quinta-feira, novembro 22, 2007

Os Donos da Noite


Em O Poderoso Chefão, Michael Corleone (Al Pacino) é um jovem militar, que mantém distância dos negócios de sua família mafiosa. Quando ele testemunha um atentado contra o próprio pai, Michael compreende que o bem e o mal, o certo e o errado são apenas questões de princípios. O lado que importa é aquele te deixa forte para proteger quem você mais ama. Deste momento em diante, o clássico de Francis Ford Coppola mostra uma das metamorfoses mais impressionantes de um personagem no cinema. Em Os Donos da Noite (We Own the Night, 2007), o talentoso diretor James Gray faz o extraordinário Joaquin Phoenix trilhar o mesmo caminho. Só que para o outro lado da lei.

O charme do roteiro do próprio James Gray é compreender como Bobby Green (Joaquin Phoenix) chega ao seu inevitável e surpreendente destino. Que ninguém diga, por favor, que eu afirmei que Os Donos da Noite é O Poderoso Chefão. Mas, certamente, a estrutura narrativa da obra-prima de Coppola influenciou Gray. Acho um erro chamar Os Donos da Noite de "filhote menor" de Os Infiltrados como a crítica americana andou insistindo. Alguns jornalistas "especializados em cinema" têm memória curta e a verdade é que esse tipo de filme sempre existiu. É o típico roteiro que rodou por Hollywood nos gloriosos anos 70. Aliás, acredito que grande parte de público e crítica nos EUA, hoje em dia, não possui sensiblidade e maturidade suficientes para entender o que James Gray quer dizer com valores básicos como honra, amizade, amor e a importância da família.

Alguns dizem que Os Donos da Noite está repleto de clichês, mas Gray tem apenas paciência para construir os ideais de seus personagens. É uma calma rara no cinema americano atual. Gray não faz gracinhas com a câmera e não tenta brilhar mais do que o roteiro e os próprios atores. Certa hora, quando ele resolve abusar da técnica, cria uma perseguição claustrofóbica de carros, do ponto de vista do motorista, com muita chuva do lado de fora e com o som assustador do pára-brisa. Nunca vi nada igual. Os Donos da Noite é extremamente lento, mas o recurso narrativo é necessário para o impacto final, que é emocionante. Para explicar melhor, cito o que Clint Eastwood disse em uma das entrevistas para divulgar Menina de Ouro: "Basta ter um bom roteiro, um bom montador e um elenco dedicado. Você tem que ser um diretor muito ruim para estragar tudo".

Em Os Donos da Noite, Bobby (Joaquin Phoenix) é gerente de uma casa noturna em Nova York, mas o local também funciona como fachada para a máfia russa. Para ele, o sucesso na noite e namorar a bela Amada Juarez (Eva Mendes) é o bastante. O dono do clube é Marat Bujayev (Moni Moshonov), que representa uma figura paterna para Bobby, que não segue os ideais de sua verdadeira família de policiais: o irmão Joe (Mark Wahlberg) e o pai Burt Grusinsky (Robert Duvall). O problema é que os tiras querem prender o traficante Vadim Nezhinsk (Alex Veadov), freqüentador do local e sobrinho de Bujayev. Bobby jamais se envolve nos negócios de Vadim e só quer saber de gerenciar o clube para ficar o mais longe possível do pai e do irmão, que estão deixando de acreditar em qualquer potencial guardado dentro do rapaz.

Quando Bobby começa a se envolver no jogo de gato e rato armado pelos tiras por causa de uma ironia do destino, a grandeza do filme de James Gray surge na tela. E realçada pela magnífica entrega de Joaquin Phoenix. Na verdade, todos estão bem. Até Eva Mendes. Mas o ator de Gladiador e Johnny & June poderia muito bem ter nascido na época de Al Pacino, Dustin Hoffman, Robert De Niro, Jack Nicholson... esses caras. Ele não faria feio. Certamente, Phoenix seria protagonista de grandes filmes em um tempo em que Hollywood não se preocupava com rostinhos bonitos. Joaquin Phoenix é um monstro. E o diretor e roteirista James Gray poderia conquistar o devido reconhecimento se tivesse disputado os melhores roteiros do cinema com nomes como Sidney Lumet em pleno auge.

Autor de Fuga Para Odessa e Caminho Sem Volta (também com Joaquin Phoenix e Mark Wahlberg), James Gray tem apenas três filmes no currículo e seu talento natural já é incompreendido nos EUA. Por mim, não tem problema. Enquanto houver diretores preocupados em contar uma boa história, eu estarei feliz. E tenho certeza de que esse é um sentimento compartilhado por muitos cinéfilos.

O título original We Own the Night era o slogan da polícia de Nova York nos anos 80, onde se passa a trama do filme. James Gray situa o espectador com os olhos da lei. Esse é um filme sobre tiras, que tentavam prender bandidos num período em que perceberam que estavam começando a perder o controle de uma situação que conhecemos muito bem nos dias de hoje. Brilhante.

Os Donos da Noite (We Own the Night, 2007)
Direção: James Gray
Roteiro: James Gray
Elenco: Joaquin Phoenix, Mark Wahlberg, Eva Mendes e Robert Duvall

10 Comments:

At 10:03 PM, novembro 22, 2007, Anonymous Wally - Cine Vita said...

Ótima crítica, mesmo que eu tenha achado o filme bem menos sensacional do que você. Minha nota seria apenas 3 estrelas. Gostei bastante da direção de Gray, como você disse, o momento da perseguição é brilhante, entre outros pontos ótimos, mas o roteiro falhou ao me cativar. A certo momento, o filme me perdeu, talvez pela estrutura convencional, mas foram os atores e a direção inspirada de Gray que me manteve confortado. Fora isso, o foco do roteiro é valioso, cercando a relação fraterna entre Bobby e Joseph. Acho que esse foco poderia ter sido ainda mais explorado, o que não acontece, graças a certos desvios. Enfim, um bom filme, me diverti vendo, e claro, o elenco empolga. Phoenix é o melhor, o "monstro" como você diz, mas acredito que Eva Mendes finalmente tenha aprendido a atuar.

De qualquer forma, com certeza se trata de um filme que eu veria novamente para analisar ainda melhor.

Ciao!

 
At 10:45 PM, novembro 22, 2007, Blogger Otavio Almeida said...

Wally, vc não gostou tanto quanto eu. Acho bom, mas não genial. É a sua opinião e deve ser respeitada. vc não precisa voltar ao filme só pq tem outras pessoas gostando.

Veja só: eu não vi muita coisa em ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ. Mas os críticos adoraram. Tb não gosto de BABEL... Fazer o q? É a minha opinião. Eu respeito a sua e acho que é muito relevante.

Grande abraço!

 
At 10:46 PM, novembro 22, 2007, Blogger Otavio Almeida said...

Quis dizer que "vc achou bom, mas não genial";)

 
At 12:07 PM, novembro 23, 2007, Anonymous Wally - Cine Vita said...

Entendi Otavio, mas eu não resisto. Na maioria das vezes que gosto de um filme, eu vejo novamente para analisar melhor. Ás vezes gosto mais, outras menos. Também respeito o fato de você não ter gostado de Babel, mesmo que eu tenho achado maravilhoso. Opinião é relativo demais. E é bom que cada pessoa tenha a sua. Se todo mundo pensasse a mesma coisa...

Grande abraço!

 
At 1:44 PM, novembro 23, 2007, Blogger Rafael Carvalho said...

Realmente não conheço o cinema do James Gray, mas o filme me animou sim. Até porque o elenco é outro atrativo, inclusive a beleza da Mendes.

 
At 3:02 PM, novembro 23, 2007, Anonymous Vinícius P. said...

Otavio. "Os Donos da Noite" recebeu aplausos na sessão de gala em Cannes, mas na primeira sessão para imprensa foi bastante vaiado - talvez pela presença de jornalistas americanos, que realmente não aprovaram o filme. Tenho muita curiosidade pois adoro "Fuga Para Odessa" (mas não tanto "Caminho Sem Volta"), acho que esse filme poderá ser uma boa surpresa.

Abraço!

 
At 3:44 PM, novembro 23, 2007, Blogger Otavio Almeida said...

É. Obrigado, Vinicius! Eu tirei essa informação, pq estava discutindo isso agora mesmo aqui com um amigo que esteve em Cannes. Ele disse que os aplausos foram na sessão de gala.

Abs!

 
At 5:48 PM, novembro 23, 2007, Blogger Kamila said...

Belíssimo texto, Otavio. "Os Donos da Noite" é isso aí: um filme sobre a transformação pela qual passa o personagem Bobby Green. A maneira como ele percebe que sua identidade estava próxima do que ele vinha fugindo.

E a cena da perseguição de carros é sensacional.

Beijos e bom final de semana!

 
At 7:03 PM, novembro 24, 2007, Blogger Wiliam Domingos said...

Texto claro e preciso...
Não vi o filme ainda, mas acho sem noção a definição de filhote menor de Infiltrados! E suas comparações com O Poderoso Chefão foram aceitáveis!
Realmente, é o tipo de filme que sempre existiu...espero que esteja voltando a se firmar. Clichê é algo difícil de discutir neste genêro...o importante e a objetividade e o resultado, mesmo que com alguns clichês!
Abraço!

 
At 9:25 PM, novembro 24, 2007, Blogger Otavio Almeida said...

Obrigado, Kamila! Pena que o filme parece não ter chances no Oscar e nos Globos.

Valeu, William! Mas veja logo esse filme, rapaz!

Bom final de semana a todos!

 

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