segunda-feira, novembro 03, 2008

A melhor (nova) série do ano


Irritado com a leva desgraçada de filmes reciclados e sem inspiração que assolam os cinemas? É só procurar na internet pelas séries de TV mais badaladas do momento. Uma delas, ainda inédita no Brasil, é mais um golaço da HBO, que já nos deu The Sopranos, Sex and the City e Entourage. Falo de True Blood, a nova criação de Alan Ball, responsável pelo roteiro extraordinário de Beleza Americana e pela série Six Feet Under - produções que acompanham famílias problemáticas, quebras de paradigmas, preconceitos e a rotina de personagens outsiders.

De uma certa forma, True Blood segue a mesma linha. Mas desta vez, Alan Ball pega seus temas preferidos para entrar no universo da fantasia modernizando a criatura mais bacana do Inferno: O vampiro. E não é uma tarefa das mais fáceis, afinal os herdeiros do Conde Drácula andavam avacalhados (Um Vampiro no Brooklyn? Drácula 2000?) e esquecidos nos cinemas - tirando o recente 30 Dias de Noite, que defendo até a última gota de sangue.

Desde a obra clássica de Bram Stoker, o mundo acompanhou os vampiros, principalmente, na literatura (a série O Livro dos Vampiros é um belo exemplo) e no cinema, que eternizou as presas de Bela Lugosi, Christopher Lee, Max Schreck, Klaus Kinski, Gary Oldman, entre outros. Ao longo dos anos, Hollywood tentou ajustar o mito em cada época. Nem é preciso ir muito longe na era de clássicos como o Nosferatu de F.W. Murnau, que marcou o monstro no cinema mudo. No final dos anos 60, por exemplo, Roman Polanski filmou A Dança dos Vampiros como representante do período que iniciava o movimento da libertação sexual. Nos anos 80, tivemos o ótimo A Hora do Espanto, resultado da onda lucrativa de filmes protagonizados por adolescentes em busca de sexo e diversão.

Nos anos 90, quando o sexo casual foi aceito por grande parte da sociedade, Francis Ford Coppola lançou o maravilhoso Drácula de Bram Stoker, enquanto Neil Jordan se concentrou nas criaturas pop de Anne Rice, em Entrevista Com o Vampiro. Aliás, o filme de Jordan já começava a tocar levemente na imagem do monstro como minoria ou como um ser movido por sangue, desejo e acima de qualquer classificação de sexualidade - um vampiro não é gay, hetero, whatever. Ele simplesmente come o que vier pela frente (no sentido vampiresco da palavra) e não deve ser rotulado disso ou daquilo. Ele é um vampiro. E só. Porém, nos anos 90, o homossexualismo ainda era tratado como um tabu dos infernos. Hollywood discutia o tema de forma não distante, mas delicada. Vide Filadélfia, de Jonathan Demme. Era como se o cinema ainda estudasse ou tentasse decifrar a melhor maneira de explorar o assunto com o público.

Enfim, ao mesmo tempo, vampiros sempre foram sexy, assustadores, românticos, complexos e, talvez por isso, cult. Faltava explorar o mito como a indústria sempre quis. Ou seja, de forma popular. A TV deu o primeiro passo com a série Buffy (1997-2003). Ainda no fim dos anos 90, o cinema apostou em Blade, adaptação de HQ da Marvel. Do ponto de vista comercial, as franquias Buffy e Blade deram certo, mas vampiros não eram bons de merchandising. Todo mundo preferia comprar camisetas, bonequinhos e games de personagens de franquias como Star Wars, Batman, entre outros. Então, como é que Hollywood poderia apostar em vampiros?


Nesta década, os filmes de fantasia e as adaptações de HQs estouraram de vez, graças respectivamente a O Senhor dos Anéis/Harry Potter e X-Men/Homem-Aranha. A fábrica ficou feliz e aproveitou todo e qualquer tipo de venda em nome desses produtos. Ainda assim, vale a pena lembrar que Hollywood nunca sofreu com tanta falta de criatividade nesta década. Como os estúdios queriam sugar livros de fantasia e graphic novels até o fim, os vampiros ficaram de lado. Só no ano passado é que alguém decidiu filmar uma produção decente sobre vampiros: 30 Dias de Noite, que por sua vez, também saiu de uma HQ, claro. De qualquer forma, o filme de David Slade não rendeu tanta grana assim. E para Hollywood é isso o que importa.

Mas como manda a tradição, ainda faltava uma obra capaz de ajustar o vampiro a esta década. O cinema, obviamente, ficou para trás. E ainda bem, porque a TV norte-americana anda muito mais corajosa. Quando Alan Ball leu o primeiro volume da série de livros The Southern Vampire Mysteries, de Charlaine Harris, ele achou o conteúdo ideal para inserir seus temas favoritos. Protagonizada por Sookie Stackhouse, garçonete de uma pequena cidade da Louisiana, que tenta conviver com o dom de ler mentes (ou seria uma maldição?), os livros de Charlaine Harris e a série True Blood giram em torno de uma realidade como a nossa, mas com uma diferença sutil: vampiros revelaram sua existência aos mortais e tentam conviver com a sociedade.

Para isso, os monstros precisam aceitar algumas regras. Inclusive, uma bebida de sangue sintético (Tru Blood - sem o "e" mesmo) é criada pelos japoneses para satisfazer a sede das criaturas e afastar suas presas de nossos pobres pescoços. Mas como o povo, grupos religiosos e políticos vêem essa situação? Vampiros são cidadãos como qualquer outro? Eles têm direito a trabalho, voto ou moradia? É claro que existem aqueles que são a favor e aqueles que são contra. Tanto entre os humanos, quanto entre os vampiros.

Alan Ball vai ainda mais longe nesta análise e toca no problema das drogas - o sangue dos mortos-vivos é disputado no mercado negro a preços exorbitantes, afinal a substância estimula a percepção dos humanos e funciona como um Viagra elevado a décima potência. Intolerância, preconceito, luta por igualdade, entre outros temas fazem desta nova série uma obra genuína de Alan Ball e totalmente inserida nos dias de hoje. Enfim, os vampiros da década estão em True Blood.

Claro que ainda há o apelo comercial, que é usado de forma inteligente; passando longe do óbvio e da pieguice. Sookie (Anna Paquin) tem a capacidade de ler mentes, mas não consegue invadir os pensamentos do vampiro Bill Compton (Stephen Moyer). Isso dá uma segurança inédita a garota. Bill é capaz de hipnotizar qualquer mortal, mas não consegue induzir Sookie. Ambos se apaixonam inevitavelmente, mas o romance jamais cai no água com açúcar, afinal Bill pode ser o clássico, porém moderno, vampiro sedutor, mas é uma criatura da noite doida para sugar o sangue dos mortais. Todo cuidado é pouco para a jovem Sookie. Essa paixão move a série, mas True Blood utiliza a história de amor para convidar o grande público a um estudo sincero e contundente dos dias de hoje. Aliás, para simplificar, a violência e a frieza do mundo atual estão representadas tanto nas cenas sangrentas quanto nas cenas de sexo - protagonizadas por mortais ou imortais.

Em True Blood, Alan Ball pode até brincar com a mitologia dos vampiros, mas o autor aproveita a lenda para modernizá-la em um cotidiano onde ninguém é totalmente bom, nem 100% mau. Temos alho, cruz, luz do sol, sangue, a incapacidade de um vampiro entrar numa casa sem ser convidado; mas também temos violência, sexo, preconceito, indiferença, guerras e famílias disfuncionais. No fim, Alan Ball quer saber: Quem é o verdadeiro monstro de True Blood? O Homem ou o vampiro? Eis a questão.

A melhor (nova) série do ano começou muito bem e a HBO já encomendou uma segunda temporada. Resta saber se a ambição de Alan Ball será recompensada com a devoção do público norte-americano, que sempre define se uma série terá vida longa ou curta. Resta saber se True Blood estréia logo no Brasil. E resta saber se o cinema ainda conseguirá competir com a TV pelos próximos 10 anos.

13 Comments:

At 10:49 AM, novembro 04, 2008, Anonymous Robson Santos Costa said...

Muito interessante, fiquei bem curioso em assistir. Sempre adorei tudo relaciona a Vampiros.
Agora a Anna Paquin fazendo vampira é interessante pq quando ela e a Kirnsten Dust eram crianças não sei porque mas eu confundia as duas às vezes. E a Dunst fez Entrevista com o Vampiro, agora a Paquin faz uma vampira.

 
At 10:49 AM, novembro 04, 2008, Anonymous Robson Santos Costa said...

Muito interessante, fiquei bem curioso em assistir. Sempre adorei tudo relaciona a Vampiros.
Agora a Anna Paquin fazendo vampira é interessante pq quando ela e a Kirnsten Dust eram crianças não sei porque mas eu confundia as duas às vezes. E a Dunst fez Entrevista com o Vampiro, agora a Paquin faz uma vampira.

 
At 11:05 AM, novembro 04, 2008, Anonymous Kamila said...

Otavio, "Six Feet Under" é uma das minhas séries favoritas de todos os tempos e quero muito conferir "True Blood". Foi muito bom ler seus ótimos comentários sobre o seriado e estou só esperando a estréia do programa na HBO Brasil.

Beijos!

 
At 11:22 AM, novembro 04, 2008, Blogger Pedro Henrique said...

Não acredito que HBO fará algo tão bom quanto Roma. Pelo menos nos próximos 20 anos!

Abs!

 
At 1:54 PM, novembro 04, 2008, Blogger Kau said...

Otavio, SFU, pra mim, é a melhor série já feita. Ball é espetacular mesmo e estou ansioso demais para conferir True Blood (só ouço elogios).

Abraços.

 
At 3:05 PM, novembro 04, 2008, Blogger Pedro Henrique said...

E como foi a estada por aqui? Teve tempo para o lazer?

Abraço!

 
At 7:07 PM, novembro 04, 2008, Anonymous Denis Torres said...

30 Dias de Noite é muito bom mesmo. A Hora do Espanto é uma maravilha da minha adolescência, quantas sessões de madrugada eu assisti e revi esse filme, que é diversão pura! Só recentemente eu assisti a A Hora do Espanto 2 e por ser uma continuação, até que não me decepcionou. Vc assistiu a série Tru Blood em dvd? Abs.

 
At 9:19 PM, novembro 04, 2008, Blogger Otavio Almeida said...

Robson, imagine só se isso fosse para o cinema. Anna Paquin (ou Kirsten Dunst) jamais teria chance. Sookie seria interpretada por uma... Reese Witherspoon.

Kamila, acho que você vai gostar de TRUE BLOOD. É fantástico, mas é Alan Ball total.

Pedro, eu já acho que a produção insuperável da HBO é BAND OF BROTHERS. Ah, gostei muito de POA. Não sabia que tu era de lá. Achei que vc fosse um gremista longe do Sul, como o Cassiano.

Kau, então tu és mais um fã de SIX FEET UNDER. Entre para o clube!

Denis, vi sim. Em DVD zona zero. E também gosto de A HORA DO ESPANTO II. Mas o primeiro é muito melhor.

Abs!

 
At 9:20 AM, novembro 05, 2008, Anonymous Robson Santos Costa said...

Otávio, pq vc acha que ellas não teriam chance??? Acho que não entendi bem.

Realmente A Hora do espanto é um clássico vampirosco dos anos 1980, muito bom mesmo. Vi várias vezes na época. E o 2 é legalzinho também.

Six Feet Under eu tenho que ver um dia (embora, pra mim, nada, jamis superrará Twin Peaks, pode se aproximar apenas).

 
At 1:57 PM, novembro 05, 2008, Blogger Pedro Henrique said...

Ah sim, Band é a melhor coisa que a HBO já fez, mas é mini. Falo de séries com mais de uma temporada...

Abraço!

 
At 9:14 PM, novembro 05, 2008, Anonymous Vinícius P. said...

Puxa, seu texto ficou tão perfeito quanto é a série! Atualmente acompanho 30 programas nessa temporada e nenhum se compara ao que "True Blood" fez até agora (vamos ver se a quinta de "Lost" a supera). Alan Ball é gênio (como você disse, responsável por duas das obras mais originais que já vi) e acertou novamente!

 
At 12:58 AM, novembro 06, 2008, Anonymous Wally said...

Todos enchem de elogios à serie e eu, que morro de amores pelos trabalhos de Ball, preciso ver logo!

 
At 2:56 PM, julho 20, 2016, Blogger liz said...

Na verdade, os primeiros avanços de Vice Principals são exepcionais, além de não poder negar que a participação de McBride e Walton Goggins juntos é estremamente barulhenta, já que são atores muito peculiares e de bom físico. Não acham? Enfim, a serie gira em torno da feroz e louca rivalidade que é estabelecida numa escola norteamericana entre os sub-directores da mesma. Da HBO, é uma das melhores series, é uma proposta com o maravilhoso elenco ter, não o pode perder o segundo espisódio. Eu recomendo.

 

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