sexta-feira, maio 30, 2008

Coisas que eu deixei em Nárnia só para pegar de volta

"Ei, ei, você se lembra da minha voz? Continua a mesma.
Mas os meus cabelos... quanta diferença..."


Se um leão é o filho do Deus de Nárnia, como será o formato do Pai de Aslan? Se o Papai Noel mora em Nárnia, como ele faz para entregar os presentes na noite de Natal no nosso mundo e também em Nárnia ao mesmo tempo? Se a figura de Aslan é divina, o nosso Deus mora em Nárnia? Ou seja, Nárnia é o Paraíso? A Feiticeira Branca (Tilda Swinton) seria a personificação de Lúcifer? Um anjo caído? Depois de O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, os irmãos Pevensie sentem um frio na barriga quando abrem um armário para pegar uma jaqueta? Nárnia faz fronteira com a Terra-Média?

Se você não leu os livros da série As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, e só conhece esse universo fantástico por causa do filme de 2005 dirigido por Andrew Adamson, e gostou do que viu, certamente sua cabeça tem um monte de perguntas. Mas não acredito que as questões acima serão respondidas em As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian, que estréia hoje no País.

Tem gente que não gostou tanto do primeiro filme e acha que Andrew Adamson fez uma aventura muito infantil. O que é um erro. A verdade é que o diretor se esforçou demais para aproximar o conteúdo original de um público infanto-juvenil. O filme não é infantil como o livro. É bom você saber disso.

Outros acharam tudo muito parecido com o mundo de O Senhor dos Anéis, só que um pouco mais voltado para as crianças. Bom, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis foram grandes amigos e escreveram, respectivamente, O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia na mesma época. É natural que eles tenham trocado idéias. Além disso, os dois autores inseriram referências religiosas nas páginas de suas séries literárias. Só que Lewis trabalhou algumas influências da Bíblia de uma forma muito mais evidente do que Tolkien. Mas parte de O Senhor dos Anéis também tem inspiração na saga de Cristo. É só prestar um pouquinho de atenção.

Três anos depois de O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, a crítica parece unânime ao dizer que Príncipe Caspian é melhor que a primeira aventura dos irmãos Pevensie. E mais sombrio, claro. Aliás, já viram como virou mania escrever a palavra "sombrio", quando uma seqüência fica mais densa, violenta e dramática em relação ao episódio anterior de uma franquia de sucesso? Imagine, então, como Nárnia teria ficado nas mãos de Guillerno Del Toro ou Tim Burton - aí Johnny Depp teria ficado com o papel de Tilda Swinton, mas isso não é discussão para este momento. O que quero dizer é que Nárnia seria descrito como um verdadeiro "apagão" pelos críticos.

Mas se você não gostou do primeiro filme, qualquer notícia que exalte o upgrade da série pode não significar muita coisa. Eu acho que você precisa mesmo é relaxar e aproveitar a diversão. As Crônicas de Nárnia pode não ser intenso como O Senhor dos Anéis, mas também não é para a criançada miúda. E, definitivamente, você não encontrará um filme filosofando sobre passagens da Bíblia ou algo assim. Isso não é Matrix, afinal a diversão do público será mais importante do que as ambições do diretor. Mas ainda não vi o novo filme e não posso julgar o trabalho de Andrew Adamson. Só que irei ao cinema sabendo que As Crônicas de Nárnia precisa ser avaliado pelo filme que é. E não pelo filme que poderia ter sido.

quinta-feira, maio 29, 2008

Garçonete


Para embarcar completamente na magia de Garçonete (Waitress, 2007), o público precisa entender que a proposta da diretora, atriz e roteirista Adrienne Shelly foi contar uma fábula feminista para o século XXI.

Já vimos esse filme antes e os clichês estão lá. Mas Adrienne teve uma certa vantagem: ela pôde discutir temas que anteriormente eram considerados como "tabus" em Hollywood e na sociedade (e alguns ainda são). Hoje, a mulherada manda no pedaço e não depende de ninguém para ter seu espaço. Mas não custa nada lembrar a algumas pessoas que é possível ser feliz nesta vida, afinal tem gente que precisa de um empurrãozinho.

O filme é feminista, mas tenha calma. Garçonete não é sério como Norma Rae ou Terra Fria. É uma fábula deliciosa que equilibra drama e um humor irônico com rara competência. E é o roteiro de Adrienne Shelly que dá uma sensação de frescor ou novidade a um tipo de filme que já vimos antes. Sua força está nos diálogos inesperados e inteligentes disparados por um ótimo elenco. Destaco, principalmente, a atuação de Keri "Felicity" Russell, a garçonete do título. Aliás, eu jamais pensei que Felicity fosse capaz de provocar risadas em mim e, ao mesmo tempo, fazer com que eu torcesse por ela contra os homens canalhas.

Ah, as mulheres... No mundo imaginado por Adrienne Shelly, que ainda interpreta a personagem Dawn no filme, o homem não é requisito básico para a felicidade da mulher. Para ser feliz, uma garota só precisa alcançar certos objetivos na vida como ter amigas, ser mãe (de preferência de uma menina) e, acima de tudo, ter bastante dinheiro para tocar o futuro como ela quiser. Os piores homens de Garçonete são violentos, machistas e burros. Os melhores homens são casados e traem suas esposas (perfeitas) com a maior cara de pau do mundo. O homem só ganha juízo quando está com o pé na cova - é a única hora em que ele é capaz de se arrepender das besteiras que fez durante a vida. Resumo da ópera: em Garçonete, homem não presta e dinheiro traz felicidade e independência. Isso é A Felicidade Se Compra.

Se o mundo fosse como Garçonete, nós homens estaríamos perdidos. Neste caso, tenho uma leve preferência pelas mulheres do universo de Sex and the City, que ainda consideram os homens necessários para "alguma coisa". É o sinal dos tempos, rapaz...

Bom, como eu disse, a mulherada manda no pedaço atualmente. Mas, vocês mulheres, sabem que Garçonete é apenas ficção, não é mesmo? É uma fábula e um filme divertidíssimo. E é isso. Nada mais. Vocês sabem que os homens ainda são necessários. Ou não?

Obs: Essa pulga atrás da minha orelha é culpa de Adrienne Shelly, que fez um belo trabalho em Garçonete. Ela fará falta (para quem não sabe, Adrienne foi assassinada no ano passado). A vida real é uma droga e nem todas as tortas de verdade são gostosas.

Garçonete (Waitress, 2007)
Direção: Adrienne Shelly
Roteiro: Adrienne Shelly
Elenco: Keri Russell, Nathan Fillion, Cheryl Hines, Adrienne Shelly, Jeremy Sisto, Andy Griffith, Eddie Jemison e Lew Temple

quarta-feira, maio 28, 2008

Choke, a nova maluquice do autor de Clube da Luta


Um dos filmes mais esperados do ano é Choke, adaptação do cultuado livro de Chuck Palahniuk, o autor de Clube da Luta. No Brasil, a obra foi lançada com o título No Sufoco, mas o filme ainda não tem nome em português.

Com estréia prevista para setembro, Choke traz o ótimo ator Sam Rockwell no papel de um trambiqueiro viciado em sexo, que engasga de propósito em lugares públicos para ganhar a atenção da mulherada e faturar uma boa grana. É algo assim.

Choke marca a estréia do ator Clark Gregg na direção. Atualmente, Gregg pode ser visto na série The New Adventures of Old Christine (como Richard, o ex-marido da personagem de Julia Louis-Dreyfus) e no filme Homem de Ferro (como o Agente Phil Coulson, da S.H.I.E.L.D.). Além de também assinar o roteiro, Gregg atuará em Choke.

O trailer já foi liberado e você pode conferi-lo abaixo. Mas atenção: se tem a assinatura de Chuck Palahniuk, o filme só pode ser bizarro. Para mim, Choke será bem-vindo.


terça-feira, maio 27, 2008

Sydney Pollack fez tudo (e mais um pouco) pelo cinema


Ontem à noite, o diretor, ator e produtor americano Sydney Pollack perdeu sua batalha contra o câncer. Pollack partiu aos 73 anos e apenas dois meses após o amigo Anthony Minghella, para quem produziu O Talentoso Ripley, Cold Mountain e Invasão de Domicílio. Recentemente, Pollack também produziu Conduta de Risco, de Tony Gilroy, e o ainda inédito no Brasil O Amor Não Tem Regras, de George Clooney.

Como diretor, Sydney Pollack fez grandes filmes como A Noite dos Desesperados (1969), Mais Forte que a Vingança (1972), Nosso Amor de Ontem (1973), Operação Yakuza (1974), Três Dias do Condor (1975), Ausência de Malícia (1981), Tootsie (1982) e A Firma (1993). É vergonhoso, mas ainda não vi alguns de seus sucessos como Havana (1990) e Entre Dois Amores (1985), que lhe rendeu os Oscars de Melhor Filme e Melhor Diretor.

Pollack foi um cineasta de forte opinião política. Apesar de Tootsie, que é uma comédia fantástica e, talvez, o seu trabalho mais popular, Pollack gostava mesmo era de discutir a situação política dos EUA em seus melhores filmes. Tootsie não deixa de mostrar um cenário da sociedade e da política americana na virada dos anos 70 para os 80, mas se você rever A Noite dos Desesperados, esses aspectos são muito mais evidentes. Assim como em Nosso Amor de Ontem, que é lembrado como um dos mais famosos filmes românticos da década de 70, mas, na verdade, o que une e separa o casal Robert Redford e Barbra Streisand é a política.

O tema foi explorado por Pollack em outros formatos, afinal ele foi um dos mestres do thriller político apresentado por Hollywood naquele período. O diretor analisou os EUA pós-Richard Nixon, que foi presidente de 1969 a 1974, em filmes nervosos como Três Dias do Condor e Ausência de Malícia - não é à toa que seu nome está na produção de um atual e legítimo herdeiro do "gênero": Conduta de Risco.

Seu último grande filme como diretor foi A Firma, que honrou seu legado como bom diretor de thrillers. Depois disso, cometeu bobagens como a refilmagem de Sabrina e o romântico Destinos Cruzados. Porém, você sabe, em Hollywood até respeitados diretores precisam fazer porcarias somente para a manutenção de seus nomes na indústria. Para isso, Pollack se saiu bem melhor como produtor nos últimos anos. São títulos como Razão e Sensibilidade, de Ang Lee, Iris, de Richard Eyre, O Americano Tranqüilo, de Phillip Noyce, além dos já citados trabalhos para Anthony Minghella, George Clooney e Tony Gilroy. Um dos nomes fortes para a próxima temporada do Oscar também tem produção de Sydney Pollack. Trata-se de The Reader, o novo filme de Stephen Daldry, o ótimo diretor de Billy Elliot e As Horas.

Como ator, Pollack se destacou em filmes como Maridos e Esposas, de Woody Allen, O Jogador, de Robert Altman, A Qualquer Preço, de Steven Zaillian, De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick, Conduta de Risco, de Tony Gilroy, além dos seus filhotes Tootsie, Destinos Cruzados e A Intérprete. Seu último trabalho como ator foi O Melhor Amigo da Noiva, comédia romântica com Patrick Dempsey em cartaz nos cinemas.

segunda-feira, maio 26, 2008

O mundo conhece Sandra Corveloni


Desde ontem que não se fala em outra coisa quando o assunto é cinema. Pelo menos, aqui, no Brasil. Neste domingo, a paulistana Sandra Corveloni desbancou favoritas como Angelina Jolie ao merecer o prêmio de Melhor Atriz do 61º Festival de Cannes, por seu desempenho em Linha de Passe, o novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas.

Linha de Passe conta a história de Cleuza (Sandra Corveloni), empregada doméstica e mãe de quatro filhos (e à espera do quinto). Um deles cultiva o sonho de se tornar um jogador de futebol.

A discussão nacional em torno do nome de Sandra Corveloni é reforçada pelo fato da atriz ter repetido a façanha da grande Fernanda Torres, que ganhou o mesmo prêmio em 1986, por Eu Sei que Vou te Amar. Mas há um "pequeno" diferencial (sem desmerecer o imenso talento de Fernandinha): Sandra Corveloni não é uma atriz "Global". E isso deve ser valorizado. Ainda mais por saber que, aos 43 anos, ela foi homenageada pelo júri de Cannes sem, ao menos, ter o rosto reconhecido nas ruas pelos próprios brasileiros.

Formada em teatro pela PUC-SP, Sandra Corveloni é atriz do sensacional Grupo Tapa. Sua vitória em Cannes foi uma prova de que cinema não deve ser tratado como produto. O cinema é feito por artistas talentosos e, infelizmente, muitos deles não têm uma única chance para brilhar. Não é só aqui no Brasil, mas a arte vem ganhando um tratamento cínico. Alguma coisa se perdeu no tempo quando lembramos que estúdios ou emissoras de TV preferem trabalhar a imagem de um rostinho bonito com corpo sarado. O talento deveria vir em primeiro lugar. Mas fazer o quê? A arte virou produto para consumo em massa de adolescentes e o público jovem quer investir em produções protagonizadas por atores e atrizes com idades até, no máximo, 40 anos. E olhe lá. Hoje em dia, o público quer se ver na tela representado por astros e estrelas jovens. É só ligar a TV ou escolher nove entre 10 filmes em cartaz nos cinemas e você entenderá o que estou dizendo. Nós reclamamos diariamente da falta de talento, mas a culpa também é nossa.

Sandra Corveloni não pôde ir a Cannes para receber o prêmio, afinal após cinco meses de gravidez, ela perdeu o bebê. Os diretores Walter Salles e Daniela Thomas representaram a atriz na cerimônia e exaltaram o talento da moça. Que 2008 comece agora para Sandra Corveloni! E que Linha de Passe chegue logo aos cinemas brasileiros.

domingo, maio 25, 2008

Os vencedores de Cannes

O diretor Laurent Cantet (à direita) comemora
a Palma de Ouro do filme Entre Paredes ao lado de seu elenco


Rapidamente, os vencedores do 61º Festival de Cannes:


Palma de Ouro

Entre les murs (Entre Paredes), do francês Laurent Cantet

Grande Prêmio do Festival
Gomorra, do italiano Matteo Garrone

Prêmio do Júri
Il Divo, do italiano Paolo Sorrentino

Melhor Ator
O porto-riquenho Benicio Del Toro (Che)

Melhor Atriz
A brasileira Sandra Corveloni (Linha de Passe)

Melhor Diretor

O turco Nuri Bilge Ceylan (Üç Maymun / Três Macacos)

Melhor Roteiro

Os belgas Jean-Pierre et Luc Dardenne (O Silêncio de Lorna)

Palma de Ouro para Curta-metragem
Megatron, do romeno Marian Crisan

Menção especial para Curta-metragem

Jerrycan, de Julius Avery

Câmera de Ouro
Hunger, do inglês Steve McQueen

Menção especial

Ils mourront tous sauf moi, da russa Valeria Gaï Guermanika

Prêmio especial do 61º Festival de Cannes
A atriz francesa Catherine Deneuve (Un conte Noël) e o ator e diretor americano Clint Eastwood (The Exchange)

sexta-feira, maio 23, 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal


Como Steven Spielberg prometeu, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008) é um filme para os fãs da série. E digo mais: esse é um filme para quem admira o espírito e, principalmente, o ritmo das produções fantásticas de aventura e ficção científica que dominaram os anos 1980. Muitas delas assinadas pelo próprio Spielberg - seja como diretor ou produtor. Mas se você, amigo, não acredita mais nesse tipo de cinema, escolha outro filme. Depois não adianta reclamar.

19 anos após A Última Cruzada, Harrison Ford envelheceu. Como todo mundo. E o filme leva isso em consideração. Cronologicamente, a trama de O Reino da Caveira de Cristal também deu um salto de 19 anos e foi parar no ano de 1957, a época paranóica da Guerra Fria entre americanos e soviéticos. Saem os nazistas, entram os agentes de Stalin como vilões. O irônico é que Spielberg sempre quis dirigir um James Bond e a Guerra Fria joga Indy exatamente no cenário em que 007 iniciou suas aventuras com Sean Connery no papel principal. É um contexto reforçado pela presença da maravilhosa Cate Blanchett como Irina Spalko, uma agente soviética bizarra, mas capaz de despertar outros interesses no herói sem a ajuda do Viagra, que nem existia naquela época, claro.


Bom, mas se os filmes originais de Indiana Jones bebiam na fonte das matinês dos anos 1930, o novo se inspira no tipo de produção que levava o público aos cinemas nos anos 1950: a ficção científica B, que abordava invasões alienígenas como metáfora para a ameaça externa do comunismo e brincava com essa paranóia americana. E isso é um prato cheio para Steven Spielberg e George Lucas homenagearem não somente Indy e os filmes da dupla, mas o próprio cinema.

O Reino da Caveira de Cristal abre com um racha ao som de Elvis Presley. Sem qualquer diálogo, sabemos que o tempo passou e estamos vendo os anos 1950. Com a abertura bacana, o fã mais atento sabe que veículos em alta velocidade são paixões de George Lucas, que explorou isso em American Graffiti. Outros irão se divertir com as referências aos filmes originais de Indy e clássicos de Spielberg como E.T., Contatos Imediatos do Terceiro Grau e até De Volta Para o Futuro. Até aí, tudo normal para o fã de Indiana Jones, afinal as referências ao cinema sempre fizeram parte da série.

Mas e quanto a Harrison Ford? Ele ainda convence como o arqueólogo? Como Spielberg disse em Cannes, os filmes não seriam os mesmos sem a presença do astro. Quer saber? Ele tem razão. Nada de reinventar o personagem com um Indiana Jones Begins. Quando Ford aparece em cena pela primeira vez com o chapéu de Indy, o fã se enche de alívio e alegria. Ele ainda é Indiana Jones. Velho, mas ainda disposto, destemido e, graças a Deus, sempre desengonçado, ele foi afetado pela idade, mas o cara ainda agüenta a quilometragem. Inclusive, o filme respeita a inteligência da platéia ao evitar cenas muito brutas com Indy. Por exemplo, não vemos o vovô Jones sendo arrastado por caminhões ou esmagado por tanques - o que não seria plausível atualmente nem mesmo quando o assunto é Indiana Jones.

Eu citei o ritmo do cinema dos anos 1980 presente em O Reino da Caveira de Cristal. A ação deste filme, especificamente, remete a Os Caçadores da Arca Perdida, que tem mais história e menos correria - diferente de O Templo da Perdição e A Última Cruzada, que são mais acelerados. Mas quando os exageros habituais da série surgem na tela, a ação é espetacular. E é puro Indiana Jones. A perseguição de jipes e caminhões na selva amazônica é sensacional e ficará marcada na série. São momentos divertidíssimos a mil por hora com Shia LaBeouf mostrando carisma e habilidade para esse tipo de filme. E com Harrison Ford provando que ainda pode sair no sopapo com um inimigo grandalhão (cena que tem em todos os quatro Indiana Jones). A ação dos jipes inclui macacos, cataratas e formigas gigantes devoradoras de homens (é isso mesmo o que você leu). Mais uma vez: Isso é diversão. Isso é Indiana Jones.

Também citei o espírito dos filmes originais e da década de 1980. Começa pela fotografia do grande Janusz Kaminski, que assistiu aos três Indiana Jones para seguir o estilo de Douglas Slocombe, que já se aposentou. Vemos um trabalho contido do diretor de fotografia, que adora estourar a luz em muitas cenas e ele faz isso neste filme, embora em pouquíssimos frames. Nas seqüências de ação, felizmente, o editor Michael Kahn e o diretor Spielberg ainda trabalham como antigamente. Ou seja, Indy envelheceu, mas parece que A Última Cruzada foi ontem. Mas toco em um ponto importante para desenvolver o assunto: diferente de George Lucas, Spielberg se recusou a exagerar no uso de CGI em O Reino da Caveira de Cristal. Veja bem, meu caro, os efeitos digitais estão lá, mas comedidos. Lembre-se do clímax de Os Caçadores da Arca Perdida, por exemplo, com aquelas almas penadas voando e levando os nazistas para o céu, etc. O clímax de O Reino da Caveira de Cristal lembra muito o final de Caçadores, mas seria absurdo não aproveitar os recursos da tecnologia atual em cenas que exigem um visual extraordinário ou fantástico diante de nossos olhos mortais. Mais uma vez, aproximei o clima do filme novo com o original de 1981. É bom você não esquecer disso.

Mas o que mais me chamou a atenção, além da reconstituição fiel dos anos 1950, que não vejo de uma forma tão bem feita no cinema desde De Volta Para o Futuro, é o tema principal de O Reino da Caveira de Cristal. O filme é sobre educação e conhecimento. No início, o reitor da universidade interpretado por Jim Broadbent diz a Indy que ambos estão numa fase em que a vida não dá nada e só tira. É a parte mais emocionante e o herói realmente considera que chegou a hora de se aposentar, mas quando ele conhece o impetuoso Mutt Williams (Shia LaBeouf), tudo muda. O professor universitário que ensina a teoria, descobre que ainda tem muito a aprender e também a ensinar. Mais responsável, Indy precisa dosar a juventude de Mutt, que também faz o herói lembrar que a prática é mais divertida do que a teoria. O ensino se baseia na troca de experiências e o maior tesouro de todos é o conhecimento. Ou seja, a vida não pára. E o contexto se encaixa perfeitamente ao significado dos crânios de cristal, que não posso comentar ou isso estragaria a sua experiência.

Eu poderia escrever um texto até amanhã, mas bastaria dizer que Spielberg devia um filme divertido para o seu público. Ele ensinou ao mundo que o bom cinema também pode ser divertido e, agora, dá novamente o recado. Para isso, ele trouxe Indiana Jones de volta - heróico, apaixonado pela antiga namorada Marion Ravenwood (Karen Allen) e mostrando que, apesar da idade, o chapéu tem dono. Literalmente.

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp
Elenco: Harrison Ford, Cate Blanchett, Karen Allen, Shia LaBeouf, Ray Winstone, John Hurt e Jim Broadbent

quarta-feira, maio 21, 2008

A idade e a quilometragem

A data oficial de estréia é amanhã, 22 de maio. Mas vários cinemas do País já exibem Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal a partir de hoje (em cópias dubladas e legendadas).

E aí? Hoje ou amanhã? Quando você vai ver? Ou será que não está pensando em ir ao cinema logo no final de semana de estréia? Goste ou não, todos têm uma opinião a respeito de Indiana Jones. É impossível ficar indiferente.

Minha dica: antes de sair de casa, reveja os três filmes para entrar no clima. Escolha um cinema com excelente projeção e som de última qualidade, compre pipoca, bala, refrigerante e convide alguém para ir com você, afinal não dá para sair calado de uma sessão de Indiana Jones. Desligue o cérebro e o celular, pois você está no cinema. Quando surgir o logo da Paramount, que deve se transformar numa montanha de verdade como nos filmes anteriores, relaxe e aproveite a diversão.

Infelizmente, não tenho hora para sair do trabalho hoje. Então, só conseguirei ir amanhã. Que inveja de você... Mas espero que todos se divirtam como eu me diverti com os três primeiros da série.

Deus! São 19 anos desde Indiana Jones e a Última Cruzada, o único que vi no cinema. Como diz Indy em Os Caçadores da Arca Perdida, "It's not the years, honey. It's the mileage" (Não são os anos, querida. É a quilometragem).

terça-feira, maio 20, 2008

Indiana Jones e a Última Cruzada


Minha teoria é a seguinte: Os Caçadores da Arca Perdida definiu um padrão para os filmes de ação e aventura. Indiana Jones e o Templo da Perdição não repetiu o original em nada e (goste ou não) jogou o ritmo e o clima de aventura em outro terreno. A intenção de Steven Spielberg e George Lucas sempre foi oferecer diversão de qualidade ao público, mas o primeiro filme é mais simples, iluminado e criativo. O segundo é mais exagerado, sombrio e violento.

Depois disso, o gênero foi imitado e reciclado à exaustão por Hollywood, que sempre buscou um substituto para Indiana Jones. O status da série tornou praticamente impossível injetar criatividade a qualquer outro filme do gênero ou até mesmo em um futuro episódio de Indiana Jones. Pois então imagine qualquer trama para continuar a saga iniciada em 1981. Difícil fugir de elementos que esbarrem no que já foi mostrado em Os Caçadores da Arca Perdida e O Templo da Perdição, não? Se Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, 1989) não tem essa importância para o cinema como os filmes anteriores da série, a terceira parte entrega tudo o que os fãs poderiam esperar de mais uma aventura do herói, além de uma agradável surpresa: Sean Connery.

Seguindo a tradição, A Última Cruzada é diversão do começo ao fim. Mas apesar do início nostálgico com o jovem Indy interpretado por River Phoenix, o filme só parece decolar de vez com a entrada de Sean Connery em cena como o pai do arqueólogo. Outro detalhe: diferente dos outros longas, A Última Cruzada é carente de um vilão marcante como Belloq (Paul Freeman), de Os Caçadores da Arca Perdida, e Mola Ram (Amrish Puri), de O Templo da Perdição.

Você reparou que eu não apontei falhas em roteiro, direção, atuação, etc? Acho que os filmes de Indiana Jones só querem divertir. Ponto final. Se a maioria dos blockbusters do verão americano tivessem tal capacidade, a vida seria bem melhor. No caso de Indiana Jones, especificamente o terceiro filme da série, não entendo como alguém pode reclamar que faltou isso ou aquilo. Ninguém esperava por uma revolução ou uma reinvenção. A Última Cruzada foi feito para o fã da série. E um fã, como eu, pode reclamar dos pontos colocados no parágrafo acima. Não há defeito, apenas observações de um fã.

Desta vez, Indy (Harrison Ford) parte em busca do Santo Graal, uma obsessão na vida de seu pai, o Professor Henry Jones (Connery). Demora um pouco até os dois se encontrarem, mas até esse momento chegar, o roteiro conduz a história com a paciência que falta nos atuais filmes de entretenimento. E isso é uma regra na série. As aventuras de Indy sempre abrem com uma seqüência de ação não necessariamente ligada ao restante da trama. Depois, vem a explicação do artefato que Indy fará de tudo para pegar antes de vilões sedentos por poder. E então, Spielberg enche os minutos seguintes de ação ininterrupta. Sempre foi assim. A Última Cruzada não é diferente.

Temos cenas espetaculares, incluindo perseguições infinitas de motos, lanchas, tanques e aviões, mas o que fica é a relação entre pai e filho - uma das mais belas e fortes já mostradas pelo cinema. Aliás, a presença ou ausência do pai na vida do filho é uma das abordagens do cinema de Steven Spielberg. Em A Última Cruzada, ele une o útil ao agradável. O acerto de contas de Indy com o pai se dá nos detalhes. Há uma cena magnífica dentro de um dirigível quando Indy reclama da falta de carinho do pai durante a infância do herói. O diálogo inteiro é de uma honestidade absurda num filme do gênero.


A aventura da busca pelo Graal serve somente para unir os dois. No fim, quando o cálice se perde para sempre, Indy pergunta ao pai o que tudo aquilo significou para ele. O velho Henry Jones responde: "Iluminação." Logo em seguida, é a vez do pai perguntar a mesma coisa ao filho. Ele não chega a dizer, mas a resposta é óbvia: Indy também foi iluminado. E isso quer dizer que ele reencontrou e compreendeu o pai.

Quando lembramos do filme, as cenas de ação ficam na mente, mas é essa história de pai e filho que permanece no coração. Por ser o mais sentimental dos três primeiros filmes, A Última Cruzada é o favorito entre os fãs mais novos (e também de Spielberg, Lucas e Ford). O carisma de Sean Connery foi fundamental para que todos pudessem alcançar o resultado esperado. É um filme que vive para sempre. Mesmo que não tenha a importância e a originalidade de Os Caçadores da Arca Perdida e O Templo da Perdição. A maior conquista de A Última Cruzada está no carinho dos fãs, que é o mesmo para cada um dos episódios. E isso é raridade numa série feita para o cinema.

Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, 1989)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Jeffrey Boam
Elenco: Harrison Ford, Sean Connery, Denholm Elliott, John-Rhys Davies, Alison Doody, Julian Glover e River Phoenix

Os bastidores da última cruzada


Steven Spielberg, George Lucas e Harrison Ford nunca esconderam que gostariam de fazer, pelo menos, mais um Indiana Jones. Em 1988, o trio encontrou espaço na agenda de cada um para finalizar a até então trilogia. Spielberg seria o diretor de Rain Man, que acabou ganhando quatro Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor (Barry Levinson), mas preferiu fazer Indiana Jones e a Última Cruzada antes que Harrison Ford ficasse "velho demais", afinal o astro do século XX era quase um cinqüentão. Ironicamente, isso foi uma preocupação.

Mas para chegar lá, Spielberg queria distância de idéias sombrias do amigo George Lucas, que caprichou nas cores escuras e luzes infernais no episódio anterior (O Templo da Perdição). Lucas até veio com uma história sobre um castelo mal-assombrado, mas Spielberg já havia feito o seu filme de fantasmas (Poltergeist). Mesmo sem concordar 100%, Spielberg manteve o MacGuffin sugerido por Lucas: o Santo Graal. O diretor, no entanto, quis mostrar um pouco mais da personalidade do herói ao público e inseriu o pai do arqueólogo na trama.

Quem conhece a filmografia de Spielberg sabe o quanto ele trabalhou a imagem do pai ausente na vida de um filho. Foi assim em E.T., por exemplo. Spielberg gosta de mostrar como a distância dos pais afeta a fase da infância. Foi assim em Império do Sol e Fievel - Um Conto Americano, que ele apenas produz. Veja como a imagem dos pais é sempre forte nos filmes dirigidos ou produzidos por Spielberg: em De Volta Para o Futuro, Marty McFly (Michael J. Fox) acerta contas com o pai ao garantir sua própria existência numa louca viagem no tempo dirigida por um de seus "afilhados" (Robert Zemeckis). Em A.I. - Inteligência Artificial, um robô cultiva um amor eterno por sua mãe humana; em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Richard Dreyfuss abandona mulher e filhos para ir embora da Terra na companhia de extraterrestres; em Louca Escapada, Goldie Hawn provoca a fuga do marido da prisão para impedir que o bebê do casal seja entregue à adoção. São apenas alguns exemplos.

Mas quem seria o Sr. Jones? Como Spielberg sempre quis dirigir James Bond, ele convidou Sean Connery, o 007 original. E o melhor de todos. Connery ainda estava com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, por Os Intocáveis, brilhando em sua casa quando aceitou o convite. E olha que Sean Connery é somente 12 anos mais velho que Harrison Ford.

Para incrementar a relação entre pai e filho, Spielberg quis abrir o filme com o jovem Indiana Jones. A escolha foi River Phoenix, um dos talentos promissores da época, que também atuou ao lado de Harrison Ford em A Costa do Mosquito, de Peter Weir - o próprio Phoenix revelou que a experiência anterior facilitou sua tarefa de "imitar" os trejeitos do astro.

Como Spielberg queria retomar o clima de Os Caçadores da Arca Perdida, ele trouxe de volta os nazistas como vilões e personagens queridos pelos fãs como Marcus Brody (Denholm Elliott) e Sallah (John-Rhys Davies). Para viver a nova namorada de Indy, a escolha foi a atriz irlandesa Alison Doody, a mais bonita da série.

Indiana Jones e a Última Cruzada
ganhou o Oscar de Melhores Efeitos Sonoros (e disputou as categorias de Melhor Trilha Sonora e Melhor Som). Sean Connery foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante, mas foi bisonhamente esnobado pela Academia.

Steven Spielberg, George Lucas e Harrison Ford garantem que esse é o filme favorito deles. Com o sucesso da terceira aventura, o trio considerou fazer uma quarta parte num futuro próximo. Só que os três deveriam aprovar o roteiro. Não poderia ser dois votos contra um. O acordo era a unanimidade. E Ford sempre disse que só faria mais um se encontrasse uma história superior a Indiana Jones e a Última Cruzada. Enfim, o astro chegou a passar dos 60 anos e ninguém encontrava o roteiro perfeito, nem espaço nas agendas. Agora, quase duas décadas mais tarde, temos a oportunidade de ver Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal nos cinemas. Mesmo com Harrison Ford "velho demais". Desta vez, isso não foi uma preocupação.

segunda-feira, maio 19, 2008

Indiana Jones e o Templo da Perdição


Você lembra como foi a sua sensação depois de andar de montanha-russa pela primeira vez? Ou como você se sentiu ao saborear o gosto inédito de um doce como pudim de leite ou quindim? E como foi a experiência pela segunda vez? Tão boa quanto a primeira, certo? A diferença é que a primeira é especial, inesquecível. Agora, imagine como seria a sensação de ineditismo se Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and the Temple of Doom, 1984) fosse o filme original da saga em vez de Os Caçadores da Arca Perdida. Tenho certeza de que O Templo da Perdição teria o devido reconhecimento de crítica e público.

Mas Os Caçadores da Arca Perdida veio primeiro, então, sua originalidade permanece até os dias de hoje. E não adianta. Se tiver de escolher o Indy favorito numa rodinha de intelectuais, escolha Caçadores. Ou você dará vexame. Faça assim: durante a conversa, mostre sua admiração pela continuação aos poucos. Diga a eles que O Templo da Perdição é só correria e ação ininterrupta como ninguém mais conseguiu repetir ou copiar. Diga também que o filme te deixou sem fôlego e que Steven Spielberg e George Lucas criaram seqüências ainda mais impressionantes do que aquelas que você testemunhou de queixo caído em Os Caçadores da Arca Perdida (como a perseguição nas minas e o clímax na ponte). Não esqueça de elogiar uma nova trilha composta pelo maestro John Williams, que intercala com o tema principal, para ilustrar o tom sombrio deste segundo filme.

Diga aos admiradores do cinema de arte que Willie Scott (Kate Capshaw), a nova mocinha, não é tão carismática quanto Marion Ravenwood (Karen Allen). Mas lembre a todos de que a atriz tem o grito mais escandaloso do cinema desde que Fay Wray fez o King Kong original. E que você gargalhou na cena em que Willie fica coberta de insetos nojentos para salvar Indy (Harrison Ford) e seu sidekick mirim Short Round (Ke Huy Quan). Comente o quanto é impressionante a cena do sacrifício em nome da Deusa Kali, em que o vilão Mola Ram (Amrish Puri) arranca o coração de um pobre coitado. E tenha coragem para dizer que você decorou a sinistra fala: "Kali Ma... Kali Ma... Kali Ma... sha-ti-day" (juro que me esforcei, mas é algo assim).

Agora que você já deu na cara que é fã do filme, não tenha vergonha para revelar que já comentou sobre a famosa cena do jantar no Palácio Pankot durante uma refeição ao lado de amigos ou da própria família. E só para ver a cara de nojo da mãe, da irmã, da avó ou da namorada enquanto elas degustam o cardápio, que está longe de oferecer cobras, besouros, sopas de olhos e sorvetes de miolos de macacos.

Não tem jeito, lá no fundo, você adora esse filme. Não adianta esconder. Indiana Jones e o Templo da Perdição é o parâmetro, a referência para filme de aventura com ação interminável. Deve ter sido por causa deste longa que surgiram expressões tão clichês como "os cinemas deveriam colocar cinto de segurança nos assentos" ou "esse filme é uma montanha-russa".

Apesar da originalidade de Os Caçadores da Arca Perdida, Spielberg e Lucas não repetiram nada do primeiro filme. O curioso é que a trama de O Templo da Perdição se passa um ano antes de Caçadores. Ou seja, você deveria saber que Indy chegará vivo até o final. Mas durante o filme, todo mundo esquece deste detalhe, afinal ninguém pára de torcer por Indiana Jones - mesmo quando ele é hipnotizado pelo sangue de Kali.

Quando o filme termina, você conversa com os amigos e todos disfarçam que são adultos sérios ao disparar comentários do calibre de "É lógico que o Indiana Jones não ia morrer..." ou "Esse filme tem muita mentira." Então, não seja tímido. Solte a criança que existe em você. Isso é pura magia cinematográfica.

Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and the Temple of Doom, 1984)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Willard Huyck e Gloria Katz
Elenco: Harrison Ford, Kate Capshaw, Ke Huy Quan, Amrish Puri, Roshan Seth, Philip Stone, Roy Chiao e David Yip

Mas eu "tô" rindo à toa


Os grandes críticos que andam pelo Festival de Cannes tiveram a honra de conferir a primeira exibição de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Só li três críticas até o momento. E chega! Quero entrar no cinema como uma criança.

A Variety disse que "o novo filme não chega aos pés de Os Caçadores da Arca Perdida, mas está no mesmo nível das continuações 'medianas' O Templo da Perdição e A Última Cruzada". Já Luiz Carlos Merten (O Estado de S. Paulo) tem O Templo da Perdição como o seu favorito e coloca O Reino da Caveira de Cristal à altura dos outros dois filmes. Então, para mim, são ótimas notícias.

Meu amigo Fábio Barreto (correspondente em Los Angeles da revista Época e do Guia da Semana) fez uma resenha sem revelar nada da trama. Se quiser ler, clique aqui.

Enfim, não espero nada de O Reino da Caveira de Cristal além de diversão escapista, ininterrupta. O cinema não tem a obrigação de ser sempre divertido, mas também pode ser. Isso é fidelidade a uma das séries mais importantes da sétima arte. Esse filme nunca teve a intenção de reinventar Indy. Pelas críticas, o ritmo e o visual estão fiéis aos outros longas - o que me leva a acreditar que Spielberg fez um filme para os fãs e não se preocupou em conquistar uma nova geração. Nada mais justo, afinal os DVDs dos outros três filmes estão aí. Não vê quem não quer.

Ainda assim, posso ver o filme e me decepcionar, afinal fã também é uma coisinha chata. Quem gosta de Indy já deve ter imaginado mil situações diferentes para o quarto filme. Então, ficarei quietinho até lá. Se você quer saber, eu acho que o filme não será superior a nenhum dos outros três Indy, mas será legal assim mesmo. O que já é bom.

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal estréia nesta quinta-feira, mas a maioria dos cinemas já terá pré-estréias na quarta-feira. Graças a Deus!

domingo, maio 18, 2008

Speed Racer


Em 1999, os Irmãos Wachowski foram elogiados por crítica e público pela criação de uma ficção científica arrebatadora que, apesar dos efeitos visuais fantásticos e originais, dava mais importância à história do que qualquer outra coisa. O filme foi Matrix, um dos mais influentes dos últimos anos. Naquele mesmo ano, George Lucas foi criticado por exagerar na dose dos efeitos digitais de Star Wars - Episódio I: A Ameaça Fantasma e deixar de lado a magia habitual dos filmes da série. Desta vez, ironicamente, a crítica deve ser feita aos Wachowski, que retornaram cheios da grana, mas com menos imaginação e muito mais fascinados pela tecnologia do cinema atual na adaptação do desenho japonês Speed Racer (Speed Racer, 2008).

Ao contrário do que dizem por aí, o filme não é um desastre. É fiel ao clima do desenho original e tenta levar todos os detalhes de uma animação para dentro de um filme com atores de carne e osso. Nesse sentido, Speed Racer é mais bem-sucedido do que Os Flintstones, que envelheceu de forma bizarra. Isso talvez não aconteça com Speed Racer graças ao computador. A estilização é exagerada desde os cenários aos figurinos, passando pela edição vertiginosa nas seqüências de corrida - tem cena que não se vê nada com tanta informação visual na tela a mil por hora. O problema é: quando os nossos olhos se acostumam com o excesso de cores e movimentos, os Wachowski cortam para o público reagindo nos autódromos e para os locutores de rádio, TV e outras mídias. Um ou dois segundos depois, vem mais um corte e te arremessa de volta para a loucura visual das pistas. Enfim, Speed Racer não é um filme normal e os Wachowski querem mesmo buscar novas etapas para o cinema - não há somente a intenção de homenagear um de seus desenhos favoritos.


Dito isso, os admiradores do cinema moderninho e com ritmo de videoclipe vão adorar Speed Racer (talvez mais do que os fãs do desenho). É pegar ou largar, afinal com 10 minutos de filme, você já sabe que está diante de algo diferente. O excesso de efeitos, no entanto, não seria um problema grave se o roteiro de Speed Racer fosse bom. Qualquer elemento do cinema, seja luz, som ou efeito especial, é um instrumento a serviço do diretor, que pode ser bem ou mal usado. Mas uma boa história ainda é um instrumento imprescindível.


E, fora das pistas, Speed Racer até apresenta momentos cativantes, principalmente quando se concentra na forte e consistente relação entre cada integrante da família Racer. Algumas cenas chegam a emocionar. Speed Racer é cheio de pirotecnias, mas no fundo é uma história de amor familiar, principalmente entre dois irmãos movidos à velocidade. O que atrapalha? Não são os flashbacks no início, mas a intenção dos Wachowski em discutir a teoria da conspiração sobre a manipulação das corridas, que coloca os negócios das grandes corporações à frente do espetáculo do esporte. Pode ser um elo com a realidade? Talvez.

Mas esse aspecto do roteiro surge para mostrar que Speed (Emile Hirsch) pode provar que a paixão pelo esporte vai além dos milhões gastos e adquiridos com cada corrida. Todos sabemos que a discussão não abrange apenas o esporte, mas também o próprio cinema. Seria interessante, mas o problema é que essa parte do roteiro é um tanto burocrática e cansa, afinal tudo mostrado até a revelação deste momento é conduzido principalmente ao público infantil. E a criançada não está nem aí para essa crítica às grandes corporações. Então, Speed Racer não encontra um ponto de equilíbrio entre os três itens: o ousado espetáculo visual, a trama familiar e a polêmica discussão sobre as corridas arranjadas.

É uma pena que Speed Racer tenha muito mais falhas do que acertos. Vale pela curiosidade de ver algo diferente, mas isso não quer dizer que você verá um bom filme. É uma obra contada em camadas ou etapas, que jamais se encontram. No fim, é uma produção para quem acredita que o cinema precisa se modernizar. A geração Playstation e XBox vai adorar. Pelo menos, não é um filme digital frio como A Lenda de Beowulf. E não somente pela presença de atores reais, mas pela existência de emoção em alguns momentos isolados.

Speed Racer pode influenciar o cinema dos próximos anos, mas é bom que estúdios, produtores e diretores tenham em mente que o roteiro ainda é o instrumento principal na realização de um filme. A velocidade e a agilidade da trama são aspectos secundários.

Speed Racer (Speed Racer, 2008)
Direção: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Roteiro: Andy Wachowski e Larry Wachowski

Elenco: Emile Hirsch, Matthew Fox, Christina Ricci, Paulie Litt, John Goodman, Susan Sarandon, Kick Gurry e Roger Allam

sexta-feira, maio 16, 2008

Anti-Indiana Jones


Já li comentários alegando que Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é um filme desnecessário. De fato, nem mesmo O Templo da Perdição precisava ter sido feito, afinal Os Caçadores da Arca Perdida é uma obra completa. Mas se as continuações de Indiana Jones são desnecessárias, o que dizer de A Múmia - A Tumba do Imperador Dragão, a terceira aventura da série estrelada por Brendan Fraser? Alguém no mundo pediu por isso? Talvez os executivos da Universal.

Em 1999, A Múmia veio como aperitivo para o prato principal da temporada: Star Wars - Episódio I: A Ameaça Fantasma (note que estou falando das estratégias de marketing, pois todo mundo sabe que Matrix foi o verdadeiro e único grande blockbuster naquele ano). O diretor picareta Stephen Sommers ganhou a oportunidade de recriar um clássico do terror da Universal em formato de aventura no estilo Indiana Jones - só que carregada de efeitos digitais. O resultado é divertido e só. Mas A Múmia faturou uma boa grana e o estúdio encomendou uma seqüência com mesmo elenco e diretor.

Em O Retorno da Múmia, de 2001, Sommers repetiu tudo o que se viu no primeiro. A diferença é que ele recebeu mais dinheiro para gastar em muitos efeitos visuais, incluindo a artificial e horrorosa criação do Escorpião Rei (The Rock). Aliás, Sommers fez um bem danado ao cinema quando revelou o "talento" de Dwayne "The Rock" Johnson. No mesmo ano, no entanto, Peter Jackson lançou O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel, e ninguém lembrou que O Retorno da Múmia existiu.

A verdade é que A Múmia I e II são filmes sem alma. Não passam de produtos gerados por reuniões entre executivos dos grandes estúdios. Os efeitos especiais de A Múmia são os protagonistas de uma trama requentada desde Os Caçadores da Arca Perdida. A principal diferença entre as aventuras de Rick O' Connell e Indiana Jones está na magia e na empatia gerada pelos atores, além de competência em roteiro e direção. Stephen Sommers não é Steven Spielberg.

Desta vez, em A Múmia - A Tumba do Imperador Dragão, a Universal chamou o diretor Rob Cohen, o responsável pela bomba Velozes e Furiosos. Cheio da grana, Sommers foi cuidar de G.I. Joe, que estréia em 2009. A necessidade de fazer uma terceira aventura era tão grande, que nem mesmo a ausência de Rachel Weisz foi um problema - Cohen conta com Maria Bello, no papel de Evelyn, a esposa do aventureiro Rick O' Connell (Brendan Fraser). A troca não importa. O que vale é o filme estrear e faturar. Pelo menos, fomos poupados da volta de Imhotep (Arnold Vosloo). Isso quer dizer que não veremos as caras e bocas da criatura usando seus poderes para erguer mares e tempestades de areia - nem os famosos gritos desesperados: "Anck-su-Namuuuuuuuuuuun!"

Trailer do novo filme já está na rede

O primeiro trailer de A Múmia - A Tumba do Imperador Dragão foi divulgado hoje. O diretor prometeu que a prévia deixaria o público com o queixo no chão. Sem gozação, mas parece uma mistura de Os Aventureiros do Bairro Proibido, de John Carpenter, e Herói, um dos épicos de artes marciais do cineasta Zhang Yimou. De qualquer forma, avalie você mesmo:

quinta-feira, maio 15, 2008

Os bastidores do templo da perdição


Depois do sucesso de Os Caçadores da Arca Perdida, o diretor Steven Spielberg partiu para o set daquele que seria o seu filme mais querido pelo público: E.T. - O Extraterrestre. Enquanto isso, George Lucas arrastou Harrison Ford para concluir a trilogia original de Star Wars com O Retorno de Jedi.

O trio se tornou consolidado e insubstituível em Hollywood. Chegaram a dizer que Steven Spielberg era o nome mais forte ligado ao entretenimento desde Walt Disney. Com Han Solo, Indy e Deckard (de Blade Runner) no currículo, Harrison Ford deixou a pauta pronta para a imprensa chamá-lo de "astro do século" ainda na década de 1980. Já George Lucas virou referência de efeitos especiais (sonoros e visuais) graças ao império erguido com os resultados financeiros de Os Caçadores da Arca Perdida e Star Wars: a Industrial Light & Magic. A ILM, como também é conhecida, tornou-se absoluta no mercado. Diferente dos dias de hoje, não havia concorrência leal em termos de efeitos especiais.

É claro que os três (e a Paramount) ainda se reuniriam para novos filmes estrelados pelo arqueólogo Indiana Jones. Aliás, quando Spielberg aceitou dirigir Os Caçadores da Arca Perdida, Lucas disse que ainda queria fazer, pelo menos, mais duas aventuras com Indy. Era questão de tempo e agenda. George Lucas não queria repetir o primeiro longa em nenhum quesito. Para isso, o produtor buscou uma temática mais sombria - assim como ele fez com o segundo (e agora quinto) Star Wars, O Império Contra-Ataca.

Steven Spielberg jamais imaginou que Indy retornaria para um filme sombrio e não gostou tanto da idéia. Mas concordou com o amigo. O diretor também queria que Karen Allen voltasse, porém Lucas quis colocar Indy com mulheres diferentes em cada um dos filmes - assim como James Bond. Spielberg disse "sim" mais uma vez.
Só que ele se encantou com o teste de Kate Capshaw, que ganhou o papel da cantora Willie Scott. Detalhe: Willie era o nome da cadela de Spielberg. Vocês sabem que Indiana era o cachorro de Lucas, mas não sabem que Short Round (papel de Ke Huy Quan, que faria Os Goonies um ano depois) foi o nome do cachorro do casal de roteiristas Willard Huyck e Gloria Katz.

O fato é que muitas idéias de Indiana Jones e o Templo da Perdição já estavam prontas antes da contratação dos mesmos roteiristas de American Graffiti, outro sucesso de George Lucas. A seqüência do bote usado como pára-quedas, a fuga do bar Obi-Wan no início do filme e a perseguição nas minas foram criadas originalmente no roteiro de Os Caçadores da Arca Perdida.

Lucas queria filmar na Índia, mas complicações com o governo local, que não permitiu que a produção utilizasse a palavra "marajá", levaram todos para o Sri Lanka. A vila que guarda uma das pedras de Sankara e que teve suas crianças raptadas foi erguida em uma das locações de A Ponte do Rio Kwai, clássico de David Lean idolatrado por Spielberg.

Apesar da diversão reinar durante as filmagens, a produção enfrentou um inesperado problema que colocou o filme em risco. Numa cena de luta no quarto do Palácio Pankot, Harrison Ford machucou gravemente as costas. Lucas convenceu a Paramount a interromper a produção para que Harrison pudesse ser operado. Algumas cenas de ação até foram rodadas com o dublê Vic Armstrong - mais tarde, Spielberg inseriu alguns closes de Harrison quando o ator retornou.


Indiana Jones e o Templo da Perdição tem um ritmo impressionante de ação e aventura, mas a crítica em geral acabou com o filme. Muitas resenhas foram realmente pesadas e o próprio Spielberg confessa que esse é o episódio que menos gosta. No entanto, o diretor não se arrependeu de nada, afinal ele conheceu sua atual esposa: Kate Capshaw. Além disso, Spielberg dirigiu uma seqüência musical para abrir o filme - algo que ele jamais fez em sua carreira. Novamente, a idéia saiu da mente de George Lucas, que convenceu o amigo desta forma: "Você é um diretor frustrado de musicais. Sempre quis fazer um. Essa é a sua chance."

Em O Templo da Perdição, Spielberg aceitou as sugestões de Lucas, afinal o criador de Star Wars passou por um divórcio complicado naquela época. E a diversão era o que realmente importava na hora de fazer mais um filme de Indiana Jones. Então, nada de contrariar o amigo. Mas Spielberg teria mais "liberdade" para tocar a terceira parte da saga. Ele só precisou esperar mais um pouquinho.

Cannes também é tudo de bom


Ontem, eu disse que Blindness teve uma recepção fria da crítica presente no Festival de Cannes. Mas à noite, o filme foi exibido na abertura oficial para convidados ilustres como Cate Blanchett (foto), Faye Dunaway, Eva Longoria e vários nomes do cinema francês.

Na ocasião, Meirelles foi aplaudido de pé por cinco minutos. Como eu também disse no post de ontem, repito aqui: O cinema existe para o público. Não para a crítica.

quarta-feira, maio 14, 2008

Fernando Meirelles e o reino da crítica de cristal


Na abertura do Festival de Cannes, o diretor Fernando Meirelles posou para fotos ao lado do elenco de Blindness: Yoshino Kimura, Alice Braga, Don McKellar, Julianne Moore, Danny Glover e Gael Garcia Bernal.

Apesar da recepção calorosa dos fotógrafos, Meirelles recebeu críticas frias pelo filme. Os poucos elogios não foram assim tão empolgantes. Ninguém achou Blindness maravilhoso.

Na verdade, minha opinião jamais é afetada pelas resenhas dos críticos especializados. Mas me preocupo por Fernando Meirelles, que é um cineasta talentoso e não merece iniciar a divulgação de seu filme dessa maneira.

Acho que a exposição de Cannes é exageradamente visceral. Quando um filme detonado na Croisette chega ao Brasil, muitos vão aos cinemas com o pé atrás. Não falo da crítica em geral. Ela sempre existirá. Isso é óbvio. Só penso que Cannes não respeita o cinéfilo, que aguarda ansiosamente por alguns títulos que serão exibidos pela primeira vez neste festival. Como Cannes acontece sempre no início do ano, os filmes são distribuídos pelo mundo com as opiniões de quem esteve presente no festival. É um perigo.

Veja o caso de Onde os Fracos Não têm Vez, por exemplo. Exibido em Cannes no ano passado, o filme dos Irmãos Coen não levou nada. Muitos críticos desdenharam dos cineastas pelo fato de terem saído de mãos vazias. Li comentários do tipo. Mas o que aconteceu depois? O filme chegou ao resto do mundo e ganhou mil elogios, além de quatro Oscars. O cinema existe para o público. Não para a crítica.

A impressão é que Cannes é um lugar de donos de verdades absolutas ou dos reis da cocada preta. Eu não acredito tanto assim nos comentários gerais de Cannes. E você?

Entre vaias e aplausos

Começou hoje o festival de cinema mais charmoso (e exigente) do mundo. Em sua 61ª edição, o Festival de Cannes vai até o dia 25 de maio.

E quando digo "exigente", o adjetivo beira a falta de educação mesmo. As sessões em Cannes terminam com longos aplausos ou demoradas e barulhentas vaias. Ser fino não significa ter educação ou respeito. Portanto, boa sorte aos artistas que colocaram seus trabalhos neste vespeiro.

Na disputa pela Palma de Ouro, temos 22 filmes. Destaque para Che, de Steven Soderbergh, The Changeling, de Clint Eastwood, Synecdoche, New York, de Charlie Kaufman, Two Lovers, de James Gray, Palermo Shooting, de Wim Wenders, Adoration, de Atom Egoyan, Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, e Blindness, de Fernando Meirelles, que abriu o festival e dividiu a crítica.

Fora de competição, a Croisette está de olho em Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, de Steven Spielberg. Aliás, essa será a primeira exibição da quarta aventura de Indy. A sessão acontece no dia 18. Tenho contatos fiéis garantindo que os textos publicados em sites e blogs - incluindo uma crítica positiva da revista Playboy - são obras de farsantes. Enfim, o primeiro veredicto sai neste domingo.

Também fora de competição, destaque para Maradona by Kusturica, o documentário do diretor Emir Kusturica sobre o craque argentino. Outro título que chama a atenção é Surveillance, de Jennifer Lynch, filha do cineasta de Veludo Azul e Mulholland Drive. Mas essa não é a sua estréia. Jennifer é a responsável por um dos clássicos da ruindade dos anos 1990: Encaixotando Helena.

O próprio David Lynch é o autor da foto do pôster oficial do festival. A arte, no entanto, tem a assinatura de Pierre Collier. O júri é presidido pelo ator e diretor Sean Penn.

Obs: Meu amigo Vinicius Pereira cobre todo o festival no Blog do Vinicius.

terça-feira, maio 13, 2008

Cegueira geral na ponte estaiada


Inaugurada nesta semana em São Paulo, a ponte estaiada (que liga a Avenida Jornalista Roberto Marinho à Marginal Pinheiros no Brooklin, zona sul da capital) é realmente bonita, mas já foi dominada pelos milhares de veículos que entopem a cidade de poluição e estresse.

Antes de virar mais uma opção de engarrafamento, a ponte foi cenário de uma das cenas de Blindness, novo filme de Fernando Meirelles, que abre o 61º Festival de Cannes amanhã. Na foto acima, você pode ver Julianne Moore e Mark Ruffalo à frente de outros atores que não consigo reconhecer - embora eu não tenha problemas de visão como os personagens do filme.


Baseado no livro Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, Blindness narra uma terrível epidemia que deixa a população mundial que nem o Ray Charles e o Stevie Wonder. Se você enxerga e ainda não viu o fantástico trailer, clique aqui. O filme estréia no Brasil em 12 de setembro.

segunda-feira, maio 12, 2008

Novo Arquivo X já tem trailer


Uma das estréias mais aguardadas do ano é The X-Files: I Want to Believe, o segundo filme baseado numa das mais importantes séries de TV dos últimos tempos: Arquivo X.

Os fãs discutem cada detalhe das filmagens. Alguns querem saber se o criador da série, Chris Carter (ele também é o diretor do longa), fará um filme digno da saga ou se a empreitada resultará numa produção burocrática como o primeiro filme de 1998. Outros querem saber se os agentes Mulder (David Duchovny) e Scully (Gillian Anderson) finalmente darão um beijinho.

O que eu espero de The X-Files: I Want to Believe? Intriga, tensão e muita correria. Acho que o romance poderia ficar em segundo (ou terceiro) plano. Essa preocupação com o tal beijo seria algo como sobrar tempo para romance em Seven. Antes das pedradas: também sou um humilde fã de Arquivo X.

A estréia está prometida para o dia 25 de julho. Até lá, o fã pode se acalmar com o trailer, que foi divulgado hoje. Veja abaixo:



domingo, maio 11, 2008

Os Caçadores da Arca Perdida


Inspirado nas matinês dos anos 1930, Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981) definiu um gênero e apresentou um novo herói do cinema. A palavra "aventura" pode ser analisada antes e depois de Indiana Jones, professor universitário e arqueólogo, que atua como defensor das relíquias históricas como arte. Indy não busca tesouros para benefício próprio, mas para preservá-los como registros concretos da história da Humanidade. Estudioso do passado, Indy jamais se apresenta de forma cética. Pelo contrário, ele não precisa ver para crer e sabe que as possíveis forças sobrenaturais contidas em famosas relíquias não devem ser objetos de estudo e estão além da compreensão do Homem. Para o Dr. Jones, os artefatos pertencem aos museus. Involuntariamente, ele acaba exercendo a função do exército de um homem só a serviço de Deus. Mas tal imagem é concretizada somente no terceiro filme.

Indiana Jones é interpretado brilhantemente por Harrison Ford, que jamais foi considerado como um bom ator. Mas tente imaginar Jones na pele de um Daniel Day-Lewis, por exemplo. Impossível, não? Isso também é mérito da atuação de Harrison Ford, que dá credibilidade à magia que o produtor George Lucas e o diretor Steven Spielberg querem passar.

Os Caçadores da Arca Perdida é uma compilação das aventuras que encantaram Steven e George. Ou seja, o filme é um devaneio da mente e do coração de duas crianças grandes. Na trama iniciada em 1936 - obviamente como homenagem ao gênero demonstrado nas clássicas matinês idolatradas pela dupla de realizadores -, Indy está em busca de um ídolo dourado em algum lugar da América do Sul. O herói enfrenta armadilhas, incluindo uma fuga desesperada de uma pedra gigante, traidores, índios selvagens, salta buracos com o auxílio de seu chicote, passa por teias repletas de aranhas e atravessa passagens segundos antes que elas se fechem para sempre. Numa seqüência vibrante de sons, imagens e pouquíssimos diálogos, o espectador conhece Indiana Jones e já está preso no filme. E a verdadeira trama ainda nem começou.

Ao retornar para sua vida pacata de professor universítário, Jones é chamado para uma reunião com dois representantes do serviço secreto americano. Eles contratam o arqueólogo para encontrar a lendária Arca da Aliança (que guarda os Dez Mandamentos) antes dos nazistas de Hitler. É o bem contra o mal. Steven Spielberg é judeu e nada melhor do que colocar o temido exército alemão da Segunda Guerra Mundial como vilão. Mas os mocinhos não são exatamente os americanos, mas um Indiana Jones apolítico e amante da arqueologia. Porém, falaremos disso depois.

Além da aventura inesquecível, outra jogada de mestre de Steven e George (e Harrison Ford) foi caracterizar Indiana Jones como um herói imperfeito, falível. A alma é dos mocinhos das matinês, mas Indy sangra e se quebra todo para chegar vivo no final. Talvez, pela primeira vez no cinema, um herói sofreu fisicamente e o público notou.

Até conseguir a Arca, Indy vive um intenso "perde e ganha" com os nazistas. O filme não pára. São cenas de ação delirantes e, até então, jamais vistas. A montagem de Michael Kahn tornou a viagem alucinante e ditou o tom do gênero nos anos seguintes. A música de John Williams virou uma lenda e referência de aventura. Após quase 30 anos, Os Caçadores da Arca Perdida ainda é lembrado por diversas cenas memoráveis. O filme nunca envelheceu. Mesmo com efeitos visuais modestos, seu conceito permanece atual. Ao embarcar na trama após os 15 minutos iniciais, você não sai mais. Nem mesmo quando sobem os créditos finais com o tema de John Williams.


Apesar de todas essas referências, Os Caçadores da Arca Perdida permanece atual por um ponto de vista pouco discutido. Os artefatos que Indy persegue são MacGuffins - Alfred Hitchcock popularizou o termo como um objeto que não tem a mínima importância para o espectador, mas que pode valer a vida do protagonista. No caso deste filme, a arca é o MacGuffin. Uma das camadas da genialidade de Steven Spielberg foi divertir o público para discutir um assunto polêmico: a competição (ou corrida) armamentista. Os Caçadores da Arca Perdida não alerta somente para o perigo do poder absoluto nas mãos do Homem, mas alfineta a necessidade bélica de qualquer país desenvolvido. Neste caso, não existem mocinhos nem bandidos.

Movido pela arqueologia, Indy não sabe que está sendo enganado e manipulado pelo próprio país, que não quer ver a arca usada como arma de guerra pelo inimigo alemão. Quando Indy retorna aos EUA, ele quer que a arca vá para um museu, mas o artefato termina confinado numa caixa e armazenado ao lado de tantas outras com o rótulo de "segredo militar". A Alemanha não pode ter uma arma assim nas mãos. Mas os americanos podem.

Parece exagero e talvez Steven Spielberg nem queira entrar na discussão, mas Os Caçadores da Arca Perdida é o único filme da série que termina "triste". Ao mesmo tempo, Indy sai vitorioso e derrotado. Será que, em 1981, Steven alertava o governo americano para os limites de seus próprios poderes? Será que o diretor já previa os dias de hoje? Provavelmente, ele apontou o potencial dos EUA para se erguer como uma nova Alemanha Nazista.

No fim, Os Caçadores da Arca Perdida é lembrado pela diversão ininterrupta, mas esse final me intriga até hoje. Talvez seja um diferencial para os outros filmes da série (e as infinitas imitações), que não discutem nada tão profundo e se concentram exclusivamente na aventura. O que não é problema algum, afinal se aventura tem um nome, este é "Indiana Jones".

Os Caçadores da Arca Perdida
(Raiders of the Lost Ark, 1981)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Lawrence Kasdan
Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Denholm Elliott, Alfred Molina e Wolf Kahler

sábado, maio 10, 2008

Os bastidores da arca perdida


Antes de filmar Guerra nas Estrelas, George Lucas já havia imaginado o perfil de um arqueólogo envolvido nas mais fantásticas aventuras. Sua idéia era fazer uma homenagem às clássicas matinês que dominaram os cinemas na época em que o diretor, produtor e roteirista ainda era um menino. Nos anos 1930, as atitudes corretas dos heróis das matinês serviam de exemplo para a garotada. Atores como Gene Autry, Roy Rogers, William Boyd, Charles Starret, Tim Holt e Rocky Lane encantaram o pequeno George Lucas.

As matinês apresentavam filmes de médio e baixo orçamento, produzidos para exibições duplas e estrelados, geralmente, por campeões de rodeios e cantores de música country. No fim de cada episódio, o herói costumava estar prestes a morrer nas garras do vilão (ou de uma armadilha) e surgia na tela algumas chamadas clássicas como "Será que ele conseguirá escapar?", "Não perca a conclusão na próxima semana...".

Com esses conceitos em mente, George Lucas começou a discutir o argumento com o diretor Philip Kaufman. Mas quando o amigo se envolveu com o roteiro de Josey Wales, o Fora-da-Lei, de Clint Eastwood, George deixou as aventuras do arqueólogo de chapéu, jaqueta e chicote (figurinos comuns em heróis dos anos 1930) para uma outra oportunidade e se dedicou a Guerra nas Estrelas.

No verão de 1977, enquanto esperava pelo resultado da bilheteria do primeiro final de semana de Guerra nas Estrelas, George curtia as praias do Havaí, longe do tumulto da estréia, ao lado do amigo Steven Spielberg. Numa conversa aleatória, o cineasta recém-saído de sucessos como Tubarão e Contatos Imediatos do Terceiro Grau confessou que gostaria de dirigir um filme de James Bond. George respondeu: "Esqueça. Eu tenho algo melhor pra você." Naquele exato momento, a aventura imaginada por George Lucas antes das filmagens de Guerra nas Estrelas ganhava vida.

Na verdade, o protagonista era chamado de Indiana Smith. George pegou o primeiro nome emprestado de seu próprio cachorro na época. Steven só não gostou do sobrenome. Então, George sugeriu: "Ok. Que tal Indiana Jones?". Steven concordou na hora: "Ok. Vamos em frente."

Steven tinha algumas idéias. George tinha outras. E o Indiana Jones imaginado pelos dois carregava uma aura de Humphrey Bogart, no clássico O Tesouro de Sierra Madre. Mas quando ambos conversaram com o cineasta Lawrence Kasdan, que aceitou escrever o roteiro, Indiana Jones ganhou características mais vibrantes e as idéias de Steven e George finalmente se encaixaram dentro de uma história chamada Os Caçadores da Arca Perdida.

Para interpretar Indy, Steven sugeriu Harrison Ford, que trabalhou com George em Guerra nas Estrelas como o anti-herói Han Solo. Mas George disse que não queria que Harrison fosse o seu "Robert De Niro" (uma alusão à famosa parceria entre Martin Scorsese e De Niro). A dupla, então, chegou ao nome de Tom Selleck, que fez vários testes para o papel. Mas uma intervenção de um canal de TV, que afirmou ter contrato assinado com o ator para protagonizar a séria Magnum, fez Steven sugerir novamente Harrison Ford. George aceitou. A namorada de Indy, Marion Ravenwood, quase ficou com a atriz Sean Young (que depois faria Blade Runner com Ford). Mas Steven ficou encantado por Karen Allen, quando viu a comédia Clube dos Cafajestes, de John Landis. Alguns testes depois e Karen agarrou o papel.


Como todo grande sucesso, muitos estúdios recusaram bancar uma aventura à moda antiga, que sairia muito cara no início dos anos 1980. O que era compreensível, afinal Hollywood acabara de deixar um terrível período de fracassos de bilheterias para trás graças justamente a Guerra nas Estrelas e Tubarão. Steven e George eram minas de ouro, mas os estúdios também não queriam abusar. Mas após diversas reuniões, George convenceu a Paramount com o argumento de que o filme seria rodado em pouco tempo, com takes econômicos e truques rápidos usados em séries de TV - nada de efeitos visuais complicados. O filme estreou em 1981 e o resto é História.

Alguns acreditam que um grande filme é aquele que fica na memória do espectador. Simples assim. Os Caçadores da Arca Perdida tem duas ou três cenas clássicas. Posso citar Indy correndo daquela pedra gigantesca no início do filme e a cena do herói derrotando um ás das espadas com um único tiro - quando todos esperavam por uma luta de encher os olhos. E o que dizer de Indy sendo arrastado por um caminhão, enquanto persegue a Arca da Aliança? Talvez você prefira outras cenas deste filme que definiu o gênero da aventura para sempre, mas é apenas mais um aspecto da diversão ter de escolher suas cenas prediletas.

O próprio Steven Spielberg diz que assiste aos seus filmes e sempre encontra uma ou outra cena que ele gostaria de ter feito diferente. Ou seja, sempre com um olhar crítico. Mas quando revê Caçadores, Steven confessa que esquece quem foi o diretor e senta para assisti-lo como se fosse qualquer outra pessoa com o prazer de um mero espectador.

Essa magia proporcionada por Caçadores atingiu a Academia, que sempre foi muito rigorosa com "filmes de entretenimento". Caçadores recebeu nove indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. Ganhou quatro estatuetas: Melhor Direção de Arte, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Som e Melhor Montagem. E abriu caminho para duas seqüências ainda nos anos 1980.

Um olhar mais atento sabe que essa primeira aventura de Indiana Jones foi um marco na história do cinema. A música de John Williams virou significado universal da palavra "aventura". A montagem de Michael Kahn definiu o ritmo da ação para os próximos anos. Os efeitos sonoros da série são únicos. Tente reparar no som dos tiros e no impacto de cada soco desferido nos filmes de Indiana Jones. São marcas registradas. Não é para qualquer um, afinal já se passaram quase 30 anos. Deste filme em diante, a aventura ganhou um nome: Indiana Jones.

sexta-feira, maio 09, 2008

O último e o primeiro


Você acha que são fotos planejadas? Então, veja George Lucas e Steven Spielberg, no set de Os Caçadores da Arca Perdida (1981). E...


...Lucas e Spielberg posando para nova foto durante as filmagens de O Reino da Caveira de Cristal (2008).

quinta-feira, maio 08, 2008

Antes tarde do que nunca


Eu disse que voltaria no próximo sábado, mas se este blogueiro não escrever, o destino certo é a morte, afinal como fica o ser humano sem comunicação? Como fica um comunicador sem conhecimento? Como adquirir conhecimento sem contato algum com a arte? E como ficar longe da arte quando o cinema é a maior paixão da minha vida? Sem o cinema, eu não sou ninguém. É a morte certa.

E como ficar de fora deste mês de maio? Já tivemos o bacana Homem de Ferro e o "ame ou odeie" O Sonho de Cassandra, de Woody Allen. Amanhã, Speed Racer chega aos cinemas. Até o fim de maio, temos compromisso com As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal.

Gente, é Indiana Jones! O primeiro filme da saga, Os Caçadores da Arca Perdida, tem extrema importância para a minha formação como homem, cinéfilo e nerd. Esse filme despertou o meu fascínio pelo cinema. Lembro até hoje quando meu pai comprou nosso primeiro vídeo cassete e pegou uma cópia feita pelo meu tio de Caçadores. Poucos dias depois, assisti a cópia de Indiana Jones e o Templo da Perdição e, alguns anos mais tarde, meu pai me levou ao cinema para a estréia de Indiana Jones e a Última Cruzada. Achei que ao ver Indy (Harrison Ford) cavalgar rumo ao pôr-do-sol ao lado de seu pai, o Dr. Henry Jones (Sean Connery), e os amigos Marcus Brody (o saudoso Denholm Elliott) e Sallah (John Rhys-Davies) seria a despedida de uma série cinematográfica de caráter único e insubstituível. Apesar das infinitas imitações.

Ainda bem que eu me enganei. 19 anos depois, Steven Spielberg, George Lucas e Harrison Ford voltam para Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Você pode até não esperar pelo melhor filme do ano, mas é certamente o maior lançamento hollywoodiano de 2008. Não há como ficar indiferente. Indy é um ícone pop. Você cresceu vendo o herói nos cinemas ou em velhas fitas VHS ou em reprises na TV. É impossível negar a influência de Indiana Jones, personagem que viveu aventuras respeitadas e admiradas até por quem não gosta tanto assim do cinema americano.

Agüenta aí. O dia 22 de maio está chegando. Mas, neste final de semana, vamos recapitular a série aqui no HOLLYWOODIANO - começando obviamente por Os Caçadores da Arca Perdida. Não perca.

terça-feira, maio 06, 2008

Semana do saco cheio


Caros amigos,

Isso não é ressaca depois de tanta festa pela conquista do bicampeonato carioca. O problema é que este humilde cinéfilo rubro-negro passa por uma turbulenta semana com a agenda lotada de compromissos laboriais. Tenho tanta coisa para resolver no trabalho, que chego em casa esgotado para atualizar o HOLLYWOODIANO e visitar os blogs de todos vocês com a devida atenção.

Gostaria de pedir desculpas pela ausência nesta semana, mas prometo retornar com novos posts (e visitas aos blogs) a partir do próximo sábado. Tudo voltará ao normal.

E, claro, falaremos da estréia mais importante desta sexta-feira: Speed Racer, a adaptação do clássico da animação feita pelos irmãos Andy e Larry Wachowski, responsáveis pela trilogia Matrix.

A gente se fala!

Boa semana a todos,

Otavio Almeida
www.hollywoodiano.com

sexta-feira, maio 02, 2008

Homem de Ferro


Homem de Ferro (Iron Man, 2008) é entretenimento de primeira e um deleite para os fãs do universo Marvel. O ator e diretor Jon Favreau (Zathura) fez um belo trabalho tanto para aqueles que não conhecem o herói quanto para os fãs mais exigentes. Para isso, ele contou com um roteiro competente, efeitos visuais e sonoros perfeitos, uma trilha rock n' roll impecável e um elenco que levou um "filme de super-herói" a sério, principalmente Robert Downey Jr.

O magnata Tony Stark desenvolvido pelo ator é um gênio arrogante, mulherengo e que só pensa em seu próprio bem estar. Mas o incrível é ver como Downey Jr. consegue torná-lo simpático. E estamos falando de um homem que lucra bilhões com a indústria armamentista e nem liga para as conseqüências desse poder nas mãos de cada um dos compradores. O que Stark deseja é fazer mais dinheiro para aproveitar a vida com belos carros e lindas mulheres descartáveis.

Ironicamente, ele experimenta seu próprio veneno. Em uma de suas negociações com o exército, Stark é capturado por tropas inimigas no Oriente Médio. Ferido por estilhaços de uma bomba criada por sua empresa, Stark acredita que ficou vivo por alguma razão especial. Nasce um novo homem com uma nova consciência, graças a um coração que não é humano. Surge o Homem de Ferro.

É aqui que começa a questão que mais chamou a minha atenção neste filme: qual é o significado da palavra "coração"? Stark precisou perder seu coração para aprender a ter compaixão e sonhar com um mundo melhor. Então, quem possui um órgão chamado de coração não tem, necessariamente, "coração"?

Até chegar neste ponto, o diretor Jon Favreau conta sua história com extrema paciência. E você sabe como isso é uma raridade em filmes do gênero. Mas quando a ação explode, em momentos certos, ela é espetacular. Destaque para a maravilhosa seqüência que começa com o Homem de Ferro mandando uns soldados pelos ares, passando por um duelo com um tanque de guerra e terminando com uma batalha aérea insana contra dois caças.

Apesar da precisão de Favreau, ele jamais tornaria seu filme convincente sem a dedicação de Robert Downey Jr. Um exemplo é ver como o ator conduz essa mudança de espírito de Tony Stark sem esbarrar nos clichês. Em cada cena, Downey Jr. mostra que o protagonista não vira um personagem feliz de um filme de Frank Capra. Ele se torna uma boa pessoa, mas continua metido, egocêntrico e só entra em ação com a armadura vermelha e dourada quando a ameaça envolve os malefícios gerados por sua empresa. Ou seja, ele não sai por aí enfrentando qualquer ladrãozinho nas ruas ou procurando por mocinhas indefesas. Ele não quer é que sua empresa, nas mãos de seus ex-colegas de trabalho, destrua o mundo. No fim, Stark quer seu nome longe de qualquer polêmica. Pode até ser que a inevitável continuação mostre que ele é solidário, mas pelo menos neste filme, o herói só resolve seus próprios problemas.

Talvez seja uma falha da produção. Ou talvez não. Pode ser uma abordagem original e fascinante, mas que incomoda um olhar mais atento. Mas são observações que tornam o filme mais real. Aliás, é impressionante como Homem de Ferro, a criação de Stan Lee e Jack Kirby, parece uma ficção científica datada nos quadrinhos clássicos, mas surge tão atual e verossímil neste filme. Em um mundo que funciona em constante evolução tecnológica, Homem de Ferro é tudo, menos ficção científica. É um filme "pé no chão", por mais estranho que isso possa parecer.

Trata-se de uma história que só poderia ter sido contada no século XXI. É claro que alguém poderia contá-la no cinema dos anos 1970 ou 1980. Mas o filme daquela época terminaria fatalmente datado aos olhos da geração atual. No entanto, o Homem de Ferro, de Jon Favreau, jamais envelhecerá.

Mesmo com tantas discussões sérias sobre o mundo inseridas na trama (a crítica à produção massiva de armas é uma delas), vamos falar a verdade, Homem de Ferro foi feito para ser um espetáculo delirante capaz de levar o grande público aos cinemas. E, nesse quesito, ele é Nota 10.

O filme é divertido, empolgante e vale o ingresso para quem procura uma bela diversão. Com uma pitada cuidadosa de humor, Homem de Ferro ainda consegue arrancar boas risadas do público. Tente não rir no primeiro teste de vôo na garagem de Tony Stark, por exemplo. Favreau ainda inseriu umas e outras referências ao universo Marvel em algumas cenas. Mas piadas e sacadas reconhecidas pelos fãs não deixam os iniciantes perdidos. São méritos de um roteiro esperto e de uma equipe em completa sincronia em nome do bom entretenimento. Você pode até não achar Homem de Ferro perfeito, mas o filme deixa as crianças (dos oito aos 80 anos de idade) satisfeitas na saída do cinema. Isso é dinheiro bem gasto.

Homem de Ferro (Iron Man, 2008)
Direção: Jon Favreau
Roteiro: Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum e Matt Holloway
Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Terrence Howard, Jeff Bridges, Jon Favreau, Leslie Bibb, Shaun Toub, Faran Tahir, Sayed Badreya, Bill Smitrovich, Clark Gregg, Tim Guinee e Will Lyman