sexta-feira, janeiro 05, 2007

Os Intocáveis



Não é surpresa para ninguém que não sou grande fã do Brian De Palma. Acho que ele filma para exercitar movimentos de câmera baseados em influências de ídolos como Alfred Hitchcock. Mas sua filmografia não pode ser desmerecida. É inegável o fato de que De Palma renovou o suspense. Mas ao contrário da maioria, acho que ele contou bons (e ótimos) policiais. Neste gênero, existiram poucos como Brian De Palma.

Por exemplo, O Pagamento Final depende muito de Al Pacino, mas é um belo trabalho do diretor como contador de histórias - sem abandonar seu fascínio pela câmera ousada e com um olho atento para os detalhes. Outro exemplo é Scarface. É bom, mas parece que ficou datado. É totalmente anos 80 e é complicado assisti-lo hoje sem dar algumas risadas. De qualquer forma, seu final é grande e abalou aqueles que buscam uma redenção pura e divina para os protagonistas hollywoodianos. Recentemente, achei que De Palma se daria bem em Dália Negra, mas é o pior filme de sua carreira dentro daquilo que se espera dele, afinal não vale citar Missão Marte.

Mesmo sendo irregular, quero reconhecer a importância de Brian De Palma para o cinema, pelo menos, com um único filme: Os Intocáveis (The Untouchables, 1987). De Palma foi escolhido pela Paramount para dirigir o roteiro elegante e oportuno de David Mamet, que ignorou a série de TV homônima e pensou somente no formato de cinema. As escolhas de De Palma foram todas brilhantes, da composição das cenas à escolha de cada um dos atores (onde surpreendentemente errou feio em Dália Negra). Ele bateu o pé para Robert De Niro viver Al Capone (o estúdio queria Bob Hoskins, que era mais barato) e ainda pôde exercitar todos os seus recursos visuais para gerar suspense.

Mas aqui tudo deu certo – desde a câmera em primeira pessoa antes de uma cena reveladora até a maravilhosa seqüência da estação de trem. Inspirada em O Encouraçado Potenkim, talvez a cena represente o tiroteio mais célebre do cinema (se bem que tem aquele final do Meu Ódio Será Sua Herança, do Sam Peckinpah), ou certamente o mais belo.

De Palma faz cinema para citar seus mestres. Os Intocáveis tem até um momento John Ford quando Eliot Ness (Kevin Costner), Jimmy Malone (Sean Connery), Oscar Wallace (Charles Martin Smith) e George Stone (Andy Garcia) cavalgam para interceptar um carregamento de Al Capone na fronteira com o Canadá. Ali, De Palma abusa dos planos americanos em cenas internas e, claro, a panorâmica nas cenas externas, marcas registradas do grande Ford.

O Eliot Ness de Kevin Costner é um mocinho de Hollywood. Incorruptível, ele cairia como uma luva para James Stewart em outra época. Sean Connery está perfeito como o policial veterano e amargo com a lei que não funciona e se rende aos domínios do crime. Em Os Intocáveis, o religioso Malone (Connery) entregou Chicago nas mãos de Deus e aproveita seus dias em rondas noturnas pelas ruas. Um trabalho nada estressante, mas distante daquilo que ele não pode mudar sozinho. Ao conhecer Ness, Malone ganha uma injeção de ânimo. Sem saber onde encontrar uma equipe honesta, Ness quer prender Al Capone. Como se isso fosse fácil. Malone explica o caminho ao aprendiz com uma das falas mais brilhantes do cinema: "You wanna know how to get Capone? They pull a knife, you pull a gun. He sends one of yours to the hospital, you send one of his to the morgue. That's the Chicago way! And that's how you get Capone. Now do you want to do that? Are you ready to do that? I'm offering you a deal. Do you want this deal?"

Nesta fala está um ponto importante pouco citado nas resenhas de Os Intocáveis. Os personagens sabem que podem morrer a qualquer momento. O medo da morte ronda os protagonistas. Isso já foi abordado em clássicos como Onde Começa o Inferno, de Howard Hawks, por exemplo. Mas no filme com John Wayne, todo mundo chega vivo no final. E sem dificuldade alguma, afinal isso é entretenimento gerado por Hollywood. Em Os Intocáveis, os mocinhos não estão garantidos. De Palma quebra uma das vertentes do cinemão ao narrar sua história com uma pitada de produção voltada para o grande público e, sem aviso prévio, manda alguns dos protagonistas para o necrotério em cenas violentíssimas e extremamente dramáticas. É chocante.

Como o público conhecia a série de TV, o filme poderia ter sido concebido como uma aventura para estourar nas bilheterias. Mas não é. Ao contrário de grandes "filmes de máfia" anteriores a Os Intocáveis, como O Poderoso Chefão e Era uma Vez na América, De Palma entregou uma história de "apenas" duas horas de duração e, mesmo assim, conseguiu desenvolver seus personagens com muita rapidez e competência. Um exemplo é o vilão Frank Nitti (Billy Drago), braço direito de Al Capone, com sua expressão caladona e representando o mal absoluto vestido com a mais improvável das cores: o branco.

Os Intocáveis é um clássico que representa a última obra-prima do cinema a abordar a máfia. Foi ignorado pela Academia na categoria Melhor Filme, mas Sean Connery levou um merecido Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e a produção teve mais três indicações: Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora – o que nos leva ao magistral Ennio Morricone. Ainda que Os Intocáveis seja impecável, a música de Morricone é a essência do filme. Tente imaginá-lo sem a trilha forte, bonita e assustadora.

Para mim, Os Intocáveis é o que busco no cinema: entretenimento mesclado com drama, momentos de suspense e puro horror, atuações poderosas, trilha sonora marcante, além de fotografia e ambientes que retratam histórias maiores do que a vida.

Os Intocáveis
(The Untouchables, 1987)
Direção: Brian De Palma
Roteiro: David Mamet (Adaptado do livro de Oscar Fraley e Eliot Ness)
Elenco: Kevin Costner, Sean Connery, Andy Garcia, Charles Martin Smith, Robert De Niro, Billy Drago e Patricia Clarkson

4 Comments:

At 6:47 PM, janeiro 05, 2007, Blogger Wanderley Teixeira said...

Meu pecado como cinéfilo...Nunca vi esse filme do DePalma...

 
At 12:34 PM, janeiro 06, 2007, Blogger Túlio Moreira said...

Discordando (cara, não é sempre q gosto de discordar, hehehehehehe), Brian De Palma é meu diretor favorito. Os Intocáveis é um filme-de-cinema, q ele faz para exercitar sim todo o seu espírito naturalmente fílmico, a cena de Sean Connery ameaçando o cadáver, a homenagem à escadaria, tudo, everything is perfect, e olha q do mesmo diretor eu prefiro Dublê de Corpo, Vestida Para Matar ou O Pagamento Final.

Mas é bom trocarmos opiniões, espero q não fiques chateado. Ah, e quanto ao prequel, acho q vai ser bomba se De Palma entregar para outro diretor, assim como fez com o prequel de O Pagamento Final.

abs!

 
At 3:55 PM, janeiro 07, 2007, Blogger Otavio Almeida said...

Não, Tulio! Imagina! É legal conversar sobre cinema! Concordando ou não... Estamos aqui para isso, não é? E eu revi OS INTOCÁVEIS na semana passada. Comprei o DVD recentemente e é mesmo uma maravilha! Já estou com vontade de ver de novo...

Abs,

Otavio

PS: Acho que Joaquin Phoenix daria um ótimo Capone.

 
At 3:56 PM, janeiro 07, 2007, Blogger Otavio Almeida said...

Como assim, Wanderley??? Precisa fazer esse favor a vc mesmo e pegar esse DVD...

Abs!

 

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