...

Todo mundo fala tão bem desse filme que realmente chegará ao ponto que precisarei ver. Após seu texto, fiquei bem curioso, pena que esteja bem atrasado na filmografia do Forman (nem vi "Um Estranho no Ninho", pra você ter noção).

 
At 6:01 PM, julho 03, 2009, Blogger Rodrigo Andreiuk said...

filmaço!

 
At 6:38 PM, fevereiro 27, 2013, Anonymous Anônimo said...

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