domingo, maio 18, 2008

Speed Racer


Em 1999, os Irmãos Wachowski foram elogiados por crítica e público pela criação de uma ficção científica arrebatadora que, apesar dos efeitos visuais fantásticos e originais, dava mais importância à história do que qualquer outra coisa. O filme foi Matrix, um dos mais influentes dos últimos anos. Naquele mesmo ano, George Lucas foi criticado por exagerar na dose dos efeitos digitais de Star Wars - Episódio I: A Ameaça Fantasma e deixar de lado a magia habitual dos filmes da série. Desta vez, ironicamente, a crítica deve ser feita aos Wachowski, que retornaram cheios da grana, mas com menos imaginação e muito mais fascinados pela tecnologia do cinema atual na adaptação do desenho japonês Speed Racer (Speed Racer, 2008).

Ao contrário do que dizem por aí, o filme não é um desastre. É fiel ao clima do desenho original e tenta levar todos os detalhes de uma animação para dentro de um filme com atores de carne e osso. Nesse sentido, Speed Racer é mais bem-sucedido do que Os Flintstones, que envelheceu de forma bizarra. Isso talvez não aconteça com Speed Racer graças ao computador. A estilização é exagerada desde os cenários aos figurinos, passando pela edição vertiginosa nas seqüências de corrida - tem cena que não se vê nada com tanta informação visual na tela a mil por hora. O problema é: quando os nossos olhos se acostumam com o excesso de cores e movimentos, os Wachowski cortam para o público reagindo nos autódromos e para os locutores de rádio, TV e outras mídias. Um ou dois segundos depois, vem mais um corte e te arremessa de volta para a loucura visual das pistas. Enfim, Speed Racer não é um filme normal e os Wachowski querem mesmo buscar novas etapas para o cinema - não há somente a intenção de homenagear um de seus desenhos favoritos.


Dito isso, os admiradores do cinema moderninho e com ritmo de videoclipe vão adorar Speed Racer (talvez mais do que os fãs do desenho). É pegar ou largar, afinal com 10 minutos de filme, você já sabe que está diante de algo diferente. O excesso de efeitos, no entanto, não seria um problema grave se o roteiro de Speed Racer fosse bom. Qualquer elemento do cinema, seja luz, som ou efeito especial, é um instrumento a serviço do diretor, que pode ser bem ou mal usado. Mas uma boa história ainda é um instrumento imprescindível.


E, fora das pistas, Speed Racer até apresenta momentos cativantes, principalmente quando se concentra na forte e consistente relação entre cada integrante da família Racer. Algumas cenas chegam a emocionar. Speed Racer é cheio de pirotecnias, mas no fundo é uma história de amor familiar, principalmente entre dois irmãos movidos à velocidade. O que atrapalha? Não são os flashbacks no início, mas a intenção dos Wachowski em discutir a teoria da conspiração sobre a manipulação das corridas, que coloca os negócios das grandes corporações à frente do espetáculo do esporte. Pode ser um elo com a realidade? Talvez.

Mas esse aspecto do roteiro surge para mostrar que Speed (Emile Hirsch) pode provar que a paixão pelo esporte vai além dos milhões gastos e adquiridos com cada corrida. Todos sabemos que a discussão não abrange apenas o esporte, mas também o próprio cinema. Seria interessante, mas o problema é que essa parte do roteiro é um tanto burocrática e cansa, afinal tudo mostrado até a revelação deste momento é conduzido principalmente ao público infantil. E a criançada não está nem aí para essa crítica às grandes corporações. Então, Speed Racer não encontra um ponto de equilíbrio entre os três itens: o ousado espetáculo visual, a trama familiar e a polêmica discussão sobre as corridas arranjadas.

É uma pena que Speed Racer tenha muito mais falhas do que acertos. Vale pela curiosidade de ver algo diferente, mas isso não quer dizer que você verá um bom filme. É uma obra contada em camadas ou etapas, que jamais se encontram. No fim, é uma produção para quem acredita que o cinema precisa se modernizar. A geração Playstation e XBox vai adorar. Pelo menos, não é um filme digital frio como A Lenda de Beowulf. E não somente pela presença de atores reais, mas pela existência de emoção em alguns momentos isolados.

Speed Racer pode influenciar o cinema dos próximos anos, mas é bom que estúdios, produtores e diretores tenham em mente que o roteiro ainda é o instrumento principal na realização de um filme. A velocidade e a agilidade da trama são aspectos secundários.

Speed Racer (Speed Racer, 2008)
Direção: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Roteiro: Andy Wachowski e Larry Wachowski

Elenco: Emile Hirsch, Matthew Fox, Christina Ricci, Paulie Litt, John Goodman, Susan Sarandon, Kick Gurry e Roger Allam

13 Comments:

At 3:40 PM, maio 18, 2008, Blogger Kamila said...

Que bom que gostou do filme, Otavio. Como você sabe, eu também achei "Speed Racer" bem legal. Gostei do uso de cores berrantes, das cenas de corrida, dos momentos vividos pela família Racer. Porém, acho que o filme tem obtido um resultado ruim porque é muito superficial e isso acontece porque a trama é apresentada com velocidade e agilidade, para citar dois termos que você usou em seu texto.

Beijos e bom domingo!

 
At 5:11 PM, maio 18, 2008, Anonymous Anderson said...

Ia ver esse filme hj, mas eskeci. Tem bastante talento no filme, mas essa moda de produção toda em 'green screen' parece q vem rendendo mais erros q acertos.

 
At 5:25 PM, maio 18, 2008, Blogger Louis Vidovix said...

Ontem msm um colega meu postou a critica sobre Speed Racer no nosso blog... Acho que por mais que sua qualidade como cinema tenha dividido opiniçoes, é unanime que o visual eh de encher os olhos!
Estou até considerando ir ver nos cinemas!

Abç!

 
At 5:52 PM, maio 18, 2008, Blogger Rafael Carvalho said...

O visual hipercolorido cansa realmente e o roteiro tem algumas falhas também, nota-se a utilização da velocidade das cenas e o visual exuberante das imagens para esconder esse defeito, mas no fim das contas o filme me agradou muito. Apesar dos processos digitais e da qualidade dos efeitos especiais, há uma atmosfera de nostalgia que remete ao estilo pop do vídeo-game misturado com desenho animado. Sem falar de todo o dilema humano que nunca é deixado de lado. E os primeiros 20 minutos do filme, com aquela edição para dar lugar aos flashbacks, é demais. Só não é melhor que a última corrida. De encher os olhos.

 
At 8:27 PM, maio 18, 2008, Blogger Pedro Henrique said...

Desisti de ver Speed Racer no cinema e vou esperar o dvd.

E nossos times ficaram no empate hoje, hein?

Abraço!!!

 
At 8:37 PM, maio 18, 2008, Anonymous Vinícius P. said...

A maioria não gostou e até achou um tanto exagerado (especialmente na parte visual, como você adiantou). Ainda não vi e não sei o que pensar - sei que não gostei já pelos trailers, mas os irmãos Wachowski certamente não fizeram uma 'bomba'. Abraço!

 
At 8:47 PM, maio 18, 2008, Blogger Johnny Strangelove said...

Assim, percebo que você sentiu algo dubio, sente que tem deficiencias porém sabe que tem virtudes ...

pode hoje ser um filme "incompreendido" porém no futuro ... quem sabe?
só o tempo dirá amigo ... só o tempo ...

abraços

 
At 9:26 PM, maio 18, 2008, Anonymous Rodrigo Azevedo said...

Eu gostei muito mais do que você. Mas o curioso é saber que a renda do filme nos EUA caiu ainda mais neste fim de semana ao arrecadar só US$7 milhões. É apenas o quarto mais visto da semana.

 
At 10:02 PM, maio 18, 2008, Blogger Museu do Cinema said...

Tõ baixando esse Otávio, só assim mesmo para conferir.

 
At 12:42 AM, maio 19, 2008, Blogger Robson Saldanha said...

Tenho que concordar que certas cenas desse filme é, de fato, completamente vertiginosa. Dá uma agonia. E também que não um ponto de equilíbrio o que debilita um pouco o filme. Gostei de tudo o que disse e acho que a cotação podia ser um pouquinho maior, hein Otávio? hehehe

abraço!

 
At 11:31 AM, maio 19, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Kamila, eu não gostei. Só não achei um desastre. Duas estrelinhas só... Tem coisa boa no filme. Mas os defeitos superam as qualidades.

Anderson, você tem toda a razão.

Louis, o visual é diferente. Enche os olhos, mas às vezes cansa. Se o roteiro fosse bom, ninguém ligaria para o excesso de efeitos visuais.

Rafael, o filme é legalzinho, mas não curti tanto quanto você.

Pedro, você é gremista? Bom, vocês pararam na trave rubro-negra e nas mãos do maior candidato a melhor goleiro do Brasil.

Vinicius, não é uma bomba. Mas também não é uma Brastemp.

Johnny, o tempo dirá, claro. Espero que eu esteja enganado.

Rodrigo, um filme não deve ser julgado pela bilheteria. O que importa é que vc gostou.

Cassiano, eu acho que vc vai odiar. Na boa, mas HOMEM DE FERRO, que vc não gostou, é cem vezes melhor.

Robson, eu já acho que fui muito bonzinho com os Wachowski.

Abs a todos! E boa semana!

 
At 2:27 PM, maio 19, 2008, Blogger Poetrica said...

Otavio, bele?
Quase saí na metade desse filme do carrinho. Nunca vi uma coisa tão chata na vida.A gente tem mania de ver lançamentos e acaba caindo nestas armadilhas... como dizia uma amiga - na época do celulóide- such a waste of celluloid!
Mas obviamente eu não esperava nada além disso. Inveja da geração de alguns anos atrás, cujo divertimento ficava para os filmes de Hitchcock... que por mais besteira que fizesse, sempre fazia algo inesquecível nos seus filmes.....
Cara eu adorei Beowulf....

 
At 9:42 AM, maio 20, 2008, Blogger Weiner said...

Exatamente, Otavio. Os defeitos superam as poucas qualidades, e isso faz de Speed Racer uma verdadeira desilusão.

 

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